Vida e Saúde
O que tem na injeção letal que foi aplicada duas vezes em americana que sobreviveu e como age a substância
Pentobarbital é um barbitúrico que reduz a atividade do sistema nervoso central e pode provocar depressão respiratória; substância foi usada duas vezes na tentativa de executar Christa Pike.
O pentobarbital, medicamento da classe dos barbitúricos, foi a substância usada na tentativa de executar Christa Pike, de 50 anos, no Tennessee, nos Estados Unidos. Mesmo após receber duas aplicações da droga nesta quarta-feira (30), a condenada continuou respirando e precisou ser levada a um hospital. O episódio levou o governador do estado, Bill Lee, a suspender outra execução prevista para este ano e determinar uma revisão do procedimento.
Veja como a droga funciona:
Como o pentobarbital age no organismo?
O pentobarbital atua no sistema nervoso central e reduz de forma intensa a atividade cerebral. O efeito varia conforme a quantidade administrada: em contextos médicos, a substância pode produzir sedação, enquanto uma depressão mais profunda do sistema nervoso pode comprometer funções automáticas do organismo, como a respiração.
O neurologista José Bauab comparou o efeito da droga ao estado provocado durante uma anestesia cirúrgica, mas destacou que, nesse caso, o paciente conta com suporte para manter a respiração.
— A droga coloca o corpo como no estado de anestesia para a cirurgia, mas nesse contexto, a pessoa tem o suporte ventilatório para respirar por ela. Sem isso, o corpo acaba entrando em choque e não suporta — explicou ao g1.
A respiração depende de comandos automáticos enviados pelo cérebro. Quando essas áreas são intensamente deprimidas, o organismo pode deixar de ventilar adequadamente. A redução da oxigenação afeta órgãos vitais, como cérebro e coração, e pode levar a consequências graves.
O que são os barbitúricos?
Os barbitúricos são uma classe de medicamentos desenvolvida no fim do século 19 e que já teve diferentes aplicações na medicina. Essas substâncias foram utilizadas, entre outras situações, para sedação, anestesia, controle de convulsões e indução do sono.
Com o passar do tempo, porém, os barbitúricos perderam espaço para outros medicamentos devido aos riscos associados ao uso, entre eles dependência, intoxicação grave e depressão respiratória.
O pentobarbital tem ação sedativa de curta duração e, quando seu efeito é muito intenso, pode comprometer o funcionamento normal do sistema nervoso central.
Por que a execução de Christa Pike falhou?
Pike deveria receber a injeção letal às 20h, no horário local, na Instituição de Segurança Máxima Riverbend. Jornalistas que acompanhavam o procedimento relataram que ela cantava e se movimentava em alguns momentos.
Segundo sete repórteres que testemunharam a execução, Pike reclamou de dor no braço após a primeira aplicação e continuou respirando e roncando antes de os funcionários penitenciários retirarem os jornalistas da sala.
Uma ambulância com as luzes acesas foi vista deixando o local. Mais tarde, a equipe de defesa informou que Pike estava sendo atendida em um hospital próximo.
— Esta noite, o estado do Tennessee mais uma vez falhou em realizar uma execução legal. Christa está sendo atendida em um hospital próximo. Não fomos informados sobre sua condição — afirmou a defesa.
Até então, as autoridades penitenciárias não haviam apresentado uma explicação oficial para a falha.
Os advogados de Pike, por sua vez, afirmaram que o episódio reforçou preocupações já apresentadas à Justiça sobre o protocolo do Tennessee. Entre os problemas citados estavam dificuldades de acesso às veias, rompimento de veias e questões relacionadas ao uso do pentobarbital.
Tennessee suspende outra execução
Após o episódio, o governador Bill Lee anunciou a suspensão de outra execução prevista para este ano e determinou uma revisão independente do que ocorreu durante a tentativa de executar Pike.
A defesa havia tentado impedir o procedimento judicialmente e argumentado que uma doença sanguínea e outros problemas poderiam aumentar o risco de sofrimento durante a execução.
Por que Christa Pike foi condenada à morte?
Pike foi sentenciada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, cometido em 1995, quando tinha 18 anos. Segundo a acusação, ela e o namorado espancaram e mataram a jovem em um acampamento de formação profissional para adolescentes.
O namorado, que tinha 17 anos na época, foi condenado à prisão perpétua.
Pike passou cerca de três décadas no corredor da morte. Durante os recursos, seus advogados argumentaram que a idade que ela tinha quando cometeu o crime, além de seu histórico de abusos e problemas de saúde mental, deveriam ser considerados.
A defesa afirmou ainda que Pike sofreu estupros, violência sexual, abandono e outros traumas durante a infância e que apresentava transtorno bipolar e estresse pós-traumático.
Um grupo de especialistas da Organização das Nações Unidas havia pedido às autoridades dos Estados Unidos e do Tennessee que interrompessem o procedimento e comutassem a sentença.
Caso tivesse sido concluída, a execução de Pike seria a 30ª realizada nos Estados Unidos desde o início do ano. Desde 1976, 18 mulheres foram executadas no país, segundo o Centro de Informação sobre a Pena de Morte.
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