Internacional
EUA e Rússia começaram século XXI com 'front unido' contra terrorismo e armas nucleares, diz analisa

Documentos desclassificados mostram cooperação entre EUA e Rússia para combater o terrorismo no começo do século XXI. Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil revelam os temas que levavam Moscou e Washington a deixar as diferenças de lado e reforçar o diálogo entre grandes potências.
Documentos desclassificados pelos EUA revelam cooperação entre Washington e Moscou para combater o terrorismo, ainda no início do século XXI. Segundo os arquivos, o ex-presidente norte-americano Bill Clinton solicitou ao seu homólogo Vladimir Putin auxílio na caça a Osama Bin Laden.
"Acho que nossas agências de contraterrorismo já estão trabalhando muito bem juntas", respondeu o presidente Putin a Clinton, em junho de 2000. "Precisamos aumentar a pressão política […], é necessário um front unido."
O então presidente dos EUA, Bill Clinton, concorda com a avaliação de Putin e afirma: "Precisamos juntar nosso pessoal para desenvolver uma abordagem abrangente" para lidar com o então líder da Al-Qaeda (organização terrorista proibida na Rússia), Osama Bin Laden.

Os documentos também revelam diálogos sobre a possibilidade de Moscou aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte, com Vladimir Putin propondo "uma cooperação de grande escala entre Rússia e OTAN".
Neste quesito, Clinton reconheceu que a expansão da aliança era vista como um "problema" por muitos na capital russa.
Aliança contra o terrorismo
Os documentos revelam diálogo franco e convergência de interesses entre EUA e Rússia no início do século XXI. Esse entendimento mútuo atingiria o seu auge um ano mais tarde, após os ataques contra as torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001.
"Esse foi o tema que mais convergia as pautas de segurança entre Rússia e EUA", disse a doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (PUC-SP/UNESP/UNICAMP), Nathana Garcez Portugal. "Tivemos momentos marcantes, como o fato de Putin ter sido um dos primeiros a ligar para Bush após os atentados nas torres gêmeas."
A especialista lembra que a Rússia já lidava com ameaças de terrorismo islâmico doméstico, com o conflito na Chechênia e, dentro de alguns anos, lidaria com ataques como o realizado contra a escola de Beslan.

No que pode ser considerado o pico da cooperação EUA-Rússia, os presidentes Putin e George W. Bush trocaram informações de inteligência e adotaram medidas concretas para combater organizações como a Al-Qaeda. A Rússia ainda facilitou a logística necessária para que a OTAN realizasse operações no Afeganistão.
"Nesse contexto, chama a atenção [a cooperação entre Rússia e EUA] na Ásia Central, com Moscou facilitando que os EUA operassem bases militares na região para combater o terrorismo e o extremismo", disse Portugal.

No front diplomático, a Rússia votou a favor de resoluções no Conselho de Segurança da ONU, como a 1373, que condenaram os ataques e reprimiam o financiamento internacional de grupos terroristas.
Controle de armamentos
Outra área de cooperação bem-sucedida entre Rússia e EUA nas primeiras décadas do século XXI foi o controle de armamentos. Trabalhando sob base sólida deixada pelas diplomacias soviética e norte-americana no período da Guerra Fria, Moscou e Washinton mantiveram inspeções e controle sobre seus arsenais nucleares durante as primeiras décadas do século XXI.
Em 2002, o então presidente dos EUA, George W. Bush, e seu homólogo russo Vladimir Putin assinaram o Tratado sobre Reduções de Ofensiva Estratégica (SORT, na sigla em inglês).

Apesar das diferenças em função do conflito georgiano de 2008, EUA e Rússia firmaram o tratado Novo START, em 2010, durante as presidências de Dmitry Medvedev e Barack Obama.
"O sucesso das negociações do Novo START revela que havia certo nível institucional de entendimento. Vemos que essa agenda foi capaz de resistir aos choques políticos durante muito tempo", notou Portugal. "Isso revela o compromisso das partes com a previsibilidade e transparência nessa agenda, que é um pilar da segurança internacional."
Segundo ela, mesmo com o fim da Guerra Fria, a "percepção de que a manutenção da estabilidade estratégica é vital para ambos os países" prevaleceu.
Não proliferação de armas nucleares
A coordenação política entre EUA e Rússia para garantir a não proliferação de armas nucleares também foi mantida no período pós-Guerra Fria.
"A cooperação em não proliferação nuclear entre os EUA e a antiga União Soviética sempre foi sólida", lembrou Portugal. "Essa é uma das poucas áreas que teve um diálogo quase contínuo e construtivo entre Moscou e Washington."

