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Cidade dos geradores: Condomínio com 423 apartamentos no Cachambi passa a depender de equipamentos da Light

Em meio a obras na rede elétrica do Grande Méier, equipamentos foram levados ao condomínio, que tem três blocos, após quedas de energia; síndica diz que chegou a pagar hospedagem para idosos e famílias com crianças

Agência O Globo - 15/01/2026
Cidade dos geradores: Condomínio com 423 apartamentos no Cachambi passa a depender de equipamentos da Light
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um condomínio na Avenida Dom Hélder Câmara, no Cachambi, Zona Norte do Rio, precisou receber geradores instalados pela Light após falhas no fornecimento de energia ao prédio, na noite de terça-feira, quando as temperaturas ultrapassaram os 40ºC na cidade. No Condomínio Nobre Norte Residencial, moradores relatam que, apesar de haver abastecimento por meio dos equipamentos, as quedas momentâneas se repetem ao longo do dia. A instalação ocorre em meio às obras na subestação de energia elétrica do Grande Méier, onde, segundo a Light, cabos já obsoletos estão sendo substituídos — intervenção que levou a concessionária a recorrer ao uso de geradores como solução emergencial para sustentar o sistema durante o período de calor extremo.

Novas quedas de energia no Grande Méier não estão descartadas:

Cidade dos geradores:

Até então, a Light havia informado que o plano de contingencia para o Grande Méier durante a obra, que vai até maio deste ano, se restringia à instalação de geradores dentro da subestação do Cachambi, como forma de dar suporte ao sistema enquanto duram as obras de substituição dos cabos de alta tensão. Não havia, porém, informação de que esses equipamentos também estivessem sendo utilizados em vias públicas ou diretamente em condomínios residenciais da região, como passou a ocorrer no Cachambi.

Em nota, a concessionária informa que "há diferentes configurações técnicas dos geradores que realizam o suprimento de energia na região, com parte deles instalada em subestações e outros posicionados em pontos estratégicos ao longo da rede de distribuição da concessionária".

Questionada pelo GLOBO sobre o número de geradores em operação no município e em outras áreas de sua concessão, a empresa só informou ontem que, “na subestação do Cachambi, os geradores já estavam instalados previamente como parte do plano de contingência das obras em andamento, não tendo sido colocados em função do evento recente”.

423 apartamentos

Segundo o advogado Matheus Moreira, de 35 anos, morador do prédio, as oscilações começaram a afetar o funcionamento dos elevadores do condomínio, que reúne três blocos e cerca de 423 apartamentos. Técnicos da empresa responsável pelos equipamentos teriam identificado falhas na energia que chega da rua ao prédio. A Light foi acionada e constatou que a carga disponível na rua não era suficiente para abastecer o condomínio com segurança.

— Tudo indica que esse esquema não vai ser suficiente. Eles (Light) já avisaram que não tem prazo para retirarem os geradores e resolver o problema. A nossa síndica teve que distribuir abafadores, porque tem morador que mora com a janela virada para onde o gerador está alocado, com criança pequena, com cachorro. É surreal barulho — detallhou Matheus Moreira.

Como resposta, a concessionária contratou uma empresa terceirizada para instalar dois geradores no local. Os equipamentos chegaram na noite de terça-feira, e a instalação teve início por volta das 4h da manhã, exigindo o desligamento total da energia por algumas horas. Ainda assim, na manhã seguinte, um dos blocos permaneceu sem luz, mesmo com os geradores em funcionamento.

Moradores relatam que houve um impasse entre a empresa responsável pelos geradores e a Light sobre a origem da falha. Posteriormente, teria sido identificado um problema no disjuntor de um dos equipamentos, o que prolongou a instabilidade no fornecimento. Durante os testes, outros blocos também precisaram ter a energia interrompida.

Hospedagem temporária

Com idosos, crianças pequenas e moradores com comorbidades no prédio, a síndica decidiu, por iniciativa própria, custear a hospedagem temporária de alguns moradores em hotéis e motéis da região durante a noite. Outros permaneceram nos apartamentos, mas sob restrições: aparelhos de maior consumo, como ar-condicionado e eletrodomésticos, precisaram ser desligados para evitar sobrecarga dos geradores.

Além da instabilidade, o barulho constante dos equipamentos se tornou mais um fator de desgaste. Moradores com janelas voltadas para a área onde os geradores foram instalados relatam ruído intenso, inclusive durante a madrugada. Para amenizar o impacto, a síndica distribuiu abafadores de ouvido aos moradores.

Segundo os relatos, a Light informou aos moradores que o uso dos geradores no condomínio ocorre por prazo indeterminado, sem previsão para a retirada dos equipamentos ou para uma solução definitiva.

Entenda a falta de luz no Grande Méier

A falta de energia elétrica voltou a atingir o Grande Méier na noite da última terça-feira, depois de oito bairros desse populoso trecho da Zona Norte do Rio já terem enfrentado um apagão no começo da semana. Embora o aumento do consumo influenciado pelo calor intenso pressione o sistema elétrico, a causa dos cortes na região vai além das altas temperaturas. A raiz do problema, explica a Light, está em cabos subterrâneos de alta tensão que chegaram ao fim de sua vida útil, obrigando a concessionária a realizar uma obra estrutural de grande porte para substituí-los. A intervenção é considerada complexa, com conclusão prevista até o fim de maio. Até lá, não são descartados novos transtornos temporários para os moradores.

