Finanças

Segundo investigações, Nelson Tanure seria ‘sócio oculto’ do Banco Master

Empresário foi alvo de mandados de busca e apreensão junto com o banqueiro Daniel Vorcaro

Agência O Globo - 16/01/2026
Segundo investigações, Nelson Tanure seria ‘sócio oculto’ do Banco Master
Segundo investigações, Nelson Tanure seria ‘sócio oculto’ do Banco Master - Foto: Reprodução

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal de São Paulo avançam nas investigações sobre a teia de fundos que conectam o empresário Nelson Tanure ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Os dois foram alvos de mandados de busca e apreensão, na última quarta-feira (dia 14), no âmbito da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura a suspeita de fraudes financeiras atribuídas ao Master.

Representação da Polícia Federal aponta Tanure “como sócio oculto do Banco Master, exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas”. O trecho é citado na decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação na qual Tanure foi um dos alvos, além de representantes do Master e da Reag (gestora de recursos liquidada pelo Banco Central nesta quinta).

O que dizem o empresário e Vorcaro

Em nota divulgada nesta quinta-feira (dia 15), Tanure negou ser controlador ou sócio do Banco Master, mantendo “relações estritamente comerciais” com o banco, e realizando operações em “estrita conformidade com a legislação e a regulamentação vigentes" (leia a íntegra da nota abaixo).

“Tenho fé, e plena confiança na seriedade das investigações, de que todos os fatos relacionados a mim serão devidamente esclarecidos e de que ficará comprovado que minhas relações com o extinto banco foram integralmente lícitas, ainda que, infelizmente, tenham nos acarretado bastantes prejuízos”, diz.

O empresário disse também que há bastante tempo vinha reduzindo gradualmente a exposição ao banco.

"Permaneço, como sempre estive, à disposição das autoridades e da Justiça para cooperar, demonstrando a correção da minha conduta. Tenho fé, e plena confiança na seriedade das investigações, de que todos os fatos relacionados a mim serão devidamente esclarecidos e de que ficará comprovado que minhas relações com o extinto banco foram integralmente ilícitas, ainda que, infelizmente, tenham nos acarretado bastantes prejuízos".

Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro nega qualquer irregularidade e informa que o "Banco Master não realizou operações destinadas a beneficiar terceiros ou familiares de seu controlador. Até a data da liquidação extrajudicial, o Sr. Vorcaro atuou de forma ativa para preservar a instituição e proteger credores e investidores, tendo realizado sucessivos aportes de capital para reforçar a posição financeira do banco.

A defesa permanece colaborando com as autoridades competentes e confia que o esclarecimento completo dos fatos afastará interpretações que não refletem a realidade".

O que dizem as investigações

Um relatório técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou uma atuação "coordenada" e "interdependente" entre Nelson Tanure e o Banco Master em uma iniciativa para supostamente inflar o preço das ações da companhia de serviços ambientais Ambipar, que está em recuperação judicial.

O relatório concluiu que "houve uma sequência de operações e aportes que demonstraram clara convergência de interesses e estratégias entre esses agentes, com resultados que impactaram significativamente a estrutura acionária e a cotação da companhia (Ambipar) no mercado".

Os investigadores citam o caso do fundo Phoenix FIP, que tinha como gestor e administrador a Trustee DTVM, que pertencia ao grupo do Master e tinha como beneficiário final o próprio Tanure.

Em março de 2024, o fundo recebeu um aporte de R$ 400 milhões e, um mês depois, venceu o leilão de privatização da Empresa Metropolitana de Águas e Energia de São Paulo (Emae), sucessora da Eletropaulo, vendida pelo governo Tarcísio de Freitas (Rep).

Em maio de 2024, o fundo ganhou um novo investimento, desta vez de R$ 1,25 bilhão, na mesma épica em que houve um programa de recompra de ações da Ambipar.

Paralelamente, o fundador da Ambipar e os fundos geridos pela Trustee compraram de "forma agressiva" as ações da empresa, cujos papeis saltaram de R$ R$ 13 para R$ 97,35 em curto período de pouco mais de um mês.

"As aquisições se mostraram ainda mais suspeitas quando se observou que os fundos envolvidos tinham cotistas e beneficiários finais ligados ao BANCO MASTER e a NELSON TANURE, revelando uma estrutura circular e interligada", diz o relatório da CVM, que foi encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo.

As ações supervalorizadas da Ambipar foram utilizadas por Tanure como garantia para arrematar o leilão da estatal paulista.

O MPF afirmou que as compras "agressivas" dos fundos ligados a Nelson Tanure e à Trustee, controlados pelo Master, ocorreram de forma simultânea ao programa de recompra de 20,8 milhões de ações da Ambipar. Segundo a procuradoria, "essa "sobreposição de operações" contribuiu para o "aumento artificial do preço das ações, que valorizaram mais de 700%.

Em setembro de 2024, as cotas do fundo ESNA FIP, que detinha exclusivamente ações da Ambipar, foram transferidas do Banco Master para um veículo de Investimento de Tanure, o Ilha de Patmos Fim, a um preço cerca de 40% inferior ao valor de mercado.

Essa operação rendeu ao Master uma melhora de seu patrimônio líquido e balanço patrimonial e um retorno financeiro de R$ 296 milhões.

"Esses ganhos revelaram que o banco teve papel ativo e beneficiário direto da manipulação, aproveitando a elevação dos preços para reforçar sua posição contábil e financiar outras operações estratégicas. Mais uma vez, operações fraudulentas, para manipular mercado de capitais, foram realizadas para inflar artificialmente o patrimônio do BANCO MASTER", disse o MPF.

Essa investigação subiu para o Supremo Tribunal Federal depois de uma decisão do ministro Dias Toffoli a partir da citação de um deputado com foro privilegiado citado no inquérito.

Os procuradores afirmaram que as ações da Ambipar que chegaram a R$ 97,35 com "manipulação do mercado" depois caíram para R$ 0,70 - o gerou um "prejuízo real" aos investidores e evidenciou a "artificialidade do patrimônio líquido" do Master.

Leia a íntegra da nota de Tanure

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Na manhã desta quarta-feira (14/01/2026), fui surpreendido com um pedido de "busca pessoal", emitido pelo STF, que atendi com respeito e prontidão. Na ocasião, meu celular foi recolhido. Cena inusitada para mim, nessa quadra da minha vida, com mais de 50 anos de vida empresarial nos mais diversos campos da economia brasileira.

A cobertura sobre o fato foi agravada pela publicação de inverdades, dando ares de realidade ao que não passa de especulação. Diante disso, em respeito à minha história e à de todos que dela participam, quero deixar uma mensagem aos que realmente me conhecem, acompanham, que fazem ou fizeram negócio comigo ou com empresas das quais participo.

NÃO fui nem sou controlador do extinto Banco Master, tampouco seu sócio, ainda que minoritário, direta ou indiretamente, inclusive por meio de opções, instrumentos financeiros, debentures conversíveis em ações ou quaisquer mecanismos equivalentes.

Mantivemos com o referido banco relações estritamente comerciais, sempre na condição de cliente ou aplicador, assim como fazemos com outras instituições financeiras no Brasil e no exterior. Essas relações envolveram aplicações financeiras, operações de crédito, gestão de fundos e aquisição de participações societárias, sem qualquer ingerência na gestão ou conhecimento das outras operações internas dessas instituições. Todas as operações foram realizadas em estrita conformidade com a legislação e a regulamentação vigentes.

Jamais tivemos participação, ou sequer conhecimento, de eventuais relações mantidas pelo extinto Banco Master com terceiros, sejam eles Reag, BRB, Fictor ou outras instituições financeiras, fundos de pensão, fundos árabes, RPPA, entes públicos, políticos ou quaisquer outros agentes baseados em Brasília.

Os recursos financeiros que investimos, com resultados positivos ou não, têm origem exclusivamente em nossa trajetória empresarial, que gerou e segue gerando milhares de empregos e riqueza para a sociedade brasileira, e no crédito construído ao longo de décadas de atuação responsável no mercado.

Há bastante tempo vínhamos reduzindo gradualmente nossa exposição ao referido banco. Neste momento, os valores eventualmente remanescentes correspondem a perdas suportáveis, próprias de operações de tomadores de risco.

Permaneço, como sempre estive, à disposição das autoridades e da Justiça para cooperar, demonstrando a correção da minha conduta. Tenho fé, e plena confiança na seriedade das investigações, de que todos os fatos relacionados a mim serão devidamente esclarecidos e de que ficará comprovado que minhas relações com o extinto banco foram integralmente lícitas, ainda que, infelizmente, tenham nos acarretado bastantes prejuízos.

Sigo resiliente, com a serenidade de quem sempre conduziu seus negócios com responsabilidade e trabalho, investindo na recuperação de empresas que geram valor para o Brasil.

Nelson Tanure

Empresário e Investidor