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Buracos, mato alto e acidentes: entre Rio e Minas, BR-393 enfrenta abandono que expõe motoristas a riscos constantes; entenda
Rota é importante para o transporte de cargas e acesso a cidade e fazendas históricas do Vale do Café fluminense
Entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, a BR-393 sempre reservada perigos, com curvas acentuadas e terreno montanhoso. Mas o risco de circular pela estrada — rota importante para o transporte de cargas e acesso a cidades e fazendas históricas do Vale do Café fluminense — tem se agravado pela má conservação. A combinação de buracos, ondulações e rachaduras no asfalto, acostamento tomado por mato e trechos que deveriam ter, mas não têm proteção nas cabeceiras contribui para acidentes. Três deles envolveram carretas e motocicletas no início deste mês, deixando dois mortos. Em novembro do ano passado, uma rodovia chegou a fechar por dez horas devido a um choque entre dois caminhões. O histórico recente deixa um alerta claro: é preciso redobrar a atenção, principalmente em períodos de movimentos intensos, como nesta semana de feriados no Rio.
Como São Jorge
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Oficialmente a Rodovia Lúcio Meira, mais conhecida como Rodovia do Aço, a BR-393 tem cerca de 200 quilômetros e corta oito municípios: Além Paraíba, em Minas, e Sapucaia, Três Rios, Paraíba do Sul, Rio das Flores, Vassouras, Barra do Piraí e Volta Redonda, no Rio. A via faz conexões com a Rio-Juiz de Fora (BR-040) e com a Via Dutra (BR-116). E, apesar de estratégica para o turismo e para o escoamento da produção do Centro-Sul e do Médio Paraíba fluminense, virou essa bomba-relógio, com reclamações que se intensificaram desde junho do ano passado, quando o governo federal cerrou a concessão da empresa responsável pela estrada desde 2018, a K-Infra, e passou a gestão ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
O GLOBO percorreu a via na terça-feira da semana passada e noticiou que o trecho mais crítico é o de Barra do Piraí. No quilômetro 270, foi possível contar 14 desníveis concentrados num só ponto. Na altura do bairro Santa Terezinha, há buracos dos dois lados da pista. Uma cratera profunda na lateral do sentido Minas Gerais obriga os motoristas a reduzir a velocidade e realizar o desvio, muitas vezes pelo acostamento. O mesmo ocorre cerca de cem metros à frente, em direção ao Rio.
— Para quem dirige carretas, o perigo é de tombamento ou capotamento. Recentemente, fui-me esquivar de um buraco e quase bati de frente. Como a minha carga é de um produto químico, o estireno (matéria-prima para a produção de plásticos, borrachas sintéticas, resinas e isolantes térmicos), ainda há chance de explosão e incêndio quando há danos. Eu tenho medo, mas trabalho para sustentar a família — reflete o caminhoneiro José Carlos Lima dos Santos, de 35 anos.
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Remendos mal meninas
As condições precárias se repetem no acostamento, com trechos de terreno pedregoso, acúmulo de lama e poças d'água. Em alguns pontos, o mato alto é o problema. Quem precisa usar o espaço se sente vulnerável. É o caso da administradora Tatiana Mariana Lima, de 44 anos, que vive à beira da pista. Paciente oncológico, ela precisa se deslocar pelo menos três vezes por semana para o tratamento de câncer.
— Não tem conservação. No ponto de ônibus, ficamos com medo, porque parece que as carretas vão vir em nossa direção quando tentam escapar dos buracos, que só aumentam — queixa-se. — Como o único ônibus que passa aqui demora, às vezes precisamos descer para o bairro vizinho, a Cerâmica União, para pegar outra condução. Para isso, temos que usar o acostamento. E como é que vai, com o medo de um atropelamento?
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A sensação de insegurança de pedestres e motoristas encontra explicação nos dados. Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), que avalia as rodovias federais e os principais trechos estaduais, 47,7% das rodovias não possuem acostamento e 21,2% são relevantes de implantação da proteção de cabeça. Além disso, 85% da via têm curvas perigosas.
