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Sobre o que eu nem sei quem sou

Existem uns caboclos que tem resposta pronta pra tudo. Vixi! É um Deus que nos acuda.
Você fala “A” e os caiporas, na lata, dizem “B” sem pestanejar, deixando qualquer um sem resposta e com aquela baita cara de tacho.
Ter uma habilidade desse naipe, sejamos francos, é muito útil numa roda de conversa, regada com aquelas ampolas de cerveja, trincando de gelada e, é claro, devidamente acompanhadas com uma infinidade de aperitivos estufados de colesterol.
Como já havíamos dito, é um Deus que nos acuda e Ele, Nosso Senhor, “sacumé”, vê todo esse bando de perdidos que somos e, provavelmente, deve rir pra caramba e, ao mesmo tempo, lamentar, por estarmos entregues de corpo e alma a essa lambança dantesca toda.
Só que tem uma coisa que encrespa tudo, e encrespa feio, pro lado daqueles que usam e abusam malandramente dessa habilidade retórica. Essa habilidade nos dá a ilusão de que sempre temos razão, sempre, apesar de não conhecermos o fundamento de praticamente coisa alguma.
Aí, por termos essa sensação gostosinha, nos damos por satisfeito com nossa criticidade de boteco construída nas coxas.
Pior! Muitas pessoas acabam tomando como único critério de credibilidade a apresentação de uma resposta certeira, elaborada na base de bordões, clichês e lugares-comuns. E se costumamos fazer isso, meu amigo, lascou-se tudo.
Sim, é difícil de engolir, sei disso, mas somos mais impressionáveis do que costumamos admitir. Como somos.
Detalhe: se nos permitimos viver desfrutando do efeito psicológico gerado por essas respostas vagas, que são dadas na lata, acabamos por acumular em nossa alma um monte de entulhos que – ao custo de um contentamento de ocasião, obtido por termos conseguido fazer aquela pose de detentor da última palavra – acabam por minar profundamente nossa capacidade de apreensão e compreensão da realidade.
Ora, compreender qualquer coisa, por pequena e tosca que seja, exige de nossa parte um mínimo de esforço que, muitas vezes, nos é furtado pela nossa preguiça e má vontade.
Agora, um conjunto razoável de bordões, juntamente com uma caixeta atolada de clichês, nos permitem cultivar a ilusão de sermos sabedores de tudo sem termos empreendido esforço algum para conhecer algo.
Clichês e bordões são ídolos que, infelizmente, cultivamos sem a menor cerimônia e, por isso mesmo, essas tranqueiras acabam sendo colocadas por nós no lugar da procura abnegada pela verdade.
Ídolos os quais colocamos no lugar da verdade porque ignoramos, soberbamente, o tamanho da força que é exercida por nossa vaidade e por nossa má vontade sobre nossa alma.
E assim segue boa parte da humanidade; e assim caminha um bom tanto da brasilidade e, por esse caminho, muitas vezes seguimos nós, eu e você, amigo leitor, com nossa intratável preocupação de querermos ter sempre uma opinião [de]formada sobre tudo, sobre todos, sem nenhum pudor, sobre o que nós nem sabemos que somos.
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