sábado, 24 de agosto de 2019

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E agora?

Por Redação com G1

A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos é o evento político mais significativo para a humanidade desde o final Segunda Guerra Mundial. O povo americano escolheu um líder cuja plataforma consiste, basicamente, em demolir, ou simplesmente rejeitar, a estrutura institucional global criada sobre os escombros da guerra – organismos como ONU, Otan, Banco Mundial, FMI e vários acordos de livre-comércio. Não se sabe o que virá.

O povo americano entregou os códigos nucleares a um empresário sem nenhum tipo de experiência com política ou governo, conhecido mais por ter se tornado estrela de reality show do que pelo êxito no mundo dos negócios. Trump é uma caricatura de si mesmo. Inútil, a esta altura, repetir as dezenas de declarações absurdas, promessas inviáveis e planos ultrajantes de sua campanha – muçulmanos? mexicanos? mulheres? negros? deficientes? Bravatas já se tornaram a norma no mundo político.

Mas Trump deu um passo além no caminho da fantasia inaugurado por Ronald Reagan – um (mau) ator, cujo sucesso político foi erguido sobre uma capacidade única de mentir diante das câmaras. Reagan sabia exatamente quando e por que mentia. Tinha um invejável talento para a articulação política. Trump crê na própria fabulação. Enxerga a política como um reality show, onde o mais importante é manter o suspense sobre o próximo perdedor – muçulmanos? mexicanos? mulheres? negros? deficientes? –, já que o vencedor só pode ser ele.

Os Estados Unidos já tiveram sua cota de políticos populistas, do governador Huey Long, da Louisiana (retratado no filme A grande ilusão) à campanha antissemita promovida no rádio pelo padre Charles Coughlin, ambos nos anos 1930. É preciso recuar quase duzentos anos na história, até a eleição de Andrew Jackson em 1828, para encontrar um presidente eleito à revelia do establishment.

Na época, as consequências econômicas do combate de Jackson aos “bancos e corporações” foram dramáticas. Ele desprezava políticos tradicionais, montou um gabinete de apaniguados, adotou um sem-número de medidas controversas – entre as quais a expulsão de índios de seus territórios – e plantou as sementes tanto do Partido Democrata quanto da Guerra de Secessão.

O melhor paralelo para Trump ainda parece estar na literatura. Em Complô contra a América, Philip Roth imagina uma história alternativa em que o simpatizante nazista Charles Lindbergh derrota Franklin Roosevelt nas eleições de 1936 e passa a agir como fantoche da Alemanha nazista (leia mais aqui). Em Graça Infinita, David Foster Wallace imagina uma distopia em que um país reunindo Estados Unidos, México e Canadá – a Onan – é governado por Johny Gentle, um  ex-cantor germofóbico e incapaz, eleito com a plataforma de “tornar a América limpa”.

A diferença é que Trump não é ficção. Ninguém sabe ao certo como se dará na prática seu projeto de “tornar a América grande de novo”. Ele construirá mesmo um muro na fronteira com o México? Acabará com o Nafta e o TPP, impondo um freio ao crescimento global? Expulsará mesmo 11 milhões de ilegais? Imporá restrições à entrada no Estados Unidos com base na religião? Como atacará o Estado Islâmico? Qual será sua relação com o russo Vladimir Putin? Ou tudo não passou de um amontoado de mentiras conveniente para atrair o voto do eleitorado menos instruído do Meio Oeste?

Populistas, quando chegam ao poder, não costumam abandonar suas promessas. Ao pô-las em prática, sua retórica sempre é capaz de encontrar um culpado a quem exportar eventuais fracassos. O discurso não precisa ter compromisso com a realidade. Nem é preciso que adotem um papel de tirano sanguinário, como Hitler ou Mussolini. É possível vislumbrar os Estados Unidos de Trump olhando para exemplos menos extremos, como a Hungria de Viktor Orbán, a Venezuela de Hugo Chávez ou a Argentina do casal Kirchner.

Trump, claro, terá mais poder que todos os populistas jamais tiveram na história humana. Um poder para o qual nunca foi testado e a respeito do qual já demontrou ignorância profunda, como revelaram suas declarações sobre a Otan e armas nucleares. Na entrevista em que demonstrou remorso por ter ajudado a criar a imagem de Trump com o livro A arte da negociação (leia mais aqui), seu ghost writer Tony Schwartz o chamou de “sociopata” e disse acreditar que haveria uma “excelente possibilidade” de uma vitória de Trump levar ao “fim da civilização”.

Há uma dose de exagero aí. Mas Trump não é um risco mensurável. Ele é incerteza. Um ingrediente não captado por pesquisas e pelos meios de análise convencional – daí o favoritismo de Hillary Clinton até a undécima hora. A principal lição a tirar da eleição de ontem foi a incapacidade de políticos, instituições, empresas de pesquisa e da imprensa – na qual me incluo e faço aqui um mea culpa – em lidar com essa incerteza.

Uns poucos souberam entender o movimento do eleitorado branco sem intrução superior do Meio Oeste. Em julho, o documentarista e ativista de esquerda Michael Moore previu em seu blog a vitória de Trump no Michigan, seu estado natal, cuja indústria foi devastada nos últimos anos. Os empregos do eleitor branco de classe média baixa foram exportados para a China – sem que nada fosse colocado no lugar. Sem pertencer a nenhuma minoria protegida por alguma política social, tal eleitor acorreu em massa a Trump  não só no Michigan, mas também no Wisconsin, na Pensilvânia, Iowa e Ohio e condados de Minnesota.

Há quem tenha celebrado a vitória de Trump nesse eleitorado como mais um triunfo sobre as ideias equivocadas da “esquerda politicamente correta”. As redes sociais foram inundadas comparações estapafúrdias entre Hillary e Dilma Rousseff – quem dera Dilma tivesse um décimo do preparo de Hillary… Pior, muitos minimizaram a associação de Trump com grupos flagrantemente racistas, misóginos e antissemitas. Tudo isso é uma mistura perigosa de ignorância e simplificação.

Trump não é conservador nem liberal. Seu discurso é reacionário. Nada mais “esquerdista” que a plataforma econômica de Trump, com o fechamento de fronteiras. Nada mais “direitista” que os afagos ao racismo atávico do americano. Ele consegue reunir, de modo singular, o pior dos dois extremos no espectro ideológico. Se Barack Obama havia sido eleito com base na promessa e na esperança, Trump venceu numa eleição em que prosperou o discurso do medo. Não, a América não saiu “grande de novo” ontem das urnas. Saiu menor do que jamais foi.

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