Vida e Saúde

HIV: pacientes brasileiros começam a participar de estudo com tratamento que mantém a doença sob controle com 1 dose a cada 4 meses

Trata-se da combinação de dois antirretrovirais injetáveis, o cabotegravir e a rilpivirina, aplicada a cada quatro meses para manter o vírus sob controle em pessoas que já vivem com a doença.

Agência O Globo - 15/10/2026
HIV: pacientes brasileiros começam a participar de estudo com tratamento que mantém a doença sob controle com 1 dose a cada 4 meses
HIV: pacientes brasileiros começam a participar de estudo com tratamento que mantém a doença sob controle com 1 dose a cada 4 meses - Foto: Ascom SMS

Uma nova estratégia de longa duração para o tratamento do HIV está em estudo e pacientes brasileiros já começaram a receber o tratamento. Trata-se da combinação de dois antirretrovirais injetáveis, cabotegravir e rilpivirina, aplicada a cada quatro meses para manter o vírus sob controle em pessoas que já vivem com a doença.

Em países como Canadá, membros da União Europeia, Austrália e Estados Unidos, a combinação de cabotegravir e rilpivirina já está aprovada para o tratamento do HIV, mas para aplicação a cada dois meses. No Brasil, o tratamento ainda não está disponível.

O novo estudo busca avaliar a eficácia e segurança da estratégia ainda mais estendida, com apenas uma aplicação a cada quatro meses. Para isso, ela será comparada com a estratégia já existente, de aplicação bimestral.

A terapia antirretroviral controla a replicação do HIV, reduz a quantidade de vírus no organismo e permite que pessoas vivendo com a doença tenham uma vida saudável. Quando a terapia é seguida corretamente e mantém a carga viral indetectável, a pessoa não transmite o HIV por via sexual, mas o controle do vírus depende do uso contínuo dos medicamentos.

De acordo com o médico infectologista José Valdez Ramalho Madruga, pesquisador do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids de São Paulo, um dos centros à frente do estudo, a grande novidade do momento são esses medicamentos de ação prolongada.

Pode parecer pouco, mas tomar a medicação a cada quatro meses em vez de dois, por exemplo, faz grande diferença na vida e na rotina do paciente. Com a aplicação bimestral, ele tem que ir ao serviço de saúde seis vezes ao ano. Na quadrimestral, isso cai pela metade.

Além disso, a versão injetável pode ser indicada para pessoas que têm tolerância gástrica e náuseas quando tomam comprimidos, e ainda por fatores sociais e psicológicos.

— Às vezes, a pessoa não quer revelar o diagnóstico da infecção — diz Madruga. — O estigma hoje ainda é uma coisa muito importante para as pessoas vivendo com HIV/AIDS. Então, é bom ter a alternativa injetável porque a pessoa não precisa se dar ao trabalho, não tem necessidade de armazenar comprimidos em casa nem de levar comprimidos quando vai viajar.

De acordo com o especialista, os injetáveis de longa duração também seriam interessantes para as pessoas que vivem na rua e pessoas privadas de liberdade, por exemplo.

O estudo clínico global, liderado pela farmacêutica GSK, prevê a inclusão de cerca de 564 participantes, em centros do Brasil, Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá, Japão, México, Espanha e Reino Unido. A conclusão está prevista para setembro de 2029.

Os participantes brasileiros estão espalhados em seis centros de pesquisa, sendo dois em São Paulo, um no Rio de Janeiro, um em Salvador e um em Curitiba. No total, 65 pessoas já foram incluídas no Brasil e outras cinco estão em triagem. A aplicação da medicação já teve início.

No SUS, o tratamento oferecido atualmente é baseado principalmente em antirretrovirais de uso oral diário.