Vida Esportiva
Com decoração temática e homenagem a policiais mortos em operação, Jungle Fight faz evento inédito na sede do Bope
Com obras de cápsulas de bala e convidados ilustres, prédio do batalhão, na Tavares Bastos, no Catete, recebeu no fim de semana 11 lutas em comemoração aos 48 anos da unidade
O fim de semana foi especial em dose dupla para Eduardo Alves Rodrigues, de 34 anos. Policial militar lotado no 5º Batalhão do Rio, ele também é lutador e, na noite de sábado, foi um dos competidores do Jungle Fight 144, o primeiro realizado na sede do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), na comunidade de Tavares Bastos, Zona Sul do Rio. Ao vencer Yuri Machado com um mata-leão no primeiro assalto, o único policial no card recebeu uma ovação dos “caveiras”, que estavam sendo homenageados pelos 48 anos da força especial, completados hoje.
— A preparação foi rápida, eu soube já em cima do evento. Não estava mais treinando para MMA, apenas competia jiu-jitsu e luta livre, mas, quando surgiu a oportunidade aqui dentro (da sede do Bope), não pensei duas vezes — disse o lutador ao GLOBO. E continuou: — O clima foi intenso do começo ao fim, com todos envolvidos no espírito da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Para entrar no octógono, os lutadores passavam por um corredor formado pelos oficiais. O último a atravessá-lo foi o grande destaque do evento, o paulista João Dantas, que conquistou o cinturão dos pesos-médios (84kg) ao vencer o paraense Rodolfo dos Santos com uma chave de braço no segundo assalto. O lutador havia tentado uma carreira em organizações internacionais, mas teve poucas oportunidades e precisou retornar ao Brasil, mas fez em grande estilo, retomando o título.
— O meu adversário hoje foi muito forte na trocação, mas esperei uma brecha para conseguir uma queda e dei bastante pressão no chão. Ele "deu" um braço e consegui levar — diz o campeão, que também ressaltou ter ganhado uma energia a mais com a entrada: — Você sente a energia dos guerreiros e já fica com vontade de lutar. Estava há mais de um ano sem competir, mas voltei já com uma emoção dessa, em uma edição especial, com casa cheia, e ainda mantive a calma. Muito feliz.
Ao todo, foram 11 lutas, com sete finalizações e um nocaute técnico.
Narcisa Tamborindeguy marca presença entre convidados ilustres
Inédito, o evento foi restrito a convidados — além dos oficiais de segurança, familiares, membros da mídia e alguns nomes ilustres, como Narcisa Tamborindeguy —, que puderam ver o pôr do sol na Baía de Guanabara e os entornos de Laranjeiras e Catete, no topo do morro de uma das poucas comunidades da cidade que não é dominada pelo poder paralelo.
A imagem de cartão-postal se contrastava com o impacto visual de dentro da sede, decorada por desenhos de caveiras, símbolo do Bope, além de diversas obras feitas com cápsulas de balas, de quadros às placas das ring girls.
Decoração temática
Com autoria do artista plástico Rodrigo Camacho, diversas obras feitas de cápsulas de bala estiveram expostas para o público presente. Já na entrada, uma imagem que deu o tom das homenagens foi um quadro com a imagem dos quatro policiais assassinados na megaoperação ocorrida nos Complexos do Alemão e da Penha — Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho e Rodrigo Velloso Cabral, da Polícia Civil; Cleiton Serafim Gonçalves e Heber Carvalho da Fonseca, do Bope.
O artesão iniciou sua carreira justamente presenteando o Bope com o símbolo da unidade de elite militar. Além do quadro dos policiais, ele foi responsável por uma imagem da vira-lata Pretinha, cadela que morava na sede, mas que morreu um dia antes do torneio de artes marciais por conta de uma picada de animal peçonhento.
— A ideia do meu trabalho é trazer uma nomenclatura diferente do material, para a gente dar vida a elementos principais com objetos. Foi uma grande honra fazer estas obras e a modificação no cinturão também, na placa das ring girls, para ter a ver com o tema. Minha primeira arte foi há oito anos, fazendo a caveira. Hoje, expandi meu trabalho não só para outros estados, mas também para outros países, como com a Swat (unidade de elite dos Estados Unidos), em Dubai e no México — disse o artesão, que também criou um púlpito acompanhado de cápsulas, faca e uma granada inativada para as sessões de treino dos oficiais, mas que, durante a noite de sábado, foi usado como ponto de partida para os lutadores caminharem até o cage.
Entre os diferentes nomes presentes na noite, chamou a atenção a influenciadora digital Narcisa Tamborindeguy, que, nas primeiras fileiras, se impressionou “com a energia do local”.
— Eu amo o Bope, por isso vim aqui hoje. Uma loucura que não tem cura — disse.
Mesmo terceira-sargento da Aeronáutica, Gabi Pessanha foi convidada para representar o jiu-jitsu, esporte usado no projeto social do Bope com a comunidade local e muito praticado por diversos dos oficiais. A militar é a lutadora mais vitoriosa da história da luta de quimono, com 10 títulos mundiais, e está a apenas três de superar Marcus “Buchecha” Almeida, o maior vencedor entre homens e mulheres, mas que deixou a modalidade rumo ao MMA.
— Esta é a minha primeira vez que assisto a um evento de MMA desde a minha infância. Naquela época, a gente conseguiu ingresso por um projeto social do qual eu fazia parte. Mais de dez anos depois, eu sou convidada pelo próprio Bope para estar aqui. É grandioso. Eu achava impossível uma mulher negra da Maré rodar o mundo e ser conhecida pela luta, mas agora estou aqui. É por isso que o esporte é tão importante para os jovens. Com o evento de hoje, até brinquei com uns amigos dizendo que isso me deu o interesse de migrar para o MMA no futuro — diz a lutadora.
A maior parte dos lutadores neste evento, assim como Pessanha, iniciou o contato com os esportes de combate em projetos sociais. O pensamento da atleta é seguido pelo policial militar Wallace Leão, do 22º Batalhão do Rio. Ele lidera o projeto “Geração Maré” e, com apoio da LBV (Legião da Boa Vontade), apoia crianças desamparadas na região usando o jiu-jitsu também como forma de ensinar.
Rafael Diego, de 31 anos, e Wagner Henrique, de 34 anos, nascidos e criados no Tavares Bastos, são dois nomes que iniciaram como faixas brancas neste projeto e hoje são professores de jiu-jitsu, faixas pretas, que também estiveram entre os convidados para prestigiar o evento. Enquanto Rafael compete internacionalmente e vive apenas do esporte, Wagner também divide o tempo com seu comércio local.
— Como morador, acredito que este evento ajuda a movimentar muito positivamente a comunidade; os jovens buscam conhecer mais e querer passar mais tempo aqui do que em outra coisa — diz Henrique.
Assim como os resultados da maioria das lutas, o evento foi planejado rapidamente, a partir de uma ideia inusitada durante um encontro do presidente do Jungle, Wallid Ismail, com o comandante do Bope, Marcelo Corbage.
— O Wallid veio conhecer um projeto social nosso, o Bopinho, que atende crianças da comunidade, há pouco mais de um mês. Quando ele começou a andar pelo batalhão, veio a ideia de realizar o evento aqui, e ele topou na hora. Levamos ao coronel Marcelo de Menezes Nogueira, secretário de Polícia Militar do Estado, que também gostou da ideia — disse o comandante.
Ismail ressaltou que o evento, para além do espetáculo, também teve como intuito ajudar neste trabalho de prevenção.
— Quisemos incluir jovens de comunidades, de projetos sociais, que fazem o esporte MMA. O que as pessoas precisam é de oportunidade de trabalho, e o que eu puder fazer, eu vou fazer.
Já Menezes ressaltou que planejam novos eventos, mas em outros locais.
— Vamos fazer mais uma edição, mas talvez em outra localidade. Sugeri o Batalhão de Choque, que também é muito emblemático; assim, a gente cria um holofote para o serviço da Polícia Militar e em outras unidades especializadas. Estamos discutindo de maneira embrionária — disse Menezes. E continuou: — Foi um momento de união, de mostrar a força da Polícia Militar.
Confira o resultado de todas as lutas
João Dantas venceu Rodolfo dos Santos por finalização aos 4min46s do segundo assalto;
Francisco Tratorzinho x Branco de Anajás terminou sem resultado após falta técnica não intencional aos 4min28s do primeiro assalto;
Albert Vieira venceu Lucas Eduardo dos Santos por nocaute técnico aos 2min27s do segundo assalto;
Lucas Rodrigues venceu Igor Zanuncio por finalização aos 2min58s do primeiro assalto;
Anderson Leal venceu Antonio Ceará de Aço por decisão unânime (30-27, 30-27 e 30-26);
Eduardo Alves Rodrigues venceu Yuri Machado por finalização aos 3min24s do primeiro assalto;
Maria Fernandes venceu Cecília Pereira por decisão dividida (29-28, 27-30 e 29-28);
Regiane Tatalia venceu Beatris Guimarães por finalização aos 3min16s do primeiro assalto;
Bruce Lee Almeida venceu Danilo Ferreira Lima por finalização aos 4min44s do primeiro assalto;
Mateus Adesanya venceu Renzo Barreto por finalização aos 3min48s do primeiro assalto;
Harife Oliveira venceu Eliseu Andrade por finalização aos 4min32s do primeiro assalto.
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