Vida e Saúde
Calor pode comprometer medicamentos; veja cuidados e onde não os guardar
Farmacêutica explica como altas temperaturas interferem na conservação e o que fazer em caso de exposição excessiva
Com as temperaturas elevadas, aumenta a atenção com a hidratação, alimentação e exposição ao sol, mas um ponto pode passar despercebido: a forma de armazenar os medicamentos. Deixá-los no carro, próximos a uma janela ou mesmo na geladeira sem necessidade são hábitos que podem comprometer sua qualidade.
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a faixa de 15 °C a 30 °C é considerada a temperatura ambiente ideal para a conservação desses produtos. Isso não significa, porém, que um remédio “estrague” assim que o termômetro ultrapassa os 30 °C. O risco depende de suas características, do calor atingido, do tempo de exposição e das especificações estabelecidas pelo fabricante.
“Cada medicamento passa por estudos que determinam as condições em que mantém sua estabilidade. Por isso, não podemos estabelecer uma temperatura única a partir da qual todo remédio perde o efeito. O mais importante é respeitar as orientações da embalagem e da bula e redobrar a atenção em períodos de calor intenso”, explica Dafne Estevão, farmacêutica do Grupo Farmais.
Produtos que precisam de refrigeração, como determinadas insulinas e alguns injetáveis, demandam cuidado ainda maior. No entanto, comprimidos, cápsulas e xaropes mantidos em temperatura ambiente também devem ficar protegidos do calor excessivo, da umidade e, quando indicado, da luz.
Para evitar erros comuns, confira os cuidados para armazenar os remédios corretamente nos dias mais quentes.
1. Não deixe medicamentos dentro do carro
O porta-luvas pode parecer um lugar prático para manter analgésicos e outros itens de uso eventual. Da mesma forma, quem precisa tomar remédios ao longo do dia pode acabar deixando uma bolsa ou mochila com eles dentro do veículo.
O problema é que o interior de um veículo fechado e exposto ao sol pode atingir temperaturas muito superiores às do ambiente externo, ultrapassando a faixa recomendada para muitos medicamentos. “Mesmo dentro da bolsa ou do porta-luvas, o medicamento continua submetido ao aquecimento do veículo. Por isso, o carro não deve ser usado como local permanente de armazenamento”, alerta Dafne Estevão.
2. Banheiro e cozinha também devem ser evitados
O tradicional “armário de remédios” no banheiro não é uma boa ideia. Além do calor, a umidade pode afetar a conservação dos produtos. O ambiente sofre variações frequentes provocadas pelo banho, enquanto, na cozinha, fogão, forno e outros equipamentos produzem calor e vapor. A melhor alternativa é um armário seco, protegido da luz direta e afastado de fontes de calor, sempre fora do alcance de crianças e animais.
3. Não deixe a “farmacinha” perto da janela
Uma caixa de remédios sobre um móvel próximo à janela também pode ficar exposta a condições inadequadas. Além do aquecimento, determinados produtos precisam ser protegidos da luz, portanto, a incidência direta do sol deve ser evitada.
Além disso, é importante preservar a embalagem original, que pode exercer papel relevante na proteção contra fatores externos.
4. Nem todo medicamento deve ir para a geladeira
Nos dias mais quentes, colocar os remédios na geladeira pode parecer uma solução. Contudo, temperaturas mais baixas não significam, necessariamente, melhor conservação. A Anvisa orienta que produtos indicados para permanecer em temperatura ambiente não sejam refrigerados sem recomendação na embalagem ou na bula.
“Esse é um erro comum. Ao perceber que a casa está quente, a pessoa decide colocar todos os medicamentos na geladeira para protegê-los. Só que cada produto tem requisitos específicos. A refrigeração só deve ser adotada quando houver essa orientação”, esclarece a farmacêutica.
5. Medicamentos refrigerados exigem atenção redobrada
Da mesma forma que não se deve refrigerar qualquer remédio, medicamentos que exigem refrigeração precisam seguir rigorosamente as orientações de conservação. Algumas insulinas, medicamentos biológicos e outros injetáveis possuem faixas específicas. Em certos casos, as recomendações também mudam após a abertura ou início do uso do produto.
Durante viagens e deslocamentos, não basta colocar o medicamento em contato direto com gelo. O transporte deve respeitar as instruções do fabricante.
6. Não retire o medicamento da embalagem original sem necessidade
Organizar comprimidos em potes pode facilitar a rotina, mas a embalagem original não serve apenas para identificar o produto. Dependendo do remédio, ela ajuda a protegê-lo da umidade, da luz e de outros fatores ambientais. Ao descartá-la, o consumidor também perde acesso fácil a informações importantes, como lote, validade e instruções de armazenamento.
O Ministério da Saúde recomenda manter os medicamentos nas embalagens originais. Quem precisa organizar doses, especialmente quando utiliza vários produtos, pode pedir orientação ao farmacêutico sobre a maneira mais adequada de fazer isso.
Mudança de cor, cheiro ou textura é sinal de alerta
Comprimido esfarelando, cápsula deformada, líquido com aparência diferente ou alteração no cheiro são sinais que merecem atenção. “Qualquer mudança perceptível em relação ao aspecto habitual é motivo para buscar orientação antes do uso. Mas há outro ponto importante: o medicamento pode ter sido submetido a condições inadequadas mesmo sem apresentar alterações visíveis”, explica a especialista. Portanto, a aparência, sozinha, não é suficiente para garantir que o produto manteve sua estabilidade após uma exposição significativa ao calor.
Esqueceu o medicamento no calor? Não tente adivinhar se ainda pode usá-lo
Imagine perceber, ao final do dia, que uma caixa de remédios ficou durante horas dentro de um carro estacionado. É preciso descartar tudo? Não necessariamente, mas também não é indicado continuar o uso sem antes verificar a situação.
O primeiro passo é consultar a embalagem ou a bula para conferir a forma correta de armazenamento. Também é importante considerar quanto tempo o produto ficou exposto e em que circunstâncias.
“Não existe uma resposta única. Cinco minutos fora da temperatura recomendada representam uma situação muito diferente de várias horas dentro de um carro sob o sol. Em caso de dúvida, o farmacêutico pode ajudar a avaliar o caso e, dependendo do medicamento, também pode ser necessário consultar o fabricante”, orienta Dafne Estevão.
Por Valeska Quintela
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