Vida e Saúde

Cárie silenciosa: entenda o que é e os cuidados necessários

Especialistas explicam como lesões de cárie podem evoluir sem sintomas aparentes e reforçam a importância do diagnóstico precoce

Agência O Globo - 21/10/2026
Cárie silenciosa: entenda o que é e os cuidados necessários
Cárie silenciosa: entenda o que é e os cuidados necessários - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil) indicam que adultos no Brasil têm, em média, 10,7 dentes acometidos por cárie. Apesar de frequentemente associada à dor, a doença pode evoluir por algum tempo sem apresentar sintomas evidentes.

O presidente da Câmara Técnica de Endodontia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Miguel Haddad, explica que a chamada cárie silenciosa se refere justamente a lesões que podem progredir sem provocar dor ou outros sinais perceptíveis pelo paciente.

A cárie é uma doença multifatorial relacionada, entre outros fatores, à ação de bactérias presentes no biofilme dental, que produzem ácidos capazes de desmineralizar os tecidos dentários.

“A região interproximal [área de contato entre dois dentes] tem uma pequena espessura de esmalte devido à anatomia. Por isso, a bactéria consegue atingir a dentina de maneira mais rápida, causando uma lesão de cárie que chamamos de oculta. Um fator determinante para isso é que muitos pacientes negligenciam o uso do fio dental”, afirma Haddad.

Como funciona a prevenção

Cristiane Casamassa, mestre e doutora em Clínica Odontológica Integrada na área de Dentística, orienta que a prevenção deve atuar principalmente sobre os fatores que favorecem o desenvolvimento da doença, como o acúmulo de biofilme dental.

Entre os principais cuidados estão:

  • Escovação adequada com pasta de dente fluoretada, especialmente após as refeições;
  • Uso diário de fio dental ou de outro método de limpeza interdental;
  • Manutenção de uma alimentação equilibrada, com menor consumo de carboidratos fermentáveis;
  • Acompanhamento odontológico periódico, cuja frequência deve ser definida individualmente conforme o risco de cárie de cada paciente.

“O cirurgião-dentista irá avaliar o risco de cárie, identificar a lesão precocemente e controlar os fatores que fazem essa lesão progredir”, comenta a profissional.

Sinais iniciais da cárie silenciosa

Segundo Haddad, identificar a cárie silenciosa é um dos principais desafios, justamente porque muitas vezes o paciente não percebe qualquer alteração. Por isso, a recomendação é procurar o cirurgião-dentista regularmente.

Quando existem sinais, eles podem ser discretos, como a sensibilidade ao frio ou ao doce, retenção frequente de alimentos entre determinados dentes, rompimento ou desfiamento do fio dental ao passar pela região interproximal, alterações de cor – com o aparecimento de manchas brancas, amarronzadas ou escuras – mudanças na textura do dente, além de pequenas fraturas dentárias ou em restaurações antigas.

O profissional ressalta, no entanto, que esses sinais não estão presentes em todos os casos. Por isso, a avaliação clínica e, quando indicada, radiográfica é fundamental para o diagnóstico.

O papel do cirurgião-dentista na prevenção e nos cuidados

Para Casamassa, o papel do cirurgião-dentista é fundamental, porque o diagnóstico não deve depender apenas da presença de dor.

Durante o exame clínico, o profissional avalia os dentes limpos, secos e iluminados, identificando alterações de cor e textura e a presença de cavitação. Os recursos complementares, principalmente as radiografias, são utilizados para investigar regiões que não podem ser avaliadas clinicamente.

“Além disso, tecnologias auxiliares, como transiluminação e métodos de fluorescência, podem contribuir em situações específicas”, explica.

Como é o tratamento da condição?

Segundo a especialista, o tratamento é individualizado e depende de fatores como tamanho e localização da lesão, além do risco de cárie do paciente. Quando a alteração é inicial e restrita ao esmalte dental, é possível controlar ou até interromper sua progressão com medidas não invasivas ou minimamente invasivas.

Entre as possibilidades de tratamento está a fluorterapia, uma alternativa acessível que pode ser realizada no consultório, por meio da aplicação tópica de flúor, ou em casa, conforme orientação profissional, com produtos contendo fluoretos.

Casamassa destaca ainda a possibilidade de utilização de infiltrantes resinosos em situações específicas, embora a técnica tenha custo mais elevado. Quando existe cavitação ou comprometimento que não pode ser controlado apenas com medidas preventivas, a restauração pode ser necessária.

Nesses casos, a abordagem atual busca ser minimamente invasiva, com remoção seletiva do tecido cariado quando indicada e preservação da maior quantidade possível de estrutura dental sadia.

“O melhor caminho é sempre o diagnóstico precoce. Quanto mais cedo identificamos a lesão, maior é a possibilidade de controlar a doença com uma abordagem conservadora e evitar a perda desnecessária de estruturas dentárias”, afirma a cirurgiã-dentista.

Haddad reforça que a ausência de dor não significa ausência de doença: uma lesão pode permanecer no esmalte ou avançar para a dentina sem atingir estruturas responsáveis pela sensibilidade dolorosa.

Por isso, especialmente quando localizada entre os dentes ou em áreas de difícil visualização, a cárie pode passar despercebida pelo paciente e ser identificada apenas durante a avaliação odontológica.