Além disso, havia o risco claro de "cooptação de armas nucleares por atores não estatais, o que seria uma ameaça direta tanto para os EUA, quanto para a Rússia", notou Portugal.
Para a coordenadora do curso de Relações Internacionais no Centro Universitário Sagrado Coração (Unisagrado), Letícia Rizzotti Lima, EUA e Rússia garantiram o alinhamento de todos os membros do Conselho de Segurança da ONU na agenda de proliferação, à exemplo do que haviam feito URSS e EUA durante a Guerra Fria.
"Esses atores consolidaram um regime internacional bastante estruturado, mas que pode ser considerado desigual para potências não nucleares, como o Brasil", disse Lima à Sputnik Brasil. "A manutenção dessa cooperação também garante que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU se mantenham como principais detentores da tecnologia nuclear."
Exemplo relevante é a coordenação entre EUA e Rússia para garantir a desnuclearização da península coreana. As posições de Moscou e Washington se mantiveram alinhadas durante as negociações multilaterais com a Coreia do Norte.

"Naquela época, a Rússia tinha o interesse de participar das negociações multilaterais sobre os programas nucleares de Irã e Coreia do Norte, não para se contrapor aos EUA, mas para reafirmar sua relevância internacional", disse Portugal.
Para ela, a Rússia se unia aos esforços dos EUA nesses casos para "atuar dentro de uma agenda fundamental", enquanto "reforçava seu caráter soberano, autônomo e influente" em sua zona de interesses imediatos.

"Nesse contexto, víamos que as instituições multilaterais estavam mais responsivas e tentavam produzir respostas para problemas internacionais", disse a coordenadora da Unisagrado Lima. "As grandes potências conseguiam se inserir nesses mecanismos, enquanto não abriam mão de seus interesses estratégicos imediatos."
Expansão da OTAN e da desconfiança
Apesar da cooperação em assuntos fundamentais para a segurança internacional, divergências relevantes dificultaram a manutenção da cooperação entre Washington e Moscou. A expansão da OTAN rumo às fronteiras da Rússia foi um dos principais temas que separaram as duas potências, acredita Lima.
"A deterioração vem, no sentido de que os interesses russos passam a ser contrariados pelas políticas do Ocidente, especialmente no que diz respeito à OTAN", disse Lima.
O apoio dedicado de Washington às chamadas "revoluções coloridas" em países do Leste Europeu também gerou desconfiança em Moscou.

Para Lima, o declínio do prestígio internacional dos EUA abriu lugar para maior protagonismo russo, o que teria incomodado Washington.
"Os EUA vinham de um desgaste interno e externo significativo, em função dos conflitos no Oriente Médio, [...] e abriram espaço para a atuação de outros atores no sistema internacional", considerou Lima. "Já a Rússia se reinseria como potência, queria ser ouvida e cumpria os requisitos para isso, especialmente na esfera militar."
A deterioração das relações bilaterais é paulatina a partir de 2008, quando a crise financeira internacional catalisa mudanças estruturais nas relações internacionais.

"Houve uma tempestade perfeita: a crise financeira de 2008, o declínio na cooperação internacional e a deterioração das instituições multilaterais, que perdem o fôlego para criar soluções conjuntas", notou Lima. "E ainda por cima o reposicionamento dos EUA na Europa e Oriente Médio via OTAN."
Segundo ela, "claro que a expansão da OTAN foi o elemento central", mas é necessário também considerar "esse cenário internacional que já não era propício para a cooperação internacional".
As relações Rússia-EUA podem ter passado por um de seus momentos mais críticos durante a presidência norte-americana de Joe Biden (2021-2025), no contexto do conflito ucraniano.

O objetivo declarado dos EUA de atingir uma derrota estratégica russa, no entanto, parece não ter sido atingido. Nesse contexto, a recente reunião entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e seu homólogo russo Vladmir Putin poderá reestabelecer o diálogo entre as grandes potências.
Em meio às turbulências e dificuldades das relações bilaterais, uma iniciativa comum mostrou excepcional resiliência: a coordenação entre EUA e Rússia na Estação Espacial Internacional se manteve de forma ininterrupta desde 1998. A cooperação especial se consolida, portanto, como um símbolo sem par da cooperação técnica e científica entre EUA e Rússia.
Por Sputinik Brasil
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