Internacional
Nacionalismo 'pragmático' x globalismo intervencionista: a disputa entre Trump e George Soros

Um dos principais apoiadores do governo do ex-presidente Joe Biden, o bilionário George Soros e o filho, Alex Soros, foram acusados por Donald Trump de apoiarem protestos violentos no país para desestabilizar a atual gestão. Internacionalista explica que por trás da disputa estão as visões opostas sobre o papel dos Estados Unidos no mundo.
Financiador do partido Democrata presente na restrita lista de figuras que doaram mais de US$ 1 bilhão (R$ 5, 4 bilhões) para a campanha derrotada da ex-vice-presidente Kamala Harris à Casa Branca, o bilionário George Soros voltou a ser acusado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de apoiar protestos violentos no país, juntamente com o filho, Alex Soros — no ano passado, ele chegou a comemorar publicamente a autorização de Biden para a Ucrânia atacar o território russo com mísseis ATACMS.
Para Trump, a dupla deveria ser penalizada pela Lei de Organizações Corruptas e Influenciadas por Extorsionários, conhecida como RICO, usada para punir facções criminosas.
"Não vamos permitir que esses lunáticos destruam a América ainda mais, sem nunca dar a ela a chance de RESPIRAR e ser LIVRE. Soros e seu grupo de psicopatas causaram grandes danos ao nosso país! Isso inclui seus amigos malucos da Costa Oeste", declarou nas redes sociais na última quarta-feira (27), em um posicionamento diametralmente oposto ao de Biden, que chegou a conceder ao bilionário em seus últimos dias de mandato a Medalha da Liberdade, uma das principais honrarias civis do país.
Soros também é financiador de organizações não-governamentais (ONGs) como a Open Society, reconhecidas pela Rússia como "indesejáveis" desde 2015 por representarem ameaça à segurança do país.
O professor titular de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Williams Gonçalves explica à Sputnik Brasil que essas fundações são conhecidas por intervirem em assuntos internos de países mundo afora sob o argumento de defender a democracia.
"Não é segredo para ninguém que George Soros financia esses movimentos. Normalmente, se fala em movimento espontâneo, mas quem entende um pouco disso sabe perfeitamente que não existe movimento de rua espontâneo. Há sempre uma cabeça organizadora do ponto de vista logístico e financeiro", pontua, ao acrescentar que essas entidades possuem grande capacidade de desestabilizar governos.
Conforme o internacionalista, ONGs como essas passaram a ter um importante papel na política internacional a partir dos anos 1990, inclusive com algumas tendo direito de assento na Organização das Nações Unidas (ONU).
"E dizer que essas organizações não possuem compromisso ideológico não é plausível e não faz sentido. Naturalmente, elas obedecem a uma determinada lógica política de quem as comanda [...]. A partir da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA se colocaram como potência hegemônica no mundo Ocidental, as fundações norte-americanas atuaram em todos os países, influenciando bastante o processo político interno. E na América Latina, por exemplo, isso é público e notório [...], eles são mestres em monitorar organizações em favor dos seus interesses", enfatiza.
Trump x Soros: as distintas visões sobre o papel dos EUA no mundo
Enquanto Soros representa o setor norte-americano que defende o globalismo intervencionista, Trump retornou ao poder na Casa Branca com um discurso totalmente contrário, em que culpa esse movimento pela "decadência dos Estados Unidos", pontua o especialista. Conforme Gonçalves, as entidades ligadas a Soros se colocam como defensoras "dos princípios liberais".
"Isso pode ter um grande impacto em cada sociedade, porque em abstrato a defesa da democracia pode ser entendida como muito bem-vinda, mas a depender do contexto pode significar subversão [...]. E, no caso de Trump, ele responsabiliza a globalização promovida pelos seus antecessores como responsável por arruinar o país. Então, isso é visto por ele como um inimigo e nocivo aos interesses norte-americanos, que corroeu o poder do país no mundo".
Além disso, Gonçalves afirma que o governo Trump rompe com o que classificou de "consenso bipartidário" que colocava democratas e republicanos com o objetivo estratégico de manter os Estados Unidos como potência hegemônica.
"Eles divergiam taticamente sobre a melhor maneira de perseguir essa estratégia, mas não discordavam que era a melhor. E o governo Biden seguiu essa orientação, em que colocava como extremamente importante o projeto hegemônico na Europa com o avanço da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] para isolar a Rússia", afirma.
E a Ucrânia, cujo apoio incondicional a Vladimir Zelensky foi defendido por diversas vezes por Alex Soros, era, segundo o professor da UERJ, parte desse consenso para tentar isolar Moscou. Mas, com o retorno de Trump, tudo mudou.
"Os Estados Unidos concediam crédito para a Ucrânia, e a Ucrânia compra armamento nos Estados Unidos, ativa a indústria armamentista e fica devendo dinheiro. Então, é esse negócio da guerra que o Zelensky, então, trabalhou para manter denodadamente. E o Trump rompe com esse planejamento estratégico", frisa.
Em outra frente, o especialista considera que o atual embate norte-americano com a China é "puramente econômico", e não militar como ocorreu no governo Biden, que por pouco não provocou uma guerra para defender Taiwan de Pequim.
"Para o Trump, os Estados Unidos sem o controle político da América Latina vira um Estado como outro qualquer, então a condição de potência é essa. Já a preocupação dele em relação à China é econômica e comercial, e de disputa pelo progresso tecnológico. Mas ele não fala em fazer guerra com a China por causa de Taiwan. Então, o nacionalismo dele é esse, não restrito ao território dos Estados Unidos", argumenta.
Por Sputinik Brasil
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