Finanças

Caso Master: banco fez empréstimos de R$ 1,45 bilhão em um ano, e 95% voltaram via CDBs, aponta PF

Aquisição de CDBs do Banco Master tinham retornos acima do mercado e deram visibilidade para o banco

Agência O Globo - 16/01/2026
Caso Master: banco fez empréstimos de R$ 1,45 bilhão em um ano, e 95% voltaram via CDBs, aponta PF
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) revelaram que, apesar de o Banco Master ter emprestado R$ 1,45 bilhão para empresas e fundos de investimento, boa parte dos recursos não foi utilizado, e voltou na forma de aplicações em CDBs do próprio Banco Master. Os CDBs foram a principal forma de aquisição do banco de Daniel Vorcaro e se notabilizaram por retornos acima do mercado.

Segundo a Procuradoria da República de São Paulo, fluxos de empréstimos entre abril e maio de 2024 apontam que o Master desembolsou R$ 1,45 bilhão em empréstimos, mas R$ 1,38 bilhão retornaram por meio da aquisição de CDBs pelos fundos Astralo 95 e Reag Growth 95. Portanto, 95% voltaram ao banco.

A análise das movimentações financeiras do Master encontrou, por exemplo, que um dos fundos, chamado de Brain Realty, embora devesse R$ 459 milhões ao Banco Master, aplicou a maior parte do valor em papéis considerados podres, ao passo que os fundos Astralo 95 e Reag Growth 95 se tornaram credores do Master pelo montante de R$ 450 milhões.

Os dados são citados na decisão do ministro Dias Toffoli que, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou operação na última quarta-feira (dia 14).

Fundo

Com apenas 20 dias de existência, o Fundo Brain Cash, administrado pela gestora de recursos Reag, recebeu R$ 450 milhões a partir de um empréstimo do Banco Master e multiplicou em cerca de 30 mil vezes o seu patrimônio. Essa transação foi a única registrada no balanço do fundo, que tinha apenas um investidor: uma empresa dirigida por uma ex-funcionária da Reag.

A aplicação de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash foi relâmpago. Uma hora e meia após receber esses recursos, o dinheiro foi repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira de investimentos papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Esses papéis, chamados de cártulas, são considerados investimentos podres, já que não há expectativa de retorno.

Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu o mesmo valor ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de papéis do Besc. Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024.

Após a operação realizada na quarta-feira, a defesa de Vorcaro divulgou nota nesta quinta-feira (dia 15) dizendo que o banqueiro nega qualquer irregularidade, e que permanece colaborando com as autoridades.

“Banco Master não realizou operações destinadas a beneficiar terceiros ou familiares de seu controlador. Até a data da liquidação extrajudicial, o Sr. Vorcaro atuou de forma ativa para preservar a instituição e proteger credores e investidores, tendo realizado sucessivos aportes de capital para reforçar a posição financeira do banco”, afirmou a defesa.

O que diz a Reag

Em nota, a Reag informou "que não é parte em operações societárias ou comerciais das empresas mencionadas nem exerce controle ou ingerência sobre suas decisões, atividades ou estrutura de capital. As responsabilidades e decisões dessas companhias são exclusivas de seus acionistas e administradores."

"A Reag esclarece que os recursos mencionados decorrem de operações de crédito estruturadas cujos desembolsos estavam vinculados ao avanço de projetos específicos. Por determinação contratual, a liberação das parcelas só poderia ocorrer após a confirmação de marcos de execução e aprovação técnica desses projetos. Enquanto tais condições não eram verificadas, os valores não podiam ser utilizados e deveriam permanecer aplicados em instrumentos financeiros vinculados ao próprio credor. Esse modelo, amplamente utilizado no mercado de crédito estruturado, assegura que os recursos permaneçam alocados e preservados até que os projetos atinjam suas fases de implementação e autorização formal", afirmou a companhia.