Vida Esportiva

Ex-Flamengo, Reinaldo se consolida como técnico do Maricá e mira lugar na elite do Brasileirão

Adversário do Vasco no Carioca hoje, Rei fala em entrevista ao GLOBO sobre objetivos na profissão, opinião sobre o nível dos técnicos no Brasil e a falta de negros como treinadores na série A

Agência O Globo - 15/01/2026
Ex-Flamengo, Reinaldo se consolida como técnico do Maricá e mira lugar na elite do Brasileirão
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As duas décadas de carreira, atuando por 20 clubes, entre eles Flamengo, Botafogo, São Paulo e PSG, não diminuíram o desejo de Reinaldo de continuar perto dos gramados, agora à beira do campo. O ex-atacante chegou ao sexto ano como técnico profissional e ao quarto à frente do Maricá — segundo mais longevo do Campeonato Carioca, atrás de Carlos Vitor, do Nova Iguaçu, com seis. Em entrevista ao GLOBO, o treinador falou sobre a estreia no torneio, contra o Vasco, hoje, às 21h30, em São Januário; revelou suas inspirações na profissão; o desejo de comandar clubes da elite do Brasileirão; além dos pensamentos sobre a questão racial no futebol.

Após rodar onze países e diversos clubes, o que te motivou a virar treinador?

Eu queria continuar no campo. É uma coisa que amo fazer. Passei 20 anos com treinadores de alto nível. Ter trabalhado com tantos nomes, como Zagallo, Luxemburgo, Zico, Oswaldo de Oliveira e Carlinhos (Violino), foi uma das minhas maiores motivações. Gostava de ver o treinador ali, ensinando, no dia a dia. Mas a minha maior referência é o Zagallo. Eu trago muita coisa dele, seja a boa gestão de vestiário ou a assertividade nas informações que eu vou passar para os atletas. Zagallo conversava muito com a gente, taticamente, mas também sabia muito bem gerir crise. Um treinador tem que estar preparado para isso. Além do estilo de jogo, eu gosto muito de um time que sabe pressionar, é vertical, ataque rápido e que tenha a bola no pé.

Qual foi o principal obstáculo que você teve na mudança de jogador para técnico?

Acho que foi a transição. Meu primeiro trabalho foi no sub-15 e depois no sub-20 do Bangu. Tive um pouco de dificuldade de organização. Pensava que era só chegar, colocar minha ideia em prática e pronto, mas é muito além disso. Então, fui fazendo cursos (de licença da CBF) e evoluindo na parte teórica, trocando informações com outros treinadores. Hoje eu chego aqui com a comissão técnica duas horas antes do treino; Cerca de 40 minutos antes de começar, montamos tudo, fazemos uma reunião antes e depois do treino com o departamento médico também. Tudo passa pelo treinador. A gente tenta melhorar cada vez mais a capacidade

Quais títulos celebrou mais, como técnico ou como atleta?

É muito mais prazeroso ganhar como treinador. Foi um dos momentos mais felizes que tive na minha vida quando conseguimos ser campeões em Moça Bonita, contra o Audax, na Copa Santos Dumont, em 2024. Depois, quando conquistamos o segundo título contra o Olaria, na Série A2, e a Copa Rio, contra o próprio Olaria. Todo o esforço, todas as gotas de suor, todas as noites de sono mal dormidas valeram a pena. Saber também que, por conta do título, muitos atletas estão realizando sonhos, podendo ajudar suas famílias ao sair do Maricá para uma Série A, B ou até fora do Brasil, como aconteceu.

E o seu sonho? Deseja voltar ao Flamengo um dia?

Sou um técnico com ambição, mas seguindo um passo de cada vez. Tenho mais um ano com o Maricá e procuro dar o meu melhor aqui em cada campeonato, em cada jogo, cada treino. Depois, começar a mirar clubes de Série A e B. Sei que vou conseguir pelo meu trabalho e por tudo que Deus vem me proporcionando. Está um pouco distante ainda, mas, junto com minha comissão, estou no caminho certo. Independentemente do clube, quando chegar esse momento, estarei preparado para fazer um grande trabalho.

Você e Carlos Vitor são os únicos técnicos negros na elite do Carioca. Jair Ventura é o único da Série A. O que pensa sobre esses dados?

Estatisticamente, o número é muito baixo. Falando do meu caso, sei da minha responsabilidade, como negro, do que estou representando. Toda vez que piso no gramado, seja para dar treino ou para comandar um jogo, carrego uma nação atrás de mim também, representando muita gente que precisa dessa oportunidade para aumentarmos cada vez mais esse número de negros não somente no futebol, mas no esporte em geral. Acho que a gente tem muitas pessoas negras capacitadas para estar trabalhando ali, então eu vejo por esse lado: fazendo um grande trabalho eu sei que eu vou abrir portas no futebol masculino, feminino, no salão (futsal), vôlei, basquete, enfim.

O que espera do reencontro com o Vasco? Sente algo especial em enfrentar um antigo rival?

É muito prazeroso estrear contra um gigante do futebol brasileiro. Perdemos lá no passado, mas a atmosfera, com a torcida pressionando o tempo todo, serviu de muita experiência. Agora, como treinador, encaro todo jogo como uma final de Copa do Mundo. Com Fernando Diniz, é um time que certamente tentará nos pressionar, ter a bola o tempo todo, ser protagonista. Mas somos uma equipe que também vai jogar, tentar pressionar e ter a bola dentro da nossa estratégia.

Você conhece o jogo do Diniz?

Fiz estágio com o Fernando Diniz na época em que ele estava no São Paulo. Lembro até hoje, ele me falou: "Rei, o que define se o treinador é bom ou não, não é nem o treinamento, todo mundo consegue ter bons treinamentos, mas como você vai passar as informações do treino em cima da tua ideia de jogo. É como você vai fazer intervenções no treino, a hora que você vai parar, como vai ajustar o que você vai passar para os atletas. Se este atleta te questionar, tu tem que estar preparado também para ser bem assertivo, porque os atletas estão o tempo todo questionando o treinador". Acho que esse convívio, essa sensibilidade, o mais importante é o jogador ter essa confiança no treinador, de falar que o cara está passando, ele tem razão.

Embora não esteja próximo, o que achou da demissão de Xabi Alonso do Real Madrid?

O treinador não tem que gerir somente o vestiário, é muito mais amplo. Tem que aprender a gerir o dirigente estatutário, toda a diretoria, ele tem que saber gerir a imprensa, o que ele vai falar após o jogo, após uma derrota, após uma vitória. E tem que ter um pouco do "feeling" também. Por exemplo: Vinícius Júnior estava 18 jogos sem marcar um gol, em um duelo contra o Betis, que já estava 3x0, Xabi o tirou aos 20 do segundo tempo. Eu acho que ali poderia deixar o brasileiro jogar para tentar fazer um gol, para recuperar a confiança. Deus tem me dado muito essa sabedoria de ter esse feeling também. Principalmente com os atletas que não estão jogando. É uma coisa que eu faço muito, aconteceu muito isso comigo. A atenção maior é em quem não está jogando, porque é o cara que vai entrar e que vai resolver.

O que acha da discussão sobre treinadores estrangeiros no Brasil?

Acho importante a chegada de estrangeiros aqui com ideias novas. Todo mundo consegue evoluir. Por exemplo, o Ancelotti na Seleção Brasileira, é um cara que hoje é o maior número de títulos na história do futebol mundial. Mas eu acho que também tem que separar umas coisas: muitas vezes se valoriza muito o treinador estrangeiro e esquece do potencial do treinador brasileiro. Então, eu acho que tem que ter esse equilíbrio, porque nós temos grandes treinadores aqui. Renato Gaúcho pra mim é um dos top, Fernando Diniz, Dorival Júnior, Rogério Ceni, Jair Ventura, Rafael Guanaes. Cada um com as suas ideias, um propondo mais o jogo, um com um jogo um pouco mais reativo, um que pressiona mais alto, outro que joga mais no bloco médio, mas assim, esses que eu falei, acho que são as referências, vamos dizer assim, Os treinadores brasileiros. Qualquer um desses que você tem aqui hoje capacitado para ser treinador da seleção brasileira.