Vida e Saúde

HIV: SUS poderá ter PrEP de longa duração ainda neste ano; entenda o que vai mudar

Grupos vulneráveis que não recebem a droga em pílulas poderão ser beneficiados; medicamento que protege por 6 meses ainda não avançou nas negociações

Agência O Globo - 30/09/2026
HIV: SUS poderá ter PrEP de longa duração ainda neste ano; entenda o que vai mudar

Um dos mais significativos avanços da ciência nos últimos anos foi transformar o HIV em uma infecção evitável, que pode ser prevenida com diversas ferramentas. As camisinhas — femininas e masculinas — continuam sendo fundamentais para o controle da disseminação do vírus causador da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), mas gradualmente foram acompanhadas por inovações que oferecem proteção para aqueles que, eventualmente, entram em contato com o vírus, mesmo durante relações sexuais desprotegidas. Desde 2018, o Brasil conta com uma inovação muito utilizada: a PrEP (profilaxia pré-exposição), disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) e que pode ser retirada em pontos como estações de Metrô em São Paulo.

Essas pílulas permitem que a pessoa esteja protegida da infecção, mesmo se envolver-se em comportamentos de risco. Porém, uma nova geração de medicamentos avança ainda mais, oferecendo proteção prolongada contra o contágio— ou seja, não será mais necessário lembrar-se diariamente dos medicamentos para evitar um diagnóstico positivo.

A solução mais próxima de ser efetivamente incorporada ao sistema brasileiro é o cabotegravir, produzido pela farmacêutica GSK. Embora a previsão de sua chegada — caso passe por todas as etapas de inclusão — esteja prevista para o segundo semestre de 2026, o medicamento já conta com a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há três anos. Trata-se de uma droga injetável de longa duração, cuja proteção se estende por até dois meses após a aplicação.

— Em outubro, se recebermos um parecer positivo da Conitec (o órgão do Ministério da Saúde responsável por determinar quais medicamentos farão parte do SUS), fecharemos as negociações e faremos o possível para ter o medicamento disponível ainda neste ano — afirma Roberta Correa, diretora da unidade de negócios de Virologia da GSK. — Nos dois primeiros meses, a aplicação é mensal; após isso, a aplicação passa a ocorrer a cada dois meses. No estudo que realizamos, a proteção é superior a 99%.

Segundo Roberta, o uso do medicamento em larga escala já é registrado, principalmente nos EUA. Na Europa, a sua inclusão ainda está em processo. Em outras localidades, o cabotegravir é utilizado em combinação com o ativo rilpivirina, para tratamento de pessoas já convivendo com o HIV.

No Brasil, a chegada desse medicamento não deve substituir a PrEP em pílulas diárias, que atualmente é utilizada por mais de 150 mil pessoas. O que explica essa situação é Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV/AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI) do Ministério da Saúde. O projeto inicial prevê a chegada de cerca de 3 mil tratamentos, sendo parte deles utilizados em um estudo de implementação e outros comprados para populações específicas.

— Nosso objetivo é alcançar as populações que não têm sido adequadamente atendidas pela PrEP oral. Refiro-me especialmente às mulheres cis e transgênero, bem como às travestis. Atualmente, nosso painel de acesso mostra que 80% dos usuários da PrEP oral diária são homens que fazem sexo com homens (HSM) — explica. — Queremos oferecer opções para a população que não está obtendo a cobertura desejada, incluindo pessoas vulnerabilizadas. Do ponto de vista do risco biológico, as pessoas mais vulneráveis são aquelas que fazem sexo anal sem proteção, pois o risco é elevado.

Draurio destaca que há populações que enfrentam estigmas por utilizarem medicamentos orais para prevenir o HIV. Esse grupo pode se beneficiar da nova PrEP, que exige uma aplicação bimestral— ou mesmo ampliada para um período maior. Isso significa que não será necessário carregar um frasco de medicamentos consigo, como acontece com a forma atual de proteção.

— Há jovens cujas famílias ainda não sabem que são gays. Eles, por exemplo, evitam levar o medicamento para casa por medo de serem descobertos por utilizarem a PrEP. Observamos que a descontinuidade do tratamento é maior entre jovens de 18 a 24 anos; mais da metade abandona a prevenção — pondera. — Para essa população, a PrEP injetável será uma grande diferença. Basta ir a cada dois meses à unidade de saúde, sem a necessidade de levar nada para casa.

Esse estudo de implementação do cabotegravir, segundo Draurio ao GLOBO, abrangerá todas as cinco regiões brasileiras e oferecerá diferentes tipos de PrEP. Desde a pílula diária até a injeção bimestral e o uso de um anel vaginal de proteção (para mulheres cisgênero). Este último dispositivo já foi aprovado por agências internacionais, mas não teve implementação devido à sua baixa eficácia. No Brasil, ele será oferecido como uma segunda barreira, em conjunto com a PrEP oral e o uso de preservativos.

— Queremos observar a utilização dessas ferramentas no mundo real e entender quais são as preferências — afirma. — Mas já antecipamos que não pretendemos substituir a PrEP oral no país. Ela é sustentável e altamente eficaz. Nosso objetivo é oferecer todas as tecnologias possíveis às populações que mais necessitam, priorizando uma questão de equidade ao invés de igualdade.

Nessa discussão, também se menciona a droga de proteção mais prolongada contra a doença, o lenacapavir, desenvolvido pela Gilead Sciences, que garante proteção por seis meses após a aplicação. Até o momento, a solução não possui acordo para sua entrada no Brasil, devido a divergências relacionadas ao custo. A farmacêutica não respondeu aos pedidos de entrevista do GLOBO. Neste mês, no entanto, anunciou um acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para incluir o Fundo Rotatório da entidade.

De acordo com a Opas, “os países elegíveis poderão fazer pedidos de aquisição (dos tratamentos) a partir de outubro de 2026, mas a data em que o medicamento estará disponível em cada país dependerá dos processos regulatórios nacionais, do planejamento das compras, do financiamento e da preparação dos programas de saúde”. Dentre os países que poderão beneficiar-se do acordo, está o Brasil. Os valores ou percentuais de redução do preço permanecem sigilosos, conforme explicou a entidade.

Ainda dentro do mesmo acordo, a Gilead comprometeu-se a avançar na negociação de transferência de tecnologia da droga, o que permitiria a produção no Brasil. Contudo, nenhum acordo foi anunciado até o momento.

Futuro

Enquanto a droga com maior duração não chega ao Brasil, outras inovações já estão em negociações com entidades nacionais, como o Alimatravir, da MSD, disponível em comprimido. A droga está na fase 3 de desenvolvimento (a última antes de solicitar autorização às agências reguladoras, como a Anvisa). O seu preço, no entanto, ainda não foi definido para o mercado, conforme informou Rodrigo Cruz, diretor de Relações Institucionais da MSD.

— Trata-se de um comprimido mensal. É uma nova classe de medicamentos que atua com pico de ação apenas uma hora após o uso. Assim, uma hora após a ingestão, ele interrompe qualquer transmissão, e essa proteção permanece por um mês. Além disso, após meses de uso, é possível ter uma janela de “esquecimento” de uma semana, com a proteção ainda garantida — explica Márcia Datz Abadi, diretora Médica da MSD Brasil. — É claro que precisamos da confirmação da fase 3, mas já existem evidências. Precisamos investir na conscientização da juventude, que não vivenciou o que vimos nos anos 1980 (referente ao HIV). A prevