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Milton Hatoum toma posse na cadeira 6 da ABL: 'Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário'

Autor de 'Dois irmãos' é o primeiro amazonense na história da Casa de Machado de Assis

Agência O Globo - 25/04/2026
Milton Hatoum toma posse na cadeira 6 da ABL: 'Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário'
Milton Hatoum

O escritor Milton Hatoum toma posse na cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras na noite desta sexta-feira (24). Primeiro amazonense da casa, . 

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Bienal do Livro Bahia:

Hatoum escreveu nove livros de ficção, dentre eles os romances "Relato de um certo Oriente", "Dois irmãos" e "Cinzas do Norte" (Companhia das Letras), vencedores do Prêmio Jabuti. Em 2025, ele encerrou a sua triologia  "O lugar mais sombrio", que inclui os títulos "A noite da espera", "Pontos de fuga" e "Dança de enganos", que entrelaça dramas familiares à história da ditadura militar brasileira entre os anos 1960 e 1980.  Ele também publicou coletâneas de contos e crônicas. Ao todo, tem mais de 500 mil exemplares vendidos em 17 países. 

— Fico muito grato a todos da Academia que me elegeram. É uma homenagem sobretudo aos meus leitores e leitoras, aos professores e professoras, não só da Amazônia, mas de todo o Brasil — comentou o autor ao chegar à ABL para a posse. — São pessoas que trabalharam e trabalham com meus livros, sou extremamente grato a esses educadores. O salto qualitativo do nosso país passa pela educação pública de qualidade. Sou filho dessa educação pública, do pré-escolar até a universidade, até os estudos superiores.

Hatoum teve reeditado recentemente "Crônica de duas cidades: Belém e Manaus", escrito em parceria com o filósofo e crítico literário Benedito Nunes, morto em 2011. O livro faz um panorama histórico-cultural das duas metrópoles da Amazônia brasileira, com um ensaio de cada autor.

O escritor é conhecido pela produção meticulosa e os longos intervalos entre as publicações. Seu discurso de posse, por sinal, só foi terminado nos últimos minutos. Ele mesmo brincou com a fama durante a cerimônia:

— Meus filhos sempre me perguntam por que demoro tanto para terminar o livro — revelou em seu discurso. — Olha, eu mesmo não entendo essa lentidão que, no entanto, não me exaspera. Talvez ela guarde uma relação atávica com o tempo e com o ritmo da Amazônia, de onde eu vim.

No discurso, o escritor diz que "enquanto houver a vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas, lidas e ouvidas".

— Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva. Na experiência mística. Vivemos também no devaneio. A humanidade não pode suportar tanta realidade como diz o famoso poema de Eliot. Um dos meus devaneios é imaginar um punhado de leitores anotando os mesmos trechos de um livro — destaca Hatoum. — Isso acontece nas manhãs nada inspiradas, em que busco alguns livros, frases sublinhadas, imagino leitores sublimando as mesmas passagens do romance "A hora da estrela", os mesmos versos de um poema de João Cabral, com esta frase de um conto de Guimarães Rosa: "Só sabemos de nós os mesmos com muita confusão".

Em seu discurso de recepção, a acadêmica Ana Maria Machado lembrou que, em 2015, abordou Hatoum com a sugestão de que considerasse, eventualmente, a hipótese de se candidatar à ABL. 

— Ouvindo minha sugestão, o ar de espanto dele foi autêntico e inesquecível — disse Machado. — Evidentemente, a hipótese não lhe ocorrera jamais. Ficou sem ter o que dizer, balbuciando desculpas.  Mas prometeu pensar no assunto. Pois não é que ele levou dez anos pensando? Só agora, em final de 2025, resolveu se candidatar, e por isso estamos todos aqui a festejá-lo hoje.

'Maior escritor brasileiro vivo'

Para o presidente da ABL, Merval Pereira, Hatoum toma posse como "o maior escritor brasileiro vivo" e um "romancista de primeira ordem". 

— Ele é um escritor excepcional, cujo trabalho enriquecerá a ABL —  diz Pereira. —  Hatoum já colaborava com a instituição, especificamente com a Revista Brasileira, e  sua entrada como imortal ampliará essa contribuição.

Hatoum recebeu o colar (medalha simbólica entregue aos novos membros) da acadêmica Rosiska Darcy e o diploma da acadêmica Lilia Moritz Schwarcz; a espada foi entregue por Arnaldo Niskier. A comissão de entrada foi formada pelos Acadêmicos Antonio Carlos Secchin, Domício Proença Filho e Eduardo Giannetti; a comissão de saída pelos Acadêmicos Arno Wehling, Ana Maria Gonçalves e Gilberto Gil.