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Cidade dos geradores: com problemas na rede elétrica, equipamentos se espalham pelas zonas Norte, Sul e Sudoeste do Rio
Em Copacabana e no Leme, a instabilidade no sistema persiste desde o dia 2. Na noite de anteontem, parte da região do Grande Méier ficou às escuras,
Nada discretos, seja pelo tamanho, seja pelo barulho que emitem, os geradores têm se tornado cada vez mais uma presença tão comum quanto incômoda — ainda que necessária diante das circunstâncias — nas ruas e calçadas do Rio. Essa mudança na paisagem urbana é provocada por interrupções prolongadas no fornecimento de energia elétrica em vários bairros da cidade neste início de ano marcado por sol forte, temperaturas nas alturas e o consequente aumento da demanda por energia.
Shopping Tijuca reabre nesta sexta-feira com subsolo interditado:
Após dias de muito calor:
Em Copacabana e no Leme, a instabilidade no sistema persiste desde o dia 2. Na noite de anteontem, parte da região do Grande Méier ficou às escuras, isso depois de oito bairros desse populoso trecho da Zona Norte do Rio já terem enfrentado um apagão no começo da semana. Faltou luz ainda em parte da Tijuca e da Barra.
A causa dos problemas não é uma só. Enquanto nos bairros da Zona Sul o furto de cabos foi apontado como origem da sobrecarga na rede; no Méier e adjacências a raiz do problema, segundo a Light, está em cabos subterrâneos de alta tensão que chegaram ao fim de sua vida útil, obrigando a concessionária a realizar uma obra estrutural de grande porte para substituí-los. A intervenção é considerada complexa, com conclusão prevista para o fim de maio. Até lá, não são descartados novos transtornos temporários para os moradores da região.
Em entrevista ao GLOBO, o vice-presidente de operações da Light, Vinicius Roriz, afirma que em 2023 a empresa identificou a obsolescência dos cabos de alta tensão instalados na subestação do Cachambi, que atende a oito bairros da área: Méier, Cachambi, Todos os Santos, Maria da Graça, Del Castilho, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica. Juntos, eles somam 230.066 moradores, de acordo com o Censo 2022 do IBGE. O problema, diz Roriz, é análogo ao que provocou uma crise no abastecimento da Ilha do Governador no ano passado:
— São cabos muito antigos, que já deveriam ter sido substituídos há muito tempo. Fizemos um mapeamento de tudo o que era crítico na área de concessão e iniciamos a obra.
Enquanto a modernização está em curso, foi estabelecido um plano de contingência para suprir o abastecimento local em caso de falha dos cabos atualmente instalados. Foi esse plano que precisou ser acionado entre a noite da última segunda-feira e a madrugada de ontem. Desde então — e até o fim das obras no Cachambi, em maio —, geradores darão suporte à operação da subestação.
— De fato, ainda tem risco de ter desligamento. O que queremos é que essa entrada da contingência (o uso dos geradores) ocorra de forma rápida, para gerar o menor transtorno possível à população — diz Roriz. — Vai ser um transtorno temporário, mas para um benefício permanente.
Geradores na subestação
O trabalho começou a ser executado em etapas no ano passado e inclui a substituição de cerca de dois quilômetros de cabos, além de obras para adaptação da rede subterrânea.
— No primeiro plano de contingência, a gente restabeleceria (a energia na região) por meio dessas manobras. Conseguiríamos puxar energia de outras áreas, de outras subestações, para atender aqueles clientes — explica o vice-presidente de operações da empresa.
Segundo ele, ao longo de 2025 esse modelo se mostrou suficiente. As falhas eram pontuais, o tempo de recuperação era curto, e o impacto para os moradores, limitado. O cenário teria mudado com a chegada do verão.
— Com esse calor muito grande, a gente sabia que colocar só essa opção de fazer manobras seria insuficiente — reconhece o vice-presidente de operações da Light.
