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Protestos sociais: a outra face da Copa do Mundo de Futebol no México
A Cidade do México se prepara para ser uma das sedes da Copa do Mundo FIFA 2026 e se organiza para a chegada de milhões de turistas. No entanto, além dos atrasos nas obras e dos desafios de segurança, o país enfrenta algo mais: as manifestações que ocorrem diariamente na metrópole de 21 milhões de habitantes.
Mães de pessoas desaparecidas, sindicatos de diferentes setores, coletivos feministas, moradores insatisfeitos, grupos minoritários e majoritários, estudantes, operários, agricultores, pecuaristas, transportadores, jovens, aposentados, médicos sem pagamento, comunidades artísticas, grupos de choque… todos têm motivos para levantar a voz no México, onde o direito ao protesto livre está garantido na Constituição.
O caos no trânsito causado por essas situações já é algo cotidiano na capital mexicana. Mas pode se tornar um grande problema diante do alto fluxo de pessoas esperado durante o Mundial na Cidade do México.
Em 2025, foram registradas mais de 2,7 manifestações em diferentes pontos da cidade. Dessas, 23% estavam relacionadas a reivindicações trabalhistas, segundo dados oficiais.
De acordo com uma análise da Câmara de Comércio, Serviços e Turismo da Cidade do México (Canaco), a cada semestre a capital perde cerca de 350 milhões de pesos (mais de R$ 100 milhões) devido aos protestos.
No entanto, diversas organizações empresariais alertam que esses números são conservadores, já que também é preciso considerar os prejuízos logísticos, a queda nas vendas e os custos de reparação após depredações.
A menos de dois meses da Copa do Mundo FIFA 2026, muitos grupos sociais concentraram sua insatisfação em torno do torneio esportivo mais assistido do mundo. Para protestar, além do bloqueio de vias, as organizações civis têm utilizado o próprio futebol como forma de expressão de seu descontentamento social.
As "cascaritas" — termo usado no México para partidas improvisadas de rua — tornaram-se a ação preferida de quem busca defender alguma causa social, desde 28 de março, durante o amistoso entre México e Portugal no Estadio Banorte.
Foi uma ação convocada por grupos contrários aos despejos imobiliários, e replicada por coletivos de mães e pais que buscam pessoas desaparecidas.
"Enquanto o Estado se organiza para celebrar na Cidade do México, Guadalajara e Monterrey, milhares de famílias continuam percorrendo o país. Para nós, não há jogo possível enquanto mais de 130.000 pessoas estiverem desaparecidas", afirmou Jorge Verástegui, do coletivo Hasta Encontrarles.
Os coletivos de busca ocuparam parte da Avenida Paseo de la Reforma, em frente ao local que chamaram de Glorieta dos Desaparecidos:
"Se o governo pretende usar esse evento como uma vitrine de normalidade, as famílias tomarão as ruas para lembrar que o México não pode ser sede esportiva enquanto continuar sendo uma fossa clandestina", afirmou o ativista.
O contexto esportivo também vem sendo aproveitado por outros grupos sociais, como os de agricultores, que desde o início do ano têm realizado diversos bloqueios em rodovias e estradas principais do México para exigir do governo federal apoio econômico que permita estabilizar os preços do mercado agrícola.
"Que não se esqueçam — e este é um recado para o governo: vem a Copa do Mundo FIFA 2026, então que não se assustem se isso [nosso protesto] continuar crescendo e bloqueemos esse evento, justamente onde estão sendo direcionados os recursos deste país, enquanto para o campo não há nem um centavo", afirmou Baltazar Valdés, dirigente da Frente em Sinaloa e integrante da Frente Nacional pelo Resgate do Campo Mexicano.
Possível desafio para as autoridades
Especialistas consultados pela Sputnik destacaram que, embora os protestos possam afetar a mobilidade durante os eventos organizados na cidade ao longo da Copa do Mundo FIFA 2026, a expectativa é de que o evento ocorra sem grandes contratempos.
Em entrevista à Sputnik, a doutora em Ciências Sociais da Universidad Autónoma Metropolitana, Annaliesse Hurtado Guzmán, avaliou que alguns dos grupos sociais que anunciaram a intenção de protestar durante o Mundial não pretendem prejudicar a população, apenas dar visibilidade a demandas sociais legítimas.
Especialista em lutas sociais, ela avaliou que as mobilizações evidenciam problemas internos do México que também estão ligados à influência de capital estrangeiro no país, manifestada em processos como da gentrificação.
"O processo das violências e os efeitos do capitalismo não dizem respeito apenas ao México, mas a uma lógica global em que o capitalismo exerce influência mundial e na qual outros países impactam as dinâmicas socioculturais das regiões onde esses investimentos ocorrem", disse a pesquisadora.
O doutor em Ciências Sociais da Universidad Nacional Autónoma de México Hugo Sánchez Gudiño disse à Sputnik que o bom andamento dos eventos "dependerá da capacidade de negociação das autoridades" e das estratégias adotadas para reduzir o impacto das mobilizações
"Acredito que as autoridades estão apostando, de certa forma, que a instalação desses Fan Fest, com telões e outras atividades, tenha grande capacidade de atrair público e, assim, enfraqueça qualquer protesto", comentou Gudiño.
A doutora em Ciências Sociais da Universidad Autónoma Metropolitana, Claudia Salazar Villava, declarou que será uma situação desafiadora para as autoridades da capital, especialmente porque, segundo ela, a administração "tem demonstrado dificuldades para dialogar" com diferentes grupos sociais.
De acordo com os especialistas consultados, a Coordenação Nacional de Trabalhadores da Educação é o coletivo que pode representar o maior desafio para o governo, devido à sua organização política e sua capacidade de mobilização.
Em março passado, o grupo instalou um acampamento para exigir a revogação da Lei do Instituto de Segurança e Serviços Sociais dos Trabalhadores do Estado (ISSSTE), aprovada em 2007, após conseguirem impedir que uma nova reforma proposta em 2025 fosse discutida. Sua agenda política frequentemente alcança as mais altas esferas de poder, e o grupo mantém diálogo com a presidente Claudia Sheinbaum.
Para as analistas Annaliesse Hurtado Guzmán e Claudia Salazar Villava a conjuntura do Mundial para exercer pressão política sobre suas demandas favorece os protestos, mas há espaço para negociações.
Os professores, há anos, reivindicam melhores condições salariais e de trabalho. E, embora o protesto do magistério tenha sido encerrado em poucos dias, líderes da coordenação advertiram que estudam formas mais contundentes de protesto no contexto da Copa do Mundo, até que sejam revertidas as mudanças feitas no sistema de aposentadorias durante o governo do ex-presidente Felipe Calderón.
Por Sputinik Brasil
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