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No ar em ‘Três Graças’, Xamã fala da vergonha ao gravar cenas de nudez e da vaidade construída com o tempo: ‘Sou bonitão mesmo’

Com a novela das nove, o ator e rapper tem conquistado até as senhorinhas; a fama de ‘Malvadão’ só combina mesmo com o personagem: ‘Eu tenho um coração de pão doce’

Agência O Globo - 18/01/2026
No ar em ‘Três Graças’, Xamã fala da vergonha ao gravar cenas de nudez e da vaidade construída com o tempo: ‘Sou bonitão mesmo’
Xamã - Foto: Reprodução / Instagram

O apelido que já rendeu três títulos de músicas a Xamã — entre elas “Malvadão 3”, a mais famosa, alcançando o topo do Spotify Brasil em 2021 — já não define tão bem o artista que hoje interpreta o chefe do tráfico Bagdá na novela “Três Graças”. Quem chega para a entrevista desta edição da Canal Extra é um sorridente e simpático Geizon Carlos da Cruz Fernandes, verdadeiro nome do artista de 36 anos, acomodado diante de uma mesa em sua casa, no Itanhangá, Zona Oeste do Rio. Sobre a fama de “malvado” cultivada como rapper, ele afirma:

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— Eu tenho um coração de pão doce (risos). Hoje, Malvadão só faz sentido para o meu personagem da novela. Essa parada nunca colou para quem me conhecia de verdade.

Com quatro álbuns lançados e uma trajetória de uma década na música, Xamã vem conquistando um novo e mais diverso público desde que iniciou sua trajetória na teledramaturgia.

— Já tentei ser tudo na vida. Fui vendedor de loja, camelô… A música me abriu portas, me fez politizado e me levou para o cinema, que era meu sonho. Agora, com as novelas, até as senhorinhas me mandam mensagens nas redes sociais. Nos meus shows, já me chamaram de Bagdá! Óbvio, também tenho haters. Mesmo assim, no X (antigo Twitter), onde rolam os comentários mais negativos, 90% do que recebo é positivo — conta.

Positivas também têm sido as críticas sobre sua ainda curta, porém consistente, carreira como ator. Após uma participação em “Amor de mãe” (2019), Xamã conquistou seu primeiro papel fixo no remake de “Renascer” (2024), vivendo o jagunço Damião, personagem interpretado por Jackson Antunes na versão original. No mesmo ano, esteve na série “Justiça 2”, do Globoplay, e seguiu conciliando a atuação com a música.

— O cinema e a televisão são trabalhos muito coletivos. Na música, se me der uma doideira, lanço um álbum amanhã. Como ator, me dedico muito ao que faço, tento entender como tudo funciona. Corro atrás de aprender sotaque, faço aulas com preparadoras de elenco. Em “Renascer”, considero que estava jogando no Real Madrid, ao lado de Marcos Palmeira, Juan Paiva... — destaca.

Além de “Três Graças”, Xamã atuou na série “Os donos do jogo”, lançada no ano passado pela Netflix. Na produção para o streaming, ele viveu Búfalo, um lutador que ingressava na poderosa família Guerra, uma das mais tradicionais do jogo do bicho, após se casar com Suzana (Giullia Buscacio). Na trama, os dois protagonizaram cenas quentes, e Xamã surgiu nu na piscina. Já em “Renascer”, ele ficou com o bumbum de fora numa sequência em que Damião tomava banho pelado no rio na frente de Ritinha (Mell Muzzillo).

— Em “Renascer”, tudo era muito intenso e à flor de pele para Damião. Ele tinha uma coisa animal. Na cena do rio, os diretores me deram a opção de não aparecer nada. Mas o personagem era um cara que gostava de tomar banho pelado (risos)... Foi difícil pra mim, fiquei com um pouco de vergonha, mas disse: “Vamos nessa!” — relembra.

Já em “Os donos do jogo”, Xamã diz ter atuado com mais segurança nas cenas mais íntimas:

— Criamos até um jeito de andar diferente para o Búfalo. Apagava minhas tatuages para interpretá-lo, ele tinha uma barriguinha de chope (risos). Para as cenas de intimidade da série eu já estava mais tranquilo, mais amaciado. Essa parte da nudez também me ajudou a amadurecer como ator. Quem está na tela é o personagem. Pensando dessa forma, passa a ficar mais natural. É muito bonito ver depois um trabalho desse tamanho pronto, enxergar o personagem como parte da história. É uma emoção sinistra!

No momento, o intérprete está totalmente voltado para as emoções de Bagdá, que em breve se envolverá com a venenosa Lucélia (Daphne Bozaski) na novela das nove da TV Globo. Apesar de ser um bandido perigoso, chefe do tráfico da fictícia comunidade da Chacrinha, o personagem caiu nas graças do público nas redes sociais, muito por conta do visual marcado por roupas com estampas animal print e casacos de pele.

— Quando a gente foi testar o figurino do Bagdá, estava me sentindo “Um príncipe em Nova York” (risos) — compara o artista, um cinéfilo que cresceu alugando filmes em locadoras: — A roupa diz muito sobre as pessoas. Acho que o Bagdá é leonino, quer mostrar poder. É um cara muito vaidoso, que gosta de fazer as unhas...

Embora não seja tão exagerado quanto o personagem, o escorpiano Xamã também aprendeu a se cuidar fora das telas.

— Passei por um processo de entender os padrões de beleza, e tem muito racismo envolvido nessa questão. Ouvia que meu nariz não é bonito. Conforme fui fazendo rap, me politizando, fui me achando mais bonito, do nada. Hoje gosto do meu corpo, do meu nariz e do meu cabelo, que nunca esteve tão curto, por causa do Bagdá. Com o tempo, fui ficando vaidoso, curei uma insegurança. Sou bonitão mesmo, e é isso! — assume.

Com a autoestima em dia, será que ele se considera um dos galãs da atualidade na TV?

— Galã? Aí já é demais... (risos). Mas é ótimo ter um indígena na novela das nove, assim como é ótimo poder empoderar o povo preto fazendo rap. E usar meu corpo político para participar de uma revolução na TV — destaca o artista, que foi criado em Sepetiba, na Zona Oeste do Rio.

Sempre em movimento na arte, Xamã também estará na segunda temporada da série “Cangaço novo”, que estreia em abril na plataforma Prime Video. Foi ele quem pediu para fazer um teste antes de conquistar uma vaga na produção. O artista integra, ainda, o elenco do filme “Cinco tipos de medo”, ao lado de Bella Campos, com lançamento previsto para 2026. Pelo trabalho, recebeu o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado do ano passado. Apesar de interpretar papéis diferentes, os homens que viveu até aqui na carreira têm algo em comum: são todos à margem da lei.

— Eu quero muito sair disso, desse estereótipo de bandido. Quero poder fazer outros personagens — almeja.

Mesmo envolvido com as gravações da novela da Globo, Xamã anuncia os shows com seu Bloco do Malvadão no carnaval deste ano, que passará por cinco cidades, incluindo o Rio. Já seu álbum mais recente, “Fragmentado”, lançado no ano passado, mistura hip hop, MPB, rock e outros ritmos brasileiros, reunindo faixas solo e parcerias com nomes como Milton Nascimento, Liniker, Adriana Calcanhotto e Criolo, além de Sophie Charlotte, a intérprete da Gerluce de “Três Graças” e namorada do cantor. A música em que o casal divide os vocais é “Flor de maio”, que conta ainda com a colaboração de $amuka.

— Pude gravar com amigos e pessoas de quem sou fã. Milton Nascimento é meu mestre. Criolo faz poesia. Sou admirador da Adriana Calcanhotto. Tem também a Liniker, a Flora Matos, a Sophie… Ela vai lançar um álbum com o Tom Veloso. A gente troca muito sobre atuação e música. Sempre digo pra ela seguir o instinto, mas Sophie já zerou o game como cantora: participou três vezes do especial de Natal do Roberto Carlos — exalta.

Por conta da agenda de shows, Xamã não passou o réveillon com a atriz, que viajou para a Bahia com parentes e amigos. Discretos, os dois raramente aparecem juntos em público, o que tem alimentado especulações sobre o fim do relacionamento nas redes e em alguns sites. Procurada, a assessoria do artista afirma não ter informações novas sobre o assunto. Mas durante esta entrevista, concedida às vésperas do ano-novo, Xamã não escondia sua admiração pela atriz.

— Sophie é muito parceira. Mesmo quase não contracenando com ela, trocamos muito sobre a novela. A gente se encontra nos bastidores, indo almoçar ou tomando um café. Às vezes, assistimos juntos à novela no Globoplay. Ela é experiente, estudiosa, puxa o bonde da galera. Gerluce é uma protagonista com a cara do Brasil, uma mulher numa correria braba, sempre atrasada. As três protagonistas, aliás, representam as histórias das nossas mães, das nossas avós... — observa ele.

Rapper, Xamã não quer se prender aos rótulos tradicionalmente associados aos artistas do gênero. Nas redes sociais, ele tem postado vídeos de dancinhas ao lado do elenco de “Três Graças”. Já bailou ao som do hit pop “I’m like a bird”, de Nelly Furtado, por exemplo. E conta, orgulhoso, que foi ele quem inventou a coreografia:

— Agora estou chegando no TikTok e gravo os vídeos junto com o elenco da novela. Fui aprendendo com eles como funciona. É muito divertido acompanhar os atores nessa perspectiva, nos bastidores da TV. Sou muito ruim de dança, mas me divirto ao gravar essas trends.

Animado, Xamã admite que não tem feito tantas festas quanto gostaria. Uma das mais recentes foi com a temática brega em seu aniversário, em outubro do ano passado, quando reuniu amigos dos elencos de “Três Graças” e “Os donos do jogo”.

— Nasci nos anos 90, sou pagodeiro. Como ter Belo no elenco e não fazer um pagode nos bastidores? Em casa também rola... Domingo é dia de ouvir Raça Negra, Soweto, Katinguelê. É dia de juntar a família para um churrasquinho — entrega.

Ficha técnica:

Reportagem e texto: Zean Bravo

Fotos: Lucas Nogueira @thenogueira

Light Designer: Felippe Costa @felippescosta

Assistente de fotografia: Carine Felgueiras @carinefel

Assistente de fotografia: Daniel Galdino

Styling: Roberta Campos @camposroberta

Assistente de styling: Will Santos @wll.uil

Assessoria Agência Enne @enne.ag