Em entrevista ao GLOBO, o vice-presidente de operações da Light, Vinicius Roriz, afirma que em 2023 a empresa identificou a obsolescência dos cabos de alta tensão instalados na subestação do Cachambi, que atende os oito bairros da região (Méier, Cachambi, Todos os Santos, Maria da Graça, Del Castilho, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica). O problema, diz ele, tem semelhanças com o que provocou uma crise energética na Ilha do Governador no ano passado.

— São cabos muito antigos, que já deveriam ter sido substituídos há muito tempo. Fizemos um mapeamento de tudo que era crítico na área de concessão e iniciamos a obra — afirma Roriz.

Enquanto a modernização está em curso, diz ele, foi estabelecido um plano de contingência para suprir o abastecimento local em caso de falha dos cabos atualmente instalados. Foi o que precisou ser acionado entre a noite da última segunda-feira e madrugada de terça-feira. Desde então — e até o fim das obras no Cachambi, em maio — geradores dão suporte à operação da subestação.

— De fato, ainda tem risco de ter desligamento, e a gente entra com a contingência. O que queremos é que essa entrada da contingência ocorra de forma rápida para gerar menos transtorno possível à população — admite Roriz. — Vai ser um transtorno temporário, mas para um benefício permanente — completa.

Detalhes da obra e do plano de contingência

O vice-presidente de operações explica que não há pronta entrega para os cabos novos que vão ser colocados no lugar dos antigos: levam mais de um ano para serem fabricados, o que exige planejamento antecipado. Roriz diz que a encomenda foi feita, os prazos foram negociados com o fornecedor, e a obra começou a ser executada em etapas a partir de 2025. A intervenção inclui a substituição de cerca de dois quilômetros de cabos, além de obras civis para adaptação da rede subterrânea.

— É uma obra bastante completa. Tem escavação, troca de tubulação, preparação de dutos. Quando os cabos chegam, eles passam por dutos que já estão prontos. Os novos equipamentos estão sendo instalados com tecnologia mais moderna e materiais menos atrativos para furto, como o alumínio —afirma ele.

Enquanto segue a obra, argumenta Roriz, o plano de contingência é uma salvaguarda para que a região não fique sem energia. Diferentemente da Ilha do Governador, uma área isolada, ligada ao continente por cabos subaquáticos, o executivo lembra que a subestação do Cachambi tem uma rede mais interligada, o que permite manobras para receber energia de subestações vizinhas.

— No primeiro plano de contingência, a gente restabelece (a energia na região) por meio dessas manobras. Conseguiríamos puxar energia de outras áreas, de outras subestações, para atender aqueles clientes — conta Roriz.

Segundo ele, ao longo de 2025, esse modelo foi suficiente. As falhas eram pontuais, o tempo de recuperação era curto e o impacto para os moradores, limitado. O cenário teria mudado com a chegada do verão e das ondas de calor mais intensas.

— Com esse calor muito grande, a gente sabia que colocar só essa opção de fazer manobras seria insuficiente — disse o vice-presidente de operações da Light.

Por que, então, faltou luz?

Foi nesse contexto que entrou a segunda camada do plano: o uso de geradores dentro da subestação. Esses equipamentos já estavam mobilizados antes dos apagões mais recentes e foram pensados para operar em conjunto com as manobras na rede.

Depois do Leme, Light usa geradores para manter funcionamento de subestação no Grande Méier após apagão

— A ideia era prover uma parte da energia com os geradores e complementar com a energia trazida de outras subestações — explica o executivo.

Em resumo, quando ocorre um novo apagão, a Light tenta primeiro “puxar” energia de bairros vizinhos, redistribuindo a carga pela rede. Esse processo costuma funcionar em dias normais. O problema é que, em períodos de calor extremo, a demanda é tão alta que essa energia extra não dá conta de abastecer tudo. É aí que entram os geradores. Eles não ficam ligados o tempo todo. São acionados apenas depois da falha, e isso leva tempo.

— A identificação do problema é imediata no nosso centro de operações. Mas ligar geradores não é apertar um botão. Eles precisam entrar na mesma frequência da rede elétrica. E, ao mesmo tempo, a gente faz as manobras para alimentar pelos outros bairros — justifica Roriz.

A Light estimava que todo esse processo levaria cerca de três horas. Mas, no episódio mais recente no Cachambi, segundo a concessionária, o tempo necessário foi o dobro. Além disso, depois da energização, a empresa diz que as equipes ainda precisam ir a campo para rearmar transformadores que desarmaram por proteção e corrigir falhas pontuais na rede.

— Calculamos que o tempo que levaria para fazer essa recuperação era em torno de três horas. Mas levou mais tempo do que a gente planejou. Nós aprendemos com essa experiência. No mesmo dia, fizemos uma reunião para entender como acelerar. Esperamos, primeiro, que não aconteça novamente, mas daqui até maio pode acontecer outras vezes. Esperamos poder fazer dentro das três horas, que é o planejado — conta Roriz.