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Quedas de luz frequentes em bairros da Zona Norte causam prejuízos a moradores e comerciantes: 'já perdi mais de 100kg de mercadoria'

Moradores e lojistas dos bairros relatam que estão sofrendo com sucessivas faltas de energia há cerca de um mês; dono de restaurante na Tijuca estima perda de quase R$ 90 mil por conta dos apagões

Agência O Globo - 15/01/2026
Quedas de luz frequentes em bairros da Zona Norte causam prejuízos a moradores e comerciantes: 'já perdi mais de 100kg de mercadoria'
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Moradores e comerciantes de regiões da Tijuca, do Rio Comprido e do Cachambi, na Zona Norte do Rio, afirmam que desde meados de dezembro estão sofrendo com quedas de energia frequentes, com períodos em que chegam a ultrapassar 10 horas sem luz. Por conta disso, lojistas relatam prejuízos nas vendas e quem vive nos bairros conta que está passando diversas dificuldades na rotina às escuras. A Light, concessionária que atua no fornecimento de eletricidade para o município do Rio, informou que reparos já estão sendo feitos nos locais e garante que os apagões foram resolvidos com a instalação de geradores.

— Estou levantando ainda (o valor total de prejuízo), mas, por alto, eu perdi quase R$ 90 mil com venda e material, contando com os equipamentos também. Já queimei o ar-condicionado e a câmara fria. À noite, a gente não está aqui para desligar, ficou uma fase (de luz) só e os equipamentos trifásicos queimam todos. No sábado, ficou o dia inteiro sem luz e eu não consegui trabalhar. Tive que jogar bastante mercadoria fora porque eu trabalho com peixe — contou Paulo Ferreira, gerente do Peixeiro, peixaria e restaurante na Rua Mariz e Barros, na Tijuca.

De acordo com o comerciante de 50 anos, desde 19 de dezembro a rua sofre com quedas de energia constantes, com intervalos de um a dois dias entre uma e outra. A conta de luz do Peixeiro beira os R$ 23 mil:

— Eu tenho 50 funcionários e o pessoal, no calor, não consegue ficar dentro da loja. A clientela não vem. No domingo, a casa estava cheia na hora do almoço, mas faltou luz e o pessoal foi tudo embora. Eu já perdi mais de 100kg de mercadoria. Na segunda, montamos o bufê todo, deu meio-dia, faltou luz.

Na tentativa de evitar mais prejuízos, Ferreira contratou geradores por duas vezes, com o valor total dos aluguéis ultrapassando os R$ 10 mil:

— No domingo, contratei 12 horas de gerador por R$ 6,5 mil e, na segunda, com as câmaras frias desligadas, contratei outro por R$ 4 mil, porque a mercadoria é congelada.

Prédios residenciais da Rua Mariz e Barros também sofrem com a queda de energia. Na calçada em frente à peixaria, há um prédio de seis andares, em que o advogado Marcelo Fittipaldi mora há 11 anos. Assim como Paulo, ele afirma que desde meados de dezembro a rua sofre com faltas de luz sucessivas, que ocorrem fases. O tijucano relata que, e alguns momentos, a ausência de eletricidade dura minutos, mas, em outros, já chegou a ultrapassar sete horas.

— Por exemplo, o lado de cá (oposto ao apartamento dele) está sem luz e o meu apartamento está com luz. Aí tem dias que inverte, tem dias que só o elevador está sem energia, varia muito. A minha mãe é cadeirante e "fica de castigo", a gente não consegue descer com ela sem elevador. E, quando volta o elevador, a gente fica com medo de botá-la lá dentro — contou o advogado.

Rio Comprido, Cachambi e Pilares

Cabeleireiro de um salão localizado na Rua Menezes Vieira, no Cachambi, Carlos Alexandre já perdeu as contas de quantas vezes precisou dispensar clientes por conta da falta de energia:

— Dependendo do horário em que a luz falte e do horário em que a luz chegue, a gente não consegue fazer nada e nem atender, tem que fechar o salão. Não funciona a internet, não tem como marcar cliente. E o secador, a prancha, essas coisas não podem ser usadas. Ou seja, é prejuízo.

O profissional da beleza, de 44 anos, afirma que as quedas de luz ocorrem desde dezembro e que algumas luzes do salão foram queimadas com a constante queda e retomada de energia. Segundo ele, já foram mais de 6h sem luz no estabelecimento.

Para piorar a sua situação, o cabeleireiro enfrenta falta de luzem dose dupla, no trabalho e em casa. Carlos mora na Rua Aristides Lobo, no Rio Comprido, local próximo à região da Tijuca sem luz. Ele vende marmitas fitness como renda complementar e, com a falta de eletricidade constante em casa, estima um prejuízo total entre R$ 900 e mil reais, contando com carnes, legumes e mantimentos jogados fora.

Élvimar Fernandes, esteticista de 68 anos do mesmo salão, também vê de perto a falta de energia para além do local de ofício: sua filha, moradora da Rua Gandavo, em Pilares, buscou um hotel para dormir com o marido e os filhos na última terça-feira por conta do forte calor durante a noite. Moradores de um prédio na região, eles passaram a madrugada inteira sem luz.

— Faltou (luz na casa da filha) às 21h e só voltou às 5 da manhã. Ela teve que dormir num hotel com as crianças, em Bonsucesso — contou Élvimar.

Light fala em sobrecarga

Em nota, a Light informou que "as interrupções registradas na Rua Mariz e Barros, na Tijuca, foram causadas pela sobrecarga provocada por um aumento irregular de carga de energia por parte de um restaurante, sem autorização da concessionária. Essa situação impactou a rede elétrica que atende a região".

Ainda segundo a companhia, foram identificadas irregularidade e já foram iniciadas as medidas necessárias para a regularização da carga, garantindo a estabilidade do fornecimento e evitando novas ocorrências na região da Tijuca.

Em entrevista ao GLOBO, o vice-presidente de operações da Light, Vinicius Roriz, afirma que em 2023 a empresa identificou a obsolescência dos cabos de alta tensão instalados na subestação do Cachambi, que atende os oito bairros da região — Méier, Cachambi, Todos os Santos, Maria da Graça, Del Castilho, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica. O problema, diz ele, tem semelhanças com o que provocou uma crise energética na Ilha do Governador no ano passado.

— São cabos muito antigos, que já deveriam ter sido substituídos há muito tempo. Fizemos um mapeamento de tudo que era crítico na área de concessão e iniciamos a obra — afirma Roriz.

Enquanto a modernização está em curso, diz ele, foi estabelecido um plano de contingência para suprir o abastecimento local em caso de falha dos cabos atualmente instalados. Foi o que precisou ser acionado entre a noite da última segunda-feira e a madrugada de terça-feira. Desde então — e até o fim das obras no Cachambi, em maio — geradores dão suporte à operação da subestação.

— De fato, ainda tem risco de ter desligamento, e a gente entra com a contingência. O que queremos é que essa entrada da contingência ocorra de forma rápida para gerar menos transtorno possível à população — admite Roriz. — Vai ser um transtorno temporário, mas para um benefício permanente — completa.