Vida e Saúde

Paracetamol na gravidez não eleva risco de autismo, TDAH ou deficiência intelectual, aponta estudo

O paracetamol é o medicamento de primeira linha recomendado para gestantes com dor ou febre pelas principais diretrizes, mas havia dúvidas sobre sua segurança

Agência O Globo - 16/01/2026
Paracetamol na gravidez não eleva risco de autismo, TDAH ou deficiência intelectual, aponta estudo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Tomar paracetamol durante a gravidez não aumenta o risco de autismo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou deficiência intelectual em crianças. Essa é a conclusão da análise mais rigorosa sobre o tema até o momento, publicada nesta sexta-feira (16) no periódico científico The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, liderada por pesquisadores da City St George’s, Universidade de Londres.

“A mensagem é clara: o paracetamol continua sendo uma opção segura durante a gravidez, quando tomado conforme as instruções. Isso é importante, pois o paracetamol é o medicamento de primeira linha que recomendamos para gestantes com dor ou febre, e, portanto, elas devem se sentir tranquilas sabendo que ainda têm uma opção segura para aliviar seus sintomas”, afirma Asma Khalil, professora de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal da City St George’s, Universidade de Londres, e obstetra consultora que liderou o estudo, em comunicado.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise de 43 estudos existentes para determinar a segurança do uso de paracetamol na gestação. A análise foi motivada por preocupações públicas após alegações de que o medicamento poderia afetar o neurodesenvolvimento das crianças e aumentar o risco de autismo.

Essas alegações se baseavam em estudos anteriores que relataram pequenas associações entre o uso de paracetamol na gravidez e o risco de autismo. No entanto, esses estudos frequentemente apresentavam limitações metodológicas, como vieses nos dados coletados e ausência de comparações entre irmãos para considerar o histórico familiar.

A equipe avaliou 43 estudos de alta qualidade e rigor metodológico, comparando gestações em que a mãe tomou paracetamol com aquelas em que não houve uso do medicamento.

Foram reunidos resultados de estudos comparativos entre irmãos — nos quais irmãos nascidos da mesma mãe, em que uma gestação envolveu exposição ao paracetamol e outra não. Esse delineamento permite controlar fatores genéticos compartilhados, ambiente familiar e características parentais de longo prazo, que estudos tradicionais não conseguem considerar plenamente.

Nos estudos comparativos entre irmãos, os dados incluíram 262.852 crianças avaliadas para autismo, 335.255 para TDAH e 406.681 para deficiência intelectual. Os resultados confirmaram que o uso de paracetamol durante a gestação não está associado ao autismo, TDAH ou deficiência intelectual na infância.

“Nossos resultados sugerem que as associações relatadas anteriormente provavelmente se devem à predisposição genética ou a outros fatores maternos, como febre ou dor subjacente, e não a um efeito direto do paracetamol em si”, explica Khalil. “Todos os estudos foram avaliados quanto à sua qualidade com base na ferramenta QUIPS (Quality In Prognosis Studies), que considera diversos fatores metodológicos para determinar o risco de viés, outro ponto forte deste trabalho. A ausência de associação entre o uso de paracetamol durante a gravidez e o risco de a criança apresentar autismo, TDAH ou deficiência intelectual também se manteve nos estudos considerados de baixo risco de viés e naqueles com acompanhamento superior a cinco anos”, completa.

Os autores destacam que uma limitação do estudo foi a impossibilidade de analisar grupos menores nos estudos com comparações entre irmãos, com base no trimestre da gravidez em que o paracetamol foi consumido, no sexo do bebê ou na frequência de uso, devido ao número insuficiente de pesquisas com esses dados.

De modo geral, os resultados reforçam as recomendações das principais organizações médicas do mundo. Os pesquisadores esperam que esta revisão de referência elimine dúvidas quanto ao uso de paracetamol durante a gravidez, já que evitar o medicamento para dor ou febre intensa pode expor mãe e bebê a riscos conhecidos, principalmente se não tratados.