Poder e Governo

Flávio busca votos na direita no segundo turno, enquanto Lula busca ampliar placar no Nordeste e usa Alckmin como cartada

Flávio manterá a aposta no antipetismo, e Lula buscará mais votos em estados onde o PT teve melhor desempenho

Agência O Globo - 05/10/2026
Flávio busca votos na direita no segundo turno, enquanto Lula busca ampliar placar no Nordeste e usa Alckmin como cartada
Flávio Bolsonaro - Foto: © Sputnik Brasil / Guilherme Correia

Após passar ao segundo turno em primeiro lugar, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, vai investir nos eleitores dos candidatos Augusto Cury (Avante), Renan Santos, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), que foram derrotados. Já a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aposta em ampliar o placar no Nordeste e vai aumentar o papel do vice, Geraldo Alckmin, na campanha, em uma tentativa de atrair o centro.

A campanha de Flávio manterá a aposta no antipetismo, nas bandeiras de segurança pública, aumento de custo de vida e numa ofensiva para incorporar aos palanques aliados que saíram fortalecidos das urnas.

A vantagem obtida no primeiro turno, em que teve 47% dos votos contra 45% de Lula, levou a campanha de Flávio a descartar, neste primeiro momento, uma reformulação profunda da estratégia. A avaliação é que o candidato precisa ampliar o eleitorado sem abandonar o discurso que o levou à dianteira.

O primeiro alvo são os votos que ficaram com candidatos de centro e direita. Juntos, Renan, Caiado e Zema somaram 5,6 milhões de votos. Zema deve declarar apoio a Flávio junto com o Novo nos próximos dias, enquanto Caiado ainda não anunciou seu voto, e aliados avaliam que pode evitar uma adesão formal. A campanha aposta, mesmo assim, em absorver parte dos 2,6 milhões de votos do ex-governador de Goiás. Renan, que recebeu 2,67 milhões, também não deve apoiar nenhum dos dois candidatos e tende a incentivar o voto nulo, orientação que a equipe de Flávio acredita que não será seguida por todo o seu eleitorado.

Mais difícil, na avaliação da campanha, será avançar sobre os 3,4 milhões de eleitores de Augusto Cury (Avante) e sobre quem não escolheu nenhum candidato no primeiro turno. Nesse campo, a estratégia é explorar a insatisfação com o governo e dar mais espaço a temas econômicos que atinjam o cotidiano, sobretudo preços e poder de compra, sem depender apenas da identificação com a direita. A equipe também pretende buscar parte dos eleitores que se abstiveram ou votaram branco ou nulo, grupo visto como uma fonte adicional de votos numa disputa em que Flávio já começa próximo da maioria necessária.

A busca por esses eleitores terá também um componente territorial. A campanha pretende concentrar esforços nos três maiores colégios eleitorais e aproveitar o resultado de aliados que saíram fortalecidos das urnas. Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito em São Paulo, deverá entrar de forma mais intensa na campanha e pode ceder integrantes de sua equipe, sobretudo das áreas de marketing e redes sociais. Em Minas, Flávio contará com Cleitinho Azevedo (Republicanos), eleito governador, e Nikolas Ferreira (PL), que teve mais de 3 milhões de votos para deputado federal; no Rio, Douglas Ruas (PL) também deverá participar das agendas.

A intenção, porém, é não limitar essas lideranças às fronteiras de seus estados. Tarcísio já se colocou à disposição para participar de compromissos fora de São Paulo, e nomes com apelo sobre segmentos específicos deverão ser deslocados de acordo com o público que a campanha pretende alcançar. Nikolas, presença frequente ao lado de Flávio no primeiro turno, deverá continuar sendo acionado em agendas voltadas principalmente aos eleitores mais jovens e cristãos.

Na tarde desta segunda, Flávio se reúne com a equipe para fazer um alinhamento total antes dos próximos 19 dias. A expectativa é que ele intensifique agendas também no Nordeste, com o intuito de reduzir a vantagem de Lula na região.

No caso de Lula, o desafio é buscar uma virada inédita — nunca um candidato à Presidência que passou ao segundo turno atrás do adversário foi vitorioso. A necessidade vai forçar uma guinada na campanha, e uma nova estratégia está sendo desenhada. O plano inclui a tentativa de ampliar a vantagem no Nordeste, onde superou Flávio e o PT reelegeu três governadores, e reduzir a abstenção. No primeiro turno, 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas, um índice de 21,08%, o maior desde 1998 e recorde em números absolutos. O PT já começou a orientar a militância a procurar eleitores que não votaram e convencê-los a ir às urnas em 25 de outubro.

Internamente, Lula disse a aliados logo após o resultado que é preciso ver onde se errou e buscar corrigir rumos para o segundo turno. Auxiliares que acompanharam a apuração com o petista avaliam que o cenário não está perdido, mas que as mudanças são urgentes.

A estratégia do PT deve começar por tentar ampliar apoio em estados onde Lula e candidatos petistas já tiveram boa votação, especialmente no Nordeste, onde o PT reelegeu os governadores Rafael Fonteles, no Piauí, Elmano de Freitas, no Ceará, e Jerônimo Rodrigues, na Bahia. Haverá também um foco em ampliar a votação em Minas Gerais, onde Lula venceu em 2002, mas foi derrotado por Flávio agora.

Lula também deve dar mais protagonismo a Alckmin, em busca de eleitores de centro.

— Ninguém neste país tem autoridade moral para falar de política fiscal e seriedade fiscal para mim e para Alckmin. Pelo que ele fez no estado de São Paulo e pelo que nós fizemos no Brasil — disse Lula, em uma das citações no discurso de domingo à noite, após a divulgação do resultado.

Setores do governo e da campanha criticaram o fato de Alckmin não ter tido um papel de destaque no primeiro turno. A avaliação é que o vice tem condições de dialogar melhor com uma fatia do eleitorado que é refratária a Lula e ao PT. Pelo plano definido após o resultado do primeiro turno, o vice da chapa também deve aparecer mais no horário eleitoral na televisão.

Nesta tarde desta segunda-feira, Lula deve se reunir com a coordenação da campanha, além de políticos aliados que disputaram vagas ao Senado e aos governos estaduais para discutir o rumo da candidatura do petista no segundo turno.