Vida e Saúde

Excesso de gordura pode enfraquecer conexões cerebrais responsáveis pela memória

Estudo revela mecanismo que liga dieta rica em gordura a prejuízos cognitivos

Agência O Globo - 22/10/2026
Excesso de gordura pode enfraquecer conexões cerebrais responsáveis pela memória
Excesso de gordura pode enfraquecer conexões cerebrais responsáveis pela memória - Foto: Depositphotos

Um estudo realizado com camundongos, publicado na revista Molecular Psychiatry, sugere que apenas uma semana de uma dieta rica em gordura pode prejudicar a memória ao desregular o processamento do RNA nos neurônios.

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A pesquisa revelou que essa dieta reduz a proteína PQBP1, resultando na produção de versões defeituosas de proteínas essenciais para a comunicação entre os neurônios que garantem a memória.

Os cientistas conseguiram associar a má alimentação dos camundongos, submetidos a uma dieta rica em gorduras, à perda de conexões entre as células cerebrais, que demonstraram dificuldades em testes de memória.

Como o estudo foi realizado

Para investigar melhor o impacto da dieta altamente calórica e rica em gorduras no cérebro, os pesquisadores da Universidade de Tóquio dividiram trinta e dois camundongos em três grupos, sendo um deles o de controle, que manteve a alimentação habitual.

Os outros dois grupos foram alimentados com uma dieta rica em gorduras: um grupo por uma semana e o outro por seis semanas.

Ao completarem 12 semanas de vida, os camundongos que consumiram mais gordura já apresentavam ganho de peso, níveis elevados de açúcar no sangue e insulina alta.

Além disso, análises de proteínas e imagens do córtex cerebral mostraram uma queda na proteína PQBP1 dentro dos neurônios nos grupos que seguiram a dieta por uma e seis semanas. O mesmo experimento realizado em camundongos fêmeas corroborou esses resultados.

A observação em tempo real revelou que as pequenas protuberâncias, responsáveis pelas conexões neuronais, desapareceram mais rapidamente nos camundongos alimentados com a dieta rica em gordura, resultando em um número reduzido de conexões.

A diminuição da proteína PQBP1 interferiu no mecanismo de “corte e costura” do RNA, que é ligado às sinapses. O resultado foi uma falha na liberação das vesículas neurotransmissoras e, consequentemente, problemas de memória e cognição.

Remédio para diabetes reverteu quadro

Buscando reverter a perda da proteína para níveis normais, os pesquisadores utilizaram o medicamento pioglitazona, comercializado como Actos ou Glustin, um antidiabético indicado para o tratamento do diabetes tipo 2.

Os camundongos submeteram-se a um tratamento de três ou seis semanas e apresentaram melhor desempenho em testes de memória espacial de longo prazo (labirinto aquático), memória espacial de curto prazo (labirinto de três braços) e memória baseada no medo. Além disso, seu tecido cerebral mostrou indícios de restauração das conexões neuronais.

Os resultados foram semelhantes quando os cientistas introduziram a própria PQBP1 na superfície cerebral com auxílio de um vírus modificado em uma terapia gênica, o que resultou em melhoras na memória e cognição, corroboradas por registros elétricos do cérebro.

Embora a pesquisa tenha identificado um mecanismo que relaciona a dieta rica em gordura a alterações nas conexões neuronais, ela foi realizada exclusivamente em camundongos sob condições controladas de laboratório e não demonstra que o consumo ocasional de um cheeseburger prejudique a memória humana, nem se os mesmos efeitos são observados em pessoas.

Esse achado auxilia no entendimento de como o metabolismo pode afetar o cérebro e poderá orientar futuras pesquisas, mas não deve ser interpretado como uma recomendação para mudar a alimentação ou utilizar medicamentos sem supervisão médica; para isso, são necessários estudos clínicos com humanos.