sexta-feira, 01 de julho de 2022

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MP intensifica mobilização de combate à violência sexual infanto-juvenil

Por Assessoria

“Eu era bem criança, mas ainda me lembro dos detalhes, do cheiro daquele lugar. Uma pessoa de confiança da minha família pegou na minha mão e me levou até lá, onde aconteceu a violência sexual. Eu me culpei por anos, os traumas me levaram ao alcoolismo e à delinquência. Passei a sentir vergonha de quem eu era. Foi difícil vencer esse abismo emocional. Mais complicado ainda foi deixar que outra pessoa encostasse em mim”. O depoimento é de Carlos Jorge da Silva Santos que, aos 5 anos, teve sua infância roubada por um abusador. Assim como ele, que ainda carrega o impacto da violação do seu corpo, outras milhares de vítimas, em Alagoas, também sofrem pelo mesmo motivo, e é justamente para combater esse crime que o Ministério Público Estadual tem, por meio da campanha Proteja, mobilizado todas as prefeituras dos 102 municípios alagoanos em busca de ações de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes que, lamentavelmente, já soma quase três mil vítimas entre 2017 e 2021.

Desde quando as tratativas começaram, há dois meses, dezenas de gestores públicos se comprometeram com a coordenação do Núcleo de Defesa da Infância e Juventude do Ministério Público a aderirem a campanha. “Fizemos um trabalho minucioso, fornecendo formatos já desenhados de estratégias a serem adotadas, incluindo campanhas próprias de combate à violência sexual. Conseguimos fazer a articulação com todos os conselhos municipais de defesa da criança e do adolescente, conselhos tutelares, instituições e entidades que compõem a rede de proteção e, claro, as prefeituras. Estamos satisfeitos com as mobilizações, uma vez que elas estão levando a mensagem principal à população: é preciso romper o silêncio em busca da punição dos criminosos”, afirmou o promotor de Justiça Cláudio Galvão Malta, coordenador do Núcleo.

Segundo ele, além da busca pela responsabilização dos abusadores, o poder público também precisa adotar medidas preventivas, com ações, por exemplo, de conscientização junto as famílias e a comunidade escolar.

Dados

Segundo dados da Gerência de Doenças e Agravos não Transmissíveis (GEDANT) da Secretaria Estadual de Saúde, Alagoas registrou, entre os anos de 2017 e 2021, 2.742 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. Desse total, 1.278 vítimas tinham entre 10 e 14 anos; outras 554, entre 5 e 9 anos; e mais 486, possuíam idade entre 15 e 19 anos.

Os números também oficiais também mostraram que 1.852 vítimas eram da raça parda, enquanto 354 foram identificadas como brancas. A raça negra ficou em 3º lugar, com 254 casos.

Apesar do abuso contra ele ter sido cometido há mais de 25 anos, Carlos Jorge ainda carrega na mente o mal provocado por ele. “A vida virou uma tragédia depois disso. Se eu já vivia uma instabilidade emocional em razão de um lar cheio de problemas, com a violência sexual tudo piorou de maneira assustadora. Tornei-me um alcoólatra, pratiquei crimes e achei que minha vida tinha perdido o sentido. Mas, Deus colocou uma alma bondosa na minha vida, que me deu a mão e não desistiu de mim. Foi a partir daí que comecei a criar consciência de que precisava me auto ajudar. Ainda bem que eu insisti”, contou o empreendedor social.

Para o promotor de Justiça Cláudio Malta, o caso de Carlos Jorge, se levadas em consideração as estatísticas, não é o retrato fiel da realidade. “Ainda precisamos alertar para o fato de que a subnotificação esconde os dados reais, uma vez que muitas vítimas, exatamente por serem crianças, não conseguem entender a gravidade do que está ocorrendo. É por isso que ações preventivas e combativas têm, necessariamente, que andar de mãos dadas. O silêncio, se não rompido, acaba se tornando cúmplice do crime”, declarou ele.

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