Vida Esportiva

Com boicote e protestos, jogo entre Israel e Irlanda vira questão de Estado

Seleções se enfrentam pela Liga das Nações B em meio a protestos dos irlandeses por conflito em Gaza

Agência O Globo - 27/09/2026
Com boicote e protestos, jogo entre Israel e Irlanda vira questão de Estado
Com boicote e protestos, jogo entre Israel e Irlanda vira questão de Estado - Foto: Reprodução / Instagram

Na primeira Data Fifa pós-Copa do Mundo, que pouco parece atrair a atenção dos torcedores para o futebol de seleções, ao menos parte dos olhos do mundo estará voltada para um jogo da Liga das Nações B, disputado hoje na Hungria. Com boicote, protestos, acusações e polêmicas, Israel e Irlanda se enfrentam pela segunda rodada do Grupo 3, às 15h45 (de Brasília), num confronto que virou até questão de Estado.

Desde fevereiro, quando os grupos da Liga das Nações foram sorteados pela Uefa, os jogos entre as duas seleções levantam polêmica por questões extracampo. Com histórico de apoio à Palestina, a Irlanda convive desde então com pedidos de boicote e protestos nas ruas e em partidas da seleção em Dublin. Pesquisa divulgada pelo site The Journal, em junho, mostrou que 56% da população apoiava o boicote. Entre os que se identificam como “torcedores de futebol”, o índice chega a 75,6%, segundo levantamento feito em fevereiro pela Associação de Torcedores de Futebol da Irlanda (IFSP).

— A conexão com a Palestina vem de um sentimento de experiência compartilhada da luta contra o colonialismo. A Irlanda foi a primeira colônia do Reino Unido, sabemos o que é sofrer uma colonização, o que os palestinos vivenciam há 75 anos e que foi intensificado nos últimos três anos. Existem muitos grupos prol da Palestina, desde a década de 1980, quando foi fundada a Campanha de Solidariedade Irlanda-Palestina — disse ao GLOBO o Dr. Brendan Ciarán Browne, professor associado em resolução de conflitos na Trinity College, em Dublin.

Protesto em campo

O movimento não se limita aos torcedores. Pesquisa da Associação de Jogadores Profissionais da Irlanda apontou que 63% dos atletas eram contra a realização das partidas. Clubes da primeira divisão e mais de 160 esportistas também assinaram uma carta do grupo “Esporte Irlandês pela Palestina” em apoio ao boicote.

Até ontem, a realização dos dois jogos era uma incógnita. A Federação Irlandesa de Futebol confirmou que entraria em campo, por receio de punições da Uefa, mas transferiu o segundo compromisso, em 4 de outubro, de Dublin para Backa Topola, no interior da Sérvia, e com portões fechados. A decisão foi tomada por medo de que protestos na capital interrompessem ou até cancelassem a partida. Os dois jogos, na Hungria e na Sérvia, terão segurança reforçada.

Os jogadores irlandeses ainda não haviam batido o martelo. Reuniões internas chegaram a atrasar o treino e a coletiva de ontem, mas a maioria decidiu entrar em campo. O goleiro reserva Gavin Bazunu, porém, fará boicote e não será relacionado para as duas partidas. Em comunicado, explicou:

— Sou um homem de fé forte e busco dar o meu melhor para ser uma pessoa de caráter e princípios, portanto, sinto que seria errado participar das próximas partidas contra Israel. Minha decisão é baseada puramente na minha crença pessoal de que a matança de pessoas inocentes é errada. É importante ressaltar que minha postura não é em oposição ao povo israelense ou à comunidade judaica, mas sim contra as atrocidades na região — disse.

O meia Jason Knight também disse publicamente que os jogos não deveriam acontecer, mas será relacionado. Ainda assim, haverá protestos: os irlandeses devem usar braçadeiras pretas, não cumprimentar os israelenses nem conceder entrevistas.

O protesto dos irlandeses se dá principalmente pela ofensiva israelense em Gaza, iniciada após o ataque liderado pelo Hamas, em outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas e fez 250 reféns. Desde então, mais de 73 mil palestinos morreram na Faixa de Gaza, segundo dados do Ministério da Saúde local. A Irlanda, que reconhece a Palestina como Estado, interveio no processo movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça, que discute a aplicação da Convenção do Genocídio.

Técnico aumenta crise entre países

A tensão escalou na última semana após outra acusação contra Israel. Ao defender a realização dos jogos, o técnico da Irlanda, Heimir Hallgrímsson, afirmou que “não iríamos jogar com o genocídio, e sim contra o genocídio”. A Associação de Futebol de Israel chamou a fala de “ignorante, hipócrita e estúpida”, elevando a questão a outro patamar. O primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin, saiu em defesa de Hallgrímsson e disse que a nota dos israelenses era “inaceitável”.

Ontem, porém, o técnico diminuiu o tom. Disse que usou uma “palavra errada”, mas reforçou que não “aceita o que está acontecendo em Gaza”. Em nota, após os irlandeses confirmarem que jogariam, a Associação de Israel afirmou que “o futebol venceu” e que “a separação entre futebol e política deve ser mantida”. Em campo, após derrotas na estreia, as duas seleções buscam a primeira vitória na Liga das Nações.