Foi nesse contexto que entrou em campo a segunda camada do plano: o uso de geradores dentro da subestação. Em resumo, quando ocorre um novo apagão, a Light tenta primeiro “puxar” energia de bairros vizinhos, redistribuindo a carga pela rede. Funciona quando o consumo está em patamares normais. Quando a demanda é maior, os geradores são acionados.
Na Zona Sul, a falta de luz — que ocorre paralelamente ao problema enfrentado na Zona Norte — tem outra causa, segundo a Light.
— No Leme e em Copacabana, foi um problema relacionado ao furto de cabos. Dos 60km de fios que a gente tem ali naquela região, roubaram 3,5km, cerca de 5% do total — disse Roriz.
Assim, após sucessivas quedas de energia, os geradores entraram em cena para garantir abastecimento em alguns trechos de ruas — levando junto barulho, cabos aparentes e equipamentos pesados para áreas residenciais e turísticas.
A Light afirma que se trata de uma medida temporária, e que a retirada total dos equipamentos começou a ser planejada. Até o início da semana eram 62 geradores nas ruas. Hoje ainda restam 50 em operação. A previsão é de que 30 sejam desmobilizados até o próximo fim de semana. Para zerar a conta, ainda serão necessários pelo menos 30 dias.
Na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, a causa apontada para o apagão do fim de semana também foi o furto de cabos. Na Tijuca, na Zona Norte, moradores e comerciantes da Rua Mariz e Barros amanheceram sem energia ontem.
Gerente do restaurante Pesqueiro, que funciona na rua, Paulo Ferreira , de 50 anos, afirma que os problemas têm acontecido desde o fim do ano passado. Ele diz que no dia 19 de dezembro houve interrupção no fornecimento e que, na véspera de Natal, teve problemas para fazer as entregas programadas devido à falta de energia.
— Sábado agora eu não trabalhei, não consegui vender. Contratei um gerador (para o domingo) e só chegou uma hora da tarde. Na segunda-feira, não trabalhei, a casa ficou fechada porque não tinha luz. Tive que jogar bastante mercadoria fora porque eu trabalho com peixe — lamentou Paulo Ferreira.
O gerente diz que ainda calcula os prejuízos, mas estima que fique na casa dos R$ 90 mil: um aparelho de ar-condicionado e a câmara fria estão queimados, e cerca de 100 quilos de mercadoria foram perdidos. A isso, somam-se o tempo que o estabelecimento ficou fechado e o valor do gerador alugado:
— Essa semana já estou gastando mais de R$ 10 mil com o gerador. No domingo, contratei 12 horas de gerador por R$ 6,5mil, e, na segunda, com as câmaras frias desligadas, contratei outro por R$ 4 mil porque a mercadoria é congelada.
Salão fechado
Em nota, a Light informou que os problemas na Rua Mariz e Barros foram causados por “sobrecarga provocada por um aumento irregular de carga de energia por parte de um restaurante, sem autorização da concessionária”. A empresa não especificou qual estabelecimento teria originado a interrupção, mas afirmou ter identificado a irregularidade e iniciado “as medidas necessárias para a regularização da carga, garantindo a estabilidade do fornecimento e evitando novas ocorrências na região”. Ainda segundo a concessionária, “o fornecimento na região se encontra normalizado”.
No Cachambi, o cabeleireiro Carlos Alexandre, de 44 anos, também relata problemas para trabalhar.
— Desde o início de dezembro a luz está caindo bastante, inclusive já queimou várias lâmpadas. Já trocamos e queimou de novo. Prejudica muito. Dependendo do horário que a luz falte e do horário que volte, a gente não consegue fazer nada e nem atender. Tem que fechar o salão — reclama o profissional.
O Procon Carioca chegou a notificar a Light anteontem pela falta de luz prolongada em trechos da cidade. Ontem, a empresa apresentou sua defesa. Com isso, o Procon aguardará o prazo legal de cinco dias para decidir se multa ou não a concessionária.
* Estagiária sob supervisão de Leila Youssef
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