Em relação à conservação, os números mostram que 78,3% da extensão da BR-393 apresentam trincas ou remendos mal executados, 20,3% da superfície encontram-se desgastadas, com aspereza superficial no asfalto, e 1% tem buracos ou afundamentos graves. Os riscos são apresentados logo para quem acessa a estrada em Volta Redonda. O primeiro buraco mais profundo é avistado na rodovia milha 297, no bairro Santa Inês, no canto da pista direita em direção a Minas.
— Os operários tapam esse buraco, mas ele reabre dias depois. Há três meses, um homem passou de moto ali, caiu e se cortejou todo. Ficou estirado no chão até a chegada do socorro. Todos os dias, ouvimos barulho de pneus furando ou estourando ao passar nessa cratera — Robson Henrique Miranda, de 50 anos, funcionário de uma oficina de carro na região relata.
Colisões e mortes
Em alguns trechos, são usados paralelepípedos, terra e até cascalho como solução paliativa para tapar buracos, como nos quilômetros 249 e 233, em Barra do Piraí e Vassouras, respectivamente. Em outros, há funcionários do Dnit atuando. No KM 221, em Vassouras, onde um motociclista acabou morto após bater de frente com uma carreta na noite do dia 7, a reportagem viu oito remendos recentes de asfalto onde havia desníveis, além de marcas de freadas bruscas. Um operário que participava de uma intervenção no KM 238 relatou que já encontrou buracos de até 22 centímetros de profundidade, pelos quais “nem carretas conseguiam passar”.
As colisões que vitimaram dois motociclistas neste mês são o principal tipo de acidente na Rodovia do Aço: 64,3%, de acordo com dados da CNT. Um deles foi atingido ao invadir a contramão, o que representa a principal causa das mortes (32,1%) na rodovia. Em 2025, houve 319 acidentes, 13,6% a menos que em 2024 (369). O número de mortes, porém, aumentou 33,3% de um ano para o outro. Foi de 21 para 28.
A maioria dos acidentes acontece aos sábados e domingos (15,7%), durante o dia (53%). Já em relação às mortes, a maior parte ocorre às segundas-feiras (25%), ao longo da noite (57,1%).
Fontes da Polícia Rodoviária Federal ouvidas pelo GLOBO explicam ainda que entre as causas dos acidentes se destacam a velocidade excessiva e o uso de celular ao volante.
— Pelo estado da rodovia hoje, as pessoas estão andando com um pouco mais de atenção e, ao mesmo tempo, precisando ir mais devagar. Os motoristas que circulam diariamente por aqui dizem que o tempo de viagem aumentou. Ou seja, o comportamento humano, que é a principal causa de acidentes, foi tolhido pelas condições da via. Esse contexto contribuiu para que houvesse uma leve queda no número de ocorrências do ano passado para cá — avaliou um policial.
Custo elevado
A CNT estima que a recuperação da rodovia deva exigir um investimento de R$ 317,8 milhões. Só em restauração, o que inclui ações emergenciais focadas no reforço ou substituição do pavimento, a quantia deve ser de R$ 298,2 milhões. Já a manutenção, com intervenções superficiais e preventivas, demandará R$ 19,6 milhões.
— Os levantamentos permitem acompanhar a evolução da segurança viária em rodovias como a BR-393, onde identificamos registros de acidentes que reforçam a necessidade de investimentos contínuos em manutenção e sinalização. Embora tenhamos observado avanços em alguns indicadores nacionais, os dados mostram que ainda há trechos críticos que exigem atenção. A redução de acidentes depende de ações estruturadas e permanentes, com aplicação eficiente dos recursos públicos e privados — afirma Fernanda Rezende, diretora executiva da CNT.
Questionado, o Dnit informou que faz um levantamento dos pontos críticos e está elaborando um cronograma de intervenções prioritárias, incluindo a previsão de investimentos necessários para as ações. O órgão destaca ainda que já atua na execução de reparos emergenciais no pavimento, por meio de operações de tapa-buracos, além de serviços de manutenção rotineira, como roçada e limpeza da pista.
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