Vida e Saúde

Ler para crianças pequenas todas as noites melhora empatia e criatividade

Declínio na empatia e criatividade entre jovens pode estar ligado a mudanças no estilo de vida, educação e no aumento do uso de tecnologia

Agência O Globo - 15/01/2026
Ler para crianças pequenas todas as noites melhora empatia e criatividade
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Empatia é uma habilidade multidimensional, que envolve tanto a compreensão dos pensamentos dos outros (empatia cognitiva) quanto o compartilhamento dos sentimentos alheios (empatia emocional). Esse atributo se desenvolve na primeira infância, especialmente por meio de interações sociais e experiências de aprendizagem.

Pesquisas recentes apontam para um declínio preocupante na criatividade e na empatia entre jovens, fenômeno que pode estar relacionado a mudanças no estilo de vida, no ambiente educacional e ao aumento do uso de tecnologia.

Um estudo publicado na revista PLOS One revelou uma estratégia simples e eficaz para estimular a empatia em crianças: a leitura diária de livros. Pesquisadores investigaram o impacto de rotinas de leitura na criatividade e empatia de crianças entre seis e oito anos de idade.

De acordo com o estudo, a prática diária da leitura contribuiu para melhorias na empatia cognitiva e na criatividade das crianças, tanto no período anterior quanto posterior à intervenção, independentemente do estilo de leitura adotado. Além disso, pausas reflexivas durante a leitura proporcionaram benefícios extras, especialmente para a fluência criativa.

Livros de ficção e fantasia mostraram-se particularmente promissores, pois promovem a identificação com personagens, a compreensão das emoções e a reflexão sobre situações sociais. Segundo os pesquisadores, criatividade e empatia estão intimamente ligadas, pois ambas dependem da imaginação e do pensamento flexível.

Detalhes da pesquisa

O estudo envolveu 41 crianças da região central da Virgínia e seus cuidadores. As crianças foram divididas aleatoriamente em dois grupos: um de leitura contínua, no qual os cuidadores liam livros ilustrados sem interrupções, e outro de leitura com pausas, no qual eram feitas perguntas reflexivas sobre os sentimentos e ações dos personagens durante a história.

A intervenção teve duração de duas semanas, com cada um dos sete livros sendo lido duas vezes.

A empatia foi avaliada antes e depois da intervenção, por meio de uma versão adaptada do Índice de Reatividade Interpessoal, que mede empatia cognitiva, empatia emocional e tomada de perspectiva baseada em fantasia. Já a criatividade foi mensurada por tarefas de fluência (quantidade de ideias geradas) e originalidade. A maioria das famílias já mantinha hábitos regulares de leitura antes do estudo.

Os resultados mostraram que ambos os grupos apresentaram melhorias significativas em empatia cognitiva, empatia total, fluência criativa e originalidade criativa, da linha de base ao acompanhamento. Não houve diferença significativa entre os grupos em relação ao aumento de empatia ou criatividade. A empatia emocional permaneceu estável ao longo das duas semanas.

Uma exceção importante foi observada na fluência criativa: crianças do grupo de pausa demonstraram ganhos significativamente maiores ao longo do tempo, sugerindo que perguntas reflexivas durante a leitura podem potencializar a geração de ideias quando repetidas em diferentes sessões.

A empatia baseada na fantasia também apresentou maior melhora no grupo de pausa, especialmente quando consideradas variáveis como sexo e experiência prévia de leitura.

A idade das crianças também foi um fator relevante: crianças mais velhas apresentaram pontuações de originalidade mais baixas do que as mais novas. Os autores ressaltam que o estudo foi mais eficaz para identificar mudanças substanciais do que diferenças sutis entre os estilos de leitura.

De modo geral, os resultados sugerem que a leitura compartilhada diária, com ou sem perguntas reflexivas, é uma estratégia acessível para promover empatia e criatividade na primeira infância. Entretanto, os pesquisadores alertam que os resultados são preliminares e não devem ser considerados evidências definitivas de causa e efeito.

Por fim, os autores recomendam a realização de mais estudos para avaliar o impacto de conversas significativas com cuidadores, a importância do contato físico e outras formas de interação entre crianças e adultos.