Alagoas

De GG a Júlio Cezar: o modelo dos “imperadores” chega a Maceió com JHC no comando

Rio Largo, Palmeira e Santana, cidades modelos de prefeitos manietados, se repete agora em Maceió e põe contra a parede a carreira política de Rodrigo Cunha um ex-senador da República

Redação 24/04/2026
De GG a Júlio Cezar: o modelo dos “imperadores” chega a Maceió com JHC no comando

A política alagoana parece ter consolidado um novo padrão de poder nos últimos anos: prefeitos eleitos que governam, e “imperadores” que mandam - muitas vezes de fora do cargo.
O fenômeno, já observado em cidades do interior, agora ganha contornos mais amplos ao chegar à capital. E tem nome, sobrenome e endereço político: João Henrique Caldas, o JHC.
Após renunciar à Prefeitura de Maceió no último dia 2 de abril para disputar o governo do Estado, JHC, segundo avaliação recorrente nos bastidores, não deixou de exercer influência sobre a gestão municipal. Ao contrário: permanece como figura central nas decisões, especialmente nas articulações políticas e administrativas que envolvem o primeiro escalão.
O prefeito em exercício, Rodrigo Cunha, que deixou o Senado para assumir o comando da capital, surge nesse cenário como parte de uma composição previamente desenhada - uma transição que, na prática, não significou ruptura de comando.
A crítica que ecoa nos bastidores e começa a ganhar corpo no debate público é direta: há quem veja na atual gestão um prefeito formal e outro real.

Um modelo que vem do interior


O caso de Maceió não surge isolado. Ele segue um padrão já testado e consolidado em outras cidades de Alagoas.
Em Rio Largo, o ex-prefeito Gilberto Gonçalves conhecido como GG elegeu o sobrinho para sua sucessão com a expectativa de manter o controle político da gestão. O arranjo, no entanto, não resistiu. Em poucos meses, o atual prefeito Carlos Gonçalves rompeu com o tio, justamente por não aceitar interferências diretas na condução administrativa.
Em Palmeira dos Índios, o modelo permanece mais estável. O ex-prefeito Júlio Cezar, conhecido como o “imperador de Palmeira”, elegeu sua tia, Luísa Duarte, e, apesar de rumores recentes de desgaste na relação, ainda é apontado como figura de forte influência na condução política do município.
Já em Santana do Ipanema, a dinâmica é diferente, mas segue a mesma lógica de poder concentrado. A ex-prefeita Christiane Bulhões elegeu o sobrinho, João Eduardo, e o comando político se mantém dentro do núcleo familiar, em um modelo de consenso, onde a influência dos bastidores não é confrontada, mas assimilada.

Da prática interiorana ao centro do poder


O que muda agora é o alcance desse modelo.
Se antes a lógica dos “imperadores” estava restrita ao interior, em cidades onde o controle político se dá de forma mais direta e personalizada, Maceió passa a experimentar essa mesma prática em uma escala muito maior, com mais visibilidade, mais pressão institucional e maior repercussão pública.
A capital, que deveria funcionar como referência de gestão e autonomia administrativa, passa a reproduzir um modelo onde o poder político não necessariamente coincide com o cargo formal.

Autonomia em xeque


Rodrigo Cunha, que construiu sua trajetória como senador da República com discurso de independência e perfil técnico, enfrenta agora o maior teste político de sua carreira: provar que exerce, de fato, o comando da cidade.
Nos bastidores, a leitura de parte da classe política é de que sua margem de decisão é limitada por compromissos assumidos na construção da aliança que o levou à Prefeitura.
A percepção, reforçada por críticas recentes na Câmara Municipal, é de que o atual prefeito atua sob uma estrutura previamente definida, com espaço reduzido para imprimir marca própria na gestão.

O poder que não deixa o cargo


O caso de JHC sintetiza esse novo momento da política alagoana: o poder que não precisa mais estar formalmente no cargo para ser exercido.
Ao contrário do que ocorria em modelos mais tradicionais, em que a saída do titular representava uma ruptura clara, o que se vê agora é a continuidade de influência, mesmo fora da estrutura oficial.
É um poder que se mantém por articulação, por rede política, por controle de espaços estratégicos - e não necessariamente pela caneta.

Entre a estratégia e o risco


Do ponto de vista político, o modelo pode ser visto como estratégia: garante continuidade administrativa, preserva projetos e mantém coeso o grupo político.
Mas também carrega riscos evidentes.
O principal deles é o desgaste. Em um cenário cada vez mais exposto e conectado, a percepção de falta de autonomia pode se transformar em narrativa negativa - especialmente em uma capital como Maceió, onde o escrutínio público é maior.
Outro risco é institucional: a fragilização da autoridade do gestor formal pode comprometer a tomada de decisões, gerar conflitos internos e dificultar a responsabilização política.

A política dos “imperadores”


No fim das contas, o que se desenha em Alagoas é a consolidação de um modelo onde o poder real e o poder formal caminham em trilhas diferentes.
E, nesse novo arranjo, os “imperadores” - aqueles que governam sem estar no cargo - deixam de ser exceção para se tornar regra.
Se no interior essa prática já é conhecida, em Maceió ela ganha uma nova dimensão.
E uma pergunta inevitável começa a ecoar: quem governa, de fato, a capital?