Vida Esportiva

Fifa paga R$ 20 milhões por sala na Trump Tower quase nunca usada, diz jornal

Contrato de mais de sete anos para escritório de quase 5 mil pés quadrados em Nova York foi firmado por cerca de US$ 4 milhões; funcionários questionaram possível conflito de interesses.

Agência O Globo - 14/10/2026
Fifa paga R$ 20 milhões por sala na Trump Tower quase nunca usada, diz jornal
Fifa paga R$ 20 milhões por sala na Trump Tower quase nunca usada, diz jornal - Foto: Reprodução

A Fifa firmou um contrato de mais de sete anos, no valor de cerca de US$ 4 milhões (aproximadamente R$ 20 milhões), para ocupar uma sala de quase 464 metros quadrados na Trump Tower, em Nova York, mas o espaço permanece praticamente vazio. A informação foi revelada pelo jornal The New York Times, que analisou documentos e ouviu dois funcionários envolvidos diretamente no acordo.

A decisão de instalar o escritório no edifício ligado à família de Donald Trump teria sido impulsionada pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino. A entidade inaugurou o espaço no 17º andar cerca de um ano antes da Copa do Mundo de 2026, em uma cerimônia que contou com a participação de Eric Trump, filho do presidente americano. Na ocasião, ele afirmou que a organização da família estava honrada em receber a entidade máxima do futebol.

Segundo funcionários atuais e antigos ouvidos pelo jornal, a Fifa não pretende manter uma equipe completa no local, que é usado principalmente para eventos especiais e reuniões com autoridades e dirigentes do futebol. A utilização aumenta durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada anualmente em Nova York.

A entidade já concentra suas operações nos Estados Unidos em dois escritórios em Miami. Por isso, alguns dirigentes questionaram internamente a necessidade de manter uma segunda estrutura no país, especialmente em um prédio ligado a Trump e em um estado com elevada carga tributária.

Documentos analisados pelo New York Times mostram ainda que a abertura do escritório em Nova York poderia gerar obrigações fiscais adicionais para a Fifa. A organização trabalhou com advogados para estabelecer que nenhuma atividade comercial ou empresarial seria realizada no local, numa tentativa de evitar esses impostos.

A Fifa afirmou que o aluguel está dentro dos valores praticados pelo mercado e que o contrato “cumpre todas as leis locais” e foi assinado de acordo com os "procedimentos internos padrão da entidade”. Sobre a escolha de Nova York, a organização disse que, por ser uma cidade global e a Fifa ser uma entidade global, seria “lógico” manter presença na cidade.

A escolha do endereço, porém, levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse. Miguel Maduro, ex-chefe de governança da Fifa, afirmou que a decisão de alugar um espaço ligado ao presidente americano poderia entrar em conflito com as regras da entidade, considerando os interesses da Fifa na Copa do Mundo nos Estados Unidos e sua aproximação com Trump.

— Esse acordo com a Trump Organization levanta um claro conflito de interesses à luz dos interesses da Fifa na Copa do Mundo nos EUA ou de sua parceria com o Conselho da Paz do presidente Trump — afirmou Maduro ao jornal.

A relação entre Infantino e Trump se estreitou nos últimos anos. O presidente da Fifa criou, inclusive, um prêmio da paz especial em homenagem ao presidente americano. Durante a Copa do Mundo, a suspensão do atacante Folarin Balogun, da seleção dos Estados Unidos, foi retirada após uma conversa entre Trump e Infantino, o que provocou acusações de favorecimento e interferência política.

Desde o fim do torneio, Infantino também passou a ser alvo de críticas por outras iniciativas envolvendo interesses ligados ao círculo de Trump. Entre elas está uma tentativa de negociação secreta para vender parte de futuras competições da Fifa a um fundo privado administrado pelo irmão do genro de Trump, Jared Kushner. A movimentação provocou ameaças de medidas legais por parte da Uefa.

Para Alex Phillips, ex-integrante da Fifa e de outras entidades do futebol, a decisão de manter o escritório na Trump Tower representa uma aproximação excessiva com o presidente americano.

— Um nível completamente desnecessário de bajulação — afirmou Phillips.