Vida e Saúde
TikTok: 9 em cada 10 vídeos sobre a 'pele de vidro' coreana contêm informações enganosas
84% dos vídeos não levavam em consideração os diferentes tipos de pele, enquanto 32% prometiam resultados instantâneos
Uma nova pesquisa apresentada no Congresso 2026 da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia (EADV 2026) mostra que quase 95% dos vídeos virais coreanos de cuidados com a pele e "pele de vidro" no TikTok continham pelo menos uma afirmação potencialmente enganosa, enquanto informações básicas de segurança estavam praticamente ausentes.
A busca pela “pele de vidro” — termo popular na internet para pele lisa e profundamente hidratada — tornou-se um fenômeno global nas redes sociais, principalmente no TikTok, onde as rotinas podem alcançar milhões de usuários.
Para o estudo, um dos primeiros a analisar algo do tipo, os pesquisadores utilizaram uma conta neutra e criada do zero, sem histórico de engajamento prévio para minimizar o viés algorítmico, e selecionaram os vídeos mais populares em cinco termos de busca relacionados a cuidados com a pele coreanos. No final, 38 foram avaliados quanto às alegações dermatológicas, informações de segurança, qualidade e confiabilidade, utilizando a Escala Global de Qualidade e o DISCERN modificado.
Os resultados mostraram que quase 95% dos vídeos continham pelo menos uma afirmação enganosa, enquanto 84% não levavam em consideração os diferentes tipos de pele, 45% promoviam combinações excessivas de ingredientes ativos sem as devidas orientações de segurança e 32% prometiam resultados instantâneos.
"O que mais nos surpreendeu foi a ausência constante de informações básicas de segurança. Apenas um dos 38 vídeos mencionou o risco de irritação, apenas dois abordaram a proteção solar, nenhum mencionou o risco de dermatite de contato e nenhum recomendou consultar um dermatologista”, afirmou Maria Lúcia Paysano, autora principal do estudo.
Todos os vídeos foram classificados como não confiáveis ou pouco confiáveis, e nenhum citou uma fonte ou referência externa. Quase 82% foram criados por influenciadores não médicos, 11% por marcas de beleza e 8% por outros criadores de conteúdo de beleza; nenhum foi produzido por dermatologistas.
"Nossos resultados mostram uma clara discrepância entre a popularidade desse conteúdo e a qualidade das informações fornecidas. Seguir essas rotinas sem orientação individualizada pode contribuir para irritação, esfoliação excessiva, surtos de acne ou ruptura da barreira cutânea, principalmente quando vários ingredientes ativos são combinados”, afirmou Paysano.
As consequências de seguir tendências virais de cuidados com a pele foram apresentados no mesmo congresso, porém em um estudo observacional separado envolvendo 4 pacientes que desenvolveram uma condição de pele nova ou agravada após o uso de produtos cosméticos ou dermatológicos promovidos nas redes sociais.
O estudo mostrou que os esfoliantes químicos contendo alfa-hidroxiácidos (AHAs) ou beta-hidroxiácidos (BHAs) foram os produtos mais frequentemente implicados, relatados em 34% dos casos, seguidos por retinoides de venda livre (27%), séruns de vitamina C (14%) e produtos contendo niacinamida (11%).
Quase metade (48%) dos pacientes adotou rotinas completas de cuidados com a pele diretamente inspiradas em conteúdo de mídias sociais, enquanto 63% estavam usando simultaneamente mais de três ingredientes ativos para cuidados com a pele.
As reações variaram desde dermatite de contato irritativa (42%) e início ou agravamento significativo da acne (28%) até surtos de rosácea ou dermatite semelhante à rosácea (12%), hiperpigmentação pós-inflamatória (11%) e queimaduras químicas superficiais (7%).
"O que foi particularmente impressionante não foi simplesmente a popularidade desses produtos, mas a forma como estavam sendo usados. Muitos pacientes estavam reproduzindo rotinas complexas de cuidados com a pele, envolvendo vários ingredientes ativos simultaneamente, frequentemente baseadas em conselhos de influenciadores sem formação médica”, explicou Ouissal Hormi, autora principal deste estudo.
Segundo a pesquisadora, a combinação de vários ingredientes ativos pode sobrecarregar a barreira cutânea, já que alguns apresentam efeitos irritantes sobrepostos. "Nossa mensagem é simples: 'Viral' não significa necessariamente seguro, validado ou adequado para todos”, diz.
Os autores foram enfáticos ao dizer que o problema não está nos produtos coreanos, mas no fato de que princípios como limpeza suave, hidratação e proteção da barreira cutânea podem ser transformados nas redes sociais em rotinas virais e padronizadas, sem as devidas informações de segurança.
Segundo eles, os dermatologistas têm um papel importante a desempenhar ao conversar com os pacientes e tornar as informações sobre cuidados com a pele baseadas em evidências “precisas, acessíveis e envolventes”.
"Os consumidores devem ter cautela com conteúdo que promete resultados instantâneos ou universais. Qualquer pessoa com um problema de pele preexistente que desenvolva irritação ou que não tenha certeza se uma rotina é adequada para ela deve procurar a orientação de um dermatologista”, afirmou Paysano.
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