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Fé sem engenharia: obras de R$ 34 milhões param e engenheiros tentam salvá-las

Redação 15/01/2026
Fé sem engenharia: obras de R$ 34 milhões param e engenheiros tentam salvá-las
Cristo do Pilar; 70 metros, obra inacabada

Diante do impasse, a prefeitura do Pilar e a empresa responsável pelo projeto recorreram a uma equipe do Rio de Janeiro especializada na manutenção do Cristo Redentor, numa tentativa de refazer estudos de fundação e avaliar se ainda há condições técnicas de continuidade.

Até agora, não há transparência sobre quanto já foi gasto, nem sobre quanto custará corrigir erros que deveriam ter sido evitados na fase de projeto. O que se sabe é que a conta, mais uma vez, recai sobre os cofres públicos.

A lição ignorada


Marcos Carnaúba compara os casos a um episódio clássico da engenharia: um silo de 30 metros que “explodiu” devido à oscilação provocada pelo vento. Obras verticais sem cálculo aerodinâmico, afirma, não são apenas mal planejadas — são perigosas.

Para Santana do Ipanema e para o Pilar, fica uma lição dura: desenvolvimento não se constrói com improviso, nem fé substitui engenharia. O turismo religioso pode mover multidões, mas sem respeito às leis da física, o que sobra é obra parada, dinheiro desperdiçado e risco à vida.

Como resume o engenheiro, com a franqueza de quem viu demais:sem enfrentar o “malvado do vento”, não há milagre que sustente estátua de pé.

Obra de Santuário de Nossa Senhora Santana está paralisada

Milhões voando


De acordo com a placa instalada no local, o projeto do Santuário de Senhora Sant’Ana, em Santana do Ipanema, está orçado em R$ 22.258.526,84 e é de responsabilidade direta da Prefeitura Municipal.

O valor expressivo contrasta com a ausência de estudos técnicos fundamentais, como análises aerodinâmicas e de impacto dos ventos, condição indispensável para uma obra erguida no topo de uma serra, área naturalmente exposta a rajadas intensas.

Já a construção da estátua do Cristo no município de Pilar, iniciada em dezembro de 2022, foi interrompida com apenas 20% da obra concluída. O monumento, que pretendia ser o maior Cristo do mundo, tinha orçamento estimado em R$ 12,5 milhões, mas acabou paralisado após alertas técnicos apontarem falhas graves na fundação e na estrutura, colocando em risco a segurança da obra e levantando questionamentos sobre a correta aplicação dos recursos públicos.

Nos dois casos, o que se evidencia é um padrão preocupante: projetos milionários lançados sem o devido embasamento técnico, impulsionados mais por discurso político e apelo simbólico do que por planejamento responsável. As paralisações não apenas frustraram expectativas de desenvolvimento turístico, como também deixaram marcas visíveis de desperdício, obras inacabadas e incertezas quanto ao destino final dos recursos investidos.

Para especialistas, como o engenheiro Marcos Carnaúba, situações como essas reforçam a necessidade de que grandes obras públicas sejam precedidas por estudos rigorosos e transparência total.

Sem isso, o risco não é apenas estrutural, mas também financeiro e social, transformando o que deveria ser símbolo de fé e progresso em exemplo de improviso e mau uso do dinheiro público.