Curiosidades

Dos devocionais à ficção, orixás atraem leitores e editoras apostam em obras que agradam religiosos e fãs de mitologia

Público está interessado no pensamento filosófico das culturas africanas que constituem o Brasil, observa Cristina Warth, da Pallas

Agência O Globo - 18/01/2026
Dos devocionais à ficção, orixás atraem leitores e editoras apostam em obras que agradam religiosos e fãs de mitologia
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Orunmilá (ou Ifá) é o orixá da adivinhação, o senhor do oráculo, que sabe tudo o que já aconteceu e o que ainda está por vir. Três princesas se apaixonaram por ele: Discórdia, Riqueza e Paciência. Depois de muito refletir, Orunmilá escolheu a gentil Paciência, que lhe ajudou a tomar decisões sábias, resolver conflitos com serenidade e construir um reino próspero e feliz. A história de Orunmilá e Paciência é contada na reflexão de hoje de “Café da manhã com os orixás”, devocional escrita pelo sacerdote e doutor em ciências da religião João Tokunbó Carneiro.

O que ler em 2026:

Veja vídeo:

A fórmula é a mesma de outros devocionais, como o best-seller : para cada dia do ano, há uma reflexão inspirada em um texto sagrado. A diferença é que o livro do pastorse baseia em passagens bíblicas e “Café da manhã com os orixás” propõe reflexões a partir das narrativas das religiões afro-brasileiras.

A mensagem deste domingo sugere ao leitor cultivar a paciência para agir sabedoria e controlar a influência da riqueza e da discórdia em sua vida. A lição de terça-feira passada, dia 13, contou a história de Logum Edé, a única entidade que transita entre o masculino e o feminino, e propôs uma meditação sobre harmonia e aceitação das diferenças e a própria “dualidade e complexidade”. Já o texto de 6 de setembro, Dia do Sexo, convida a pensar sobre a relação entre sexualidade e realização pessoal a partir de um mito que narra como Oxaguiã restaurou os órgãos sexuais do irmão e da cunhada (ele mesmo havia castrado os dois).

Sócia da editora Pallas, Cristina Warth gostou de uma descrição da obra feita por uma leitora nas redes sociais: “Devocional para macumbeiro.” Publicado no fim do ano passado, “Café da manhã com os orixás” vendeu três mil cópias em menos de um mês.

Os livros do ano:

O sucesso atesta o interesse crescente do público por livros sobre as religiosidades afro-brasileiras, desde títulos destinados a leitores em busca de conexão com o sagrado, como “Café com Exu” (Academia), de Rubens Oliveira, até obras que transitam entre a espiritualidade e a pesquisa acadêmica, como “Mitos yorubás” e outros trabalhos do historiador e ogã (sacerdote do candomblé) José Beniste, que vêm sendo reeditados pela Record. “Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá”, de (Companhia das Letras) também acaba de voltar às livrarias, e ainda este ano sai um inédito do antropólogo francês: um volume bilíngue, em português e iorubá, que reúne histórias de orixás ouvidas de quatro babalaôs na Nigéria.

Até a ficção tem incorporado os orixás. “Fernão e a epopeia da Coluna dos Pretos”, de Edison Reis, resgata a participação da população negra na (1864-1870). Na trama inventada por Reis, o ditador paraguaio Solano López acha que sua decisão de invadir o Brasil teve inspiração na ideologia expansionista de Napoleão Bonaparte. Mal sabia ele que fora Exu, o orixá do movimento, da comunicação e das transformações, quem lhe soprara a ideia. Não à toa, na noite em que ordena a ofensiva militar, o paraguaio sonha com uma encruzilhada.

O objetivo de Exu era trazer Ogum, o orixá protetor dos soldados, de volta de seu exílio, que já durava três mil anos. O prólogo do livro recorda um mito em que Ogum decide se resguardar após reagir com extrema violência ao que entendeu como uma falta de reverência dos homens à sua autoridade. Mas Exu sabe que Ogum não resiste a uma guerra. Ainda mais a uma guerra que fortaleceria o movimento abolicionista e contribuiria para o fim da escravidão no Brasil.

Fernão, o herói do título, é filho de uma cozinheira da família imperial. Ele foge da corte ainda menino depois de acidentalmente machucar o príncipe herdeiro, o futuro. Acaba vendido como escravizado e vai parar nas Minas Gerais. Impetuoso e trabalhador como Ogum, ele se rebela, se vinga de capitães do mato e vira líder de um quilombo. Quando Exu o convoca para liderar a Coluna dos Pretos no campo de batalha, Fernão já está mais velho e cansado, só pensa em cuidar de sua roça. Mas não perdeu a força e sabe que ordem de Exu não se discute. “Faço tudo o que Exu mandar”, ele responde.

Reis não é religioso e inicialmente não pretendia incluir questões espirituais no livro.

— Estudando o conflito descobri os Zuavos Baianos, um destacamento de soldados negros, voluntários da Guerra do Paraguai, que eram devotos de Ogum. Antes disso, eu não imaginava que os orixás iam entrar na história — conta o autor, que aprendeu que “nenhuma porta se abre se não for da vontade de Exu”. — As histórias do panteão afro-brasileiro são uma grande fonte de inspiração, oferecem uma filosofia e ensinamentos morais. É uma tradição rica e negligenciada. Acredito que se os orixás aparecessem tanto na mídia quanto as mitologias grega e nórdica, por exemplo, o preconceito contra as religiões afro-brasileiras diminuiria.

O próximo romance de Reis pretende resgatar a histórias dos soldados negros que participaram da Revolução Farroupilha (1835-1845). Ele avisa que Exu e Ogum já foram escalados para a história.

Ogum é o orixá da metalurgia e da guerra, corajoso e impulsivo. Em “Orixás: os deuses que habitam em nós”, novo livro do sociólogo , surge um Ogum introspectivo, cuja “busca incessante por conquistas pode levar à solidão”. A obra tem 18 capítulos, cada um dedicado a uma entidade e dividido em três partes: a primeira narra o mito, a segunda descreve as relações entre as entidades e os seres humanos segundo a tradição, e a terceira apresenta um retrato mais subjetivo do orixá, reflexo da relação pessoal que se estabelece entre ele e seus filhos. É nessa terceira parte que dá as caras esse Ogum mais sentimental.

— Ogum é sempre retratado com um orixá forte, um rei guerreiro e sanguinário, o protótipo do macho vencedor. Mas ele também é doce e amoroso. É conquistador e poderoso, mas também é apaixonado. Essas qualidades mais humanas e sensíveis se revelam na interação com as pessoas — diz Prandi, professor da Universidade de São Paulo que escreveu o livro “para quem crê e para quem não crê”.

Filho de Oxaguiã, Prandi transita há décadas entre terreiros e a universidade e é um dos responsáveis pela expansão da literatura sobre religiões afro-brasileiras no país. É autor de “Mitologia dos orixás” (Companhia das Letras), compêndio de histórias dos deuses africanos lançado em 2000 que se tornou clássico e acaba de ser reeditado, de obras para crianças (ele está preparando uma “Pequena mitologia dos orixás”) e do romance policial “Morte nos búzios”. No ano passado, também publicou “Brasil africano: orixás, sacerdotes e seguidores” (Pallas).

A proliferação de títulos sobre as tradições afro-brasileiras, diz ele, reflete tanto o aumento das pesquisas acadêmicas sobre o tema quanto o interesse de diversos públicos (de religiosos a aficionados por mitologia) pelas culturas africanas.

O aumento da parcela da população praticante de religiões afro-brasileiras, que passou de 0,3% para 1% segundo o último Censo, também é apontado como uma das causas do sucesso dos livros sobre orixás.

— Hoje há menos estigma, mais pessoas estão assumindo publicamente sua filiação a religiões de matriz africana e não têm vergonha de falar de sua fé nas redes sociais. É um movimento social que explica a busca por esses títulos nas livrarias — afirma Felipe Brandão, diretor editorial da Planeta.

Na avaliação dele, trata-se de um nicho em expansão e, para fisgar os consumidores, vale a pena apostar em edições bem cuidadas e títulos que chamem a atenção, como “Exu do ouro: consciência próspera”, de Rodrigo Queiroz, que já vendeu 12 mil cópias. No selo de espiritualidade da Planeta, o Academia, livros sobre as tradições afro-brasileiras já vendem mais que os budistas. “Ervas e Benzimentos” (45 mil exemplares vendidos), de Fábio Dantas, e “O Exu que habita em mim” (20 mil), de Vagner Òkè, são respectivamente o quarto e o quinto maiores best-sellers do selo.

Cristina Warth, da Pallas, lembra-se de quando esses títulos eram vendidos em casas de artigos religiosos e ficavam quase escondidos nas livrarias. Desde 2000, a Pallas publica a coleção “Orixás”, livros curtos sobre as principais entidades do panteão afro-brasileiro que, juntos, já venderam 80 mil cópias. No fim do ano passado, saíram os volumes dedicados a Oxóssi e a Ossaim.

— A Pallas está há 50 anos no mercado, e antes a gente trabalhava títulos mais utilitários, como livros de receitas, oferendas, que descreviam os trajes dos orixás... Esses livros continuam no catálogo, mas agora percebo que o leitor quer entender o pensamento filosófico das culturas africanas que constituem o Brasil — observa Cristina.

Para João Tokunbó Carneiro, autor de “Café da manhã com os orixás”, o que as entidades propõem é justamente isso: uma “filosofia de vida”.

— Os orixás ensinam que para ter uma vida feliz nós precisamos de bons amigos, boas histórias. Ou seja: temos que agir com bondade para criar uma rede de afetos e viver a vida de verdade — diz ele, que também é psicanalista junguiano. — Por isso, as reflexões diárias são sobre tudo: emoções, relacionamentos, dinheiro, saúde, política, cultura, espiritualidade. Os orixás não compartimentalizam a felicidade, eles propõem uma filosofia de vida integrada.

Serviço:

‘Café da manhã com os orixás’

Autor: João Tokunbó Carneiro. Editora: Pallas. Páginas: 424. Preço: R$ 98.

‘Orixás: os deuses que habitam em nós’

Autor: Reginaldo Prandi. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 256. Preço: R$ 79,90.

‘Fernão e a epopeia da Coluna dos Pretos’

Autor: Edison Reis. Editora: Alma. Páginas: 532. Preço: R$ 120.