Curiosidades

Entre Brasil e Portugal, ‘Criolo, Amaro & Dino’ junta expoentes do rap, do jazz e da música africana

‘A cada passo, eram os nossos corações que iam dizer o que era e o que não era’, diz o astro paulistano do hip hop sobre o disco, feito em três encontros, em três cidades diferentes, com o pianista pernambucano e o cantor de ascendência cabo-verdiana

Agência O Globo - 15/01/2026
Entre Brasil e Portugal, ‘Criolo, Amaro & Dino’ junta expoentes do rap, do jazz e da música africana
Entre Brasil e Portugal, ‘Criolo, Amaro & Dino’ junta expoentes do rap, do jazz e da música africana - Foto: Reprodução Redes Sociais

Astro do rap nacional, o paulistano Criolo, 50, estava em estúdio, há coisa de uns anos, participando de um projeto que o reunia a Milton. Eles gravavam reinterpretações de suas “Cais” e “Não existe amor em SP”.

— Ficou-se imaginando o que fazer, quem convidar, que energias trazer. O nome do Amaro (Freitas, ) veio do time do Bituca, eles tinha acabado de conhecê-lo e falaram: “Olha, tem uma pessoa aqui que a gente pode convidar para fazer os arranjos dessas músicas, um jovem pianista, extremamente talentoso, espiritual.” — recorda-se Criolo. — Minha identificação com o Amaro foi brutal. Quando ele me mostrou os arranjos, eu comecei a cantar, a soltar minha alma, meus sentimentos, com outras coisas, que não as que tínhamos combinado. A gente viu que as almas dançaram.

Amaro lembra bem desse encontro.

— O Criolo chegou e disse: “Mano, posso te pedir uma coisa? Toca um negócio aí.” Aí eu comecei a tocar uma parada que tinha nada a ver com a música. Ele sentou no banco do piano, do meu lado e começou a mandar um verso atrás do outro. E era uma tragédia o que ele tava falando, “tragam flores, alguém morreu”, um negócio pesadíssimo! No final, a gente se olhou e o olhar meio que disse tudo: Deu match.

Já , 43, Criolo conheceu em 2023, quando ia de Sevilha (onde tinha ido participar do Grammy Latino) para Lisboa. Lá, amigos o esperavam para apresentá-lo a “pessoas interessantes” — entre elas, Dino.

— Ele começou me contando uma história, de que estava em uma encruzilhada, sem saber o que ia fazer da carreira, até que escutou o “Nó na orelha” (álbum que estourou Criolo em 2011) e aí decidiu fazer o disco dele — conta o paulistano. — Fiquei tão tocado por aquilo que, passados 10 dias, eu liguei e disse: “Dino, você já é meu irmão, eu tenho um disco de samba pronto, quero ir a Portugal e gostaria que você interpretasse esses sambas e nós fizéssemos um disco gêmeo.” Fui sem pensar. Lá, eu não conseguia dormir, passava a noite fazendo beats, ajeitando letra, organizando ambiente... aí, na quarta madrugada, nasceu “Esperança”.

Mas faltava algo para equilibrar a música (o disco de samba, este ficou para trás), Criolo sentiu: e era “o piano único, brasileiro” de Amaro Freitas. Prontamente, mandou a música para o parceiro pernambucano, que estava em Nova York. Mais tarde, em Recife, Amaro gravou o piano da canção. Ele ainda não conhecia Dino D'Santiago.

— Quando escutei a música pela primeira vez, imaginei um senhor, um preto velho barbudo. Só depois eu vim descobrir que o Dino é esse cara um jovem. E fiquei apaixonado, porque além de tudo ele tem um papel musical, social e político muito forte em Portugal e em Cabo Verde — conta o pianista.

Lançado como single, em 2024, “Esperança” (que não entrou no álbum) obteve uma indicação para o Grammy Latino. Era um sinal. Logo, veio a certeza de que eles teriam que fazer um disco inteiro juntos.

— Esse é um álbum que nasce da celebração do nosso encontro, sem a gente saber o que ia fazer musicalmente, ou de texto, de tema. A cada passo, eram os nossos corações que iam dizer o que era e o que não era. E, assim, nós seguimos por todos os poucos dias em que pudemos nos encontrar — conta Criolo.

“Criolo, Amaro & Dino” (que ganhou capa do artista plástico Vik Muniz) foi sendo feito ao longo de três encontros: em Portugal (no estúdio Toca do Dragão, do baterista português Fred Ferreira, que com os brasileiros Mallu Magalhães e Marcelo Camelo montou a Banda do Mar), em Recife (só com as participações de Amaro e Criolo) e no Rio (na Companhia dos Técnicos, só com Criolo e Dino).

— Tem uma faixa que começa e eu já falo assim: “Amaro, cadê o Dino?” (é a quase pop song “Anoitecer”) Porque não tem Dino. Foi uma luta, todos se esforçaram muito, muito. O Dino, com o filho debaixo do braço, vai para o estúdio, sai, cumpre um compromisso, volta na madrugada e canta — recorda-se Criolo, que trouxe para o disco “Livros” (faixa que ia gravar no disco de , ) e as canções românticas soul à la Cassiano “Ela é foda” e “Hoje eu vi você”. — (Essas nasceram de a gente ir) escutando as melodias, as harmonias de piano ali, foi natural. Parecia que a gente estava montando uma coisa que já existia, as peças estavam ali.

Africana e nordestina

Uma das favoritas de Amaro Freitas no disco é “Você não me quis”, um rap com características africanas e nordestinas.

— “Uma casa para mãe / um carro pro pai / levar a cremosa para passear”... Eu pirei muito nessa letra, isso ficou cravado na minha cabeça, porque isso representa muito o sonho de um homem que vem da periferia — observa o pianista, responsável por levar para o disco os sopros de Henrique Albino, os vocais d'As Clarianas, a percussão de Beto Xambá e a rabeca de Mestre Maciel Salú

O trio do disco fez apenas um show até hoje: em dezembro passado, em São Paulo, na festa de dois anos do Bar Matiz — e no ensaio para a apresentação, já saiu mais uma música, que eles pensam em gravar. Dadas todas as dificuldades de reunir artistas grograficamente separados e com tantos compromissos, o próximo show só acontece em junho, em Portugal, no festival Primavera Sound do Porto.

— Eu tô bem curioso, bem ansioso (para o novo encontro no palco). As canções são uma coluna vertebral do que a gente não sabe o que vai acontecer — define Criolo, cheio de planos para 2026. — Você não vai acreditar, voltei a escrever rap, minha alma só mandou raps, 20 anos depois do meu disco só de rap, que é o “Ainda há tempo”. Não sei se vai acontecer esse presente dos céus, um disco de rap total, talvez aconteça. É rap, rap, sem cartão de visita, talvez no final com um sachê para sua queimação de estômago.

Sem crise de meia-idade

A recente chegada aos 50 anos de idade, ele garante, não lhe trouxe qualquer crise:

— Rapaz, eu passei 80% da minha vida em estado de emergência. As pessoas ao redor do “Nó na orelha” me ajudaram a construir um caminho onde eu não tivesse mais medo se eu ia almoçar ou não. Isso, quando eu tinha 37 para 38 anos de idade. Então, eu só tenho 12 anos. Crise da meia-idade? Não sei o que é isso. Eu, que sempre vivi em crise, vou chamar de prosperidade.

Já Amaro, que segue em 2026 sua peregrinação pelos palcos de jazz do mundo, se programa com bastante calma para lançar disco de inéditas só no ano que vem.

— É um disco que vai da comunidade indígena dos Fulni-ô a cantoras que eu conheci no Japão e uma galera dos Estados Unidos, do Paquistão, enfim, ele vem com essa conexão mundial. Tem música com septeto, tem música com orquestra, tem música que é com coral indígena, tem música que é só eu e e e Ichiko Aoba, uma cantora japonesa... tem até a Lisa Fischer, americana que já cantou com os Rolling Stones — anuncia.