Finanças

Liquidação da gestora Reag já era esperada na Avenida Faria Lima

Gestores avaliam que após a Carbono Oculto e Compliance Zero situação da instituição financeira ficou insustentável

Agência O Globo - 15/01/2026
Liquidação da gestora Reag já era esperada na Avenida Faria Lima
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Na Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, liquidação da Reag, fundada por João Carlos Mansur, alvo de investigações da Polícia Federal no caso da liquidação do , era dada como certa. Após a revelação da Operação Compliance Zero de que fundos administrados pela instituição vinham sendo usados num esquema de fraudes com recursos da instituição do ex-banqueiro , a situação da Reag ficou insustentável, avaliam gestores ouvidos pelo GLOBO na condição de anonimato. A Reag, segundo ele, teve participação crucial nas fraudes perpetradas pelo banco Master.

Master:

Reag:

Para estes gestores, a investigação da gestora em casos de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio do crime organizado na Operação Carbono Oculto e também de operações de empréstimos fraudulentos com recursos do Master através de fundos administrados por ela, colocou em xeque a confiança e credibilidade do mercado de capitais brasileiro, que é o maior da América Latina.

— Ou os órgãos fiscalizadores do mercado sabiam que isso vinha acontecendo e não tomaram providências ou o sistema de segurança precisa ser ajustado para evitar brechas desse tipo — diz um gestor da Faria Lima.

No centro financeiro paulista, a ascensão da Reag ao posto de uma das maiores gestoras independentes, desde que foi fundada em 2012, sempre chamou a atenção dos seus pares. A Reag cresceu num ritmo acelerado, diferente de suas concorrentes, através da aquisição de mandatos de fundos exclusivos, em que famílias ricas usam para administrar seu dinheiro. Esses fundos só tem um cotista. A Reag também comprou diversas gestoras.

— Esse crescimento em ritmo acelerado e de uma forma agressiva, com compra de outras gestoras, sempre trouxe incômodo na Faria Lima, onde gestoras levam anos para construir credibilidade e confiança — comenta outro executivo da Faria Lima.

Reag:

Em pouco tempo, a Reag tornou-se a maior gestora independente do país, só ficando atrás das assets dos grandes bancos brasileiros. Ela sempre figurou entre as dez maiores gestoras do país. Chegou a ter R$ 341,5 bilhões nos fundos administrados, no ano passado, segundo ranking mensal da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). São recursos de pessoas físicas e jurídicas, fundos de pensão e investidores institucionais que aplicaram em mais de 500 fundos de investimento oferecidos em sua plataforma.

Em janeiro do ano passado, a Reag tornou-se a primeira Asset Management e Wealth Management, que faz gestão de fortunas, a ter ações na B3. A estreia na Bolsa teve direito a batida de martelo e muita comemoração, e aconteceu através de uma operação de “IPO reverso”, depois de o grupo financeiro adquirir o controle da plataforma de serviços Getninjas, que já tinha ações negociadas desde 2021.

Reag é considerada pequena pelo BC

A Reag, que passou a ter a denominação de CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, está enquadrada no segmento S4, o que segundo o Banco Central, são instituições financeiras de porte muito pequeno, com exposição total ou ativo inferior a 0,1% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB). Esse segmento agrupa corretoras, distribuidoras de títulos e outras instituições não bancárias menores.

Depois de ser um dos alvos da Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do crime organizado no mercado de capitais, a Reag Investimentos anunciou a venda de seu controle acionário e a saída da presidência do Conselho de Administração de seu fundador, João Carlos Mansur. Segundo um comunicado protocolado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que fiscaliza o mercado de capitais, a medida buscava preservar a reputação da gestora.

Saiba:

"A decisão foi tomada com o objetivo de proteger a integridade e a reputação da Reag Investimentos, seus colaboradores, clientes e acionistas, diante das recentes e infundadas especulações às quais a companhia foi submetida, sendo esta a medida mais prudente para assegurar que a condução dos negócios e a governança corporativa permaneçam inabaláveis, sem qualquer interferência de tais narrativas", diz o comunicado divulgado pela empresa.

A empresa informou que as empresas acionistas controladoras, Reag Asset Management (gestão de ativos) e Reag Alpha Fundo de Investimento Financeiro em Ações fecharam acordo para vender participação de 87,38% na companhia à Arandu Partners Holding, uma empresa formada pelos principais executivos da própria Reag. O valor do negócio foi estimado em R$ 75 milhões, mas há uma parcela variável, que está vinculada à receita operacional líquida da companhia num prazo de cinco anos.

O acionista controlador saiu do negócio, mas permaneceu em outras empresas do grupo, como a Ciabrasf, que atua na administração de fundos e em serviços fiduciários. João Carlos Mansur formalizou a renúncia ao cargo de presidente do Conselho de Administração, enquanto Altair Tadeu Rossato renunciou como membro independente do comitê de auditoria, assim Fabiana Franco, que era diretora financeira da companhia.

Em nota divulgada na época da Operação Carbono oculto, a Reag Investimentos informou que recebeu com surpresa as divulgações que a envolvem em supostas irregularidades investigadas no âmbito da Operação Carbono Oculto. E refutou veementemente qualquer atuação em estruturas de natureza ilegal.

Garantiu que há diversos fundos de investimento mencionados na operação que nunca estiveram sob sua administração ou gestão — e que renunciou a oito fundos citados nas investigações. Também reafirmou que mantém controles internos rigorosos de prevenção à lavagem de dinheiro, em linha com padrão dos reguladores aos quais está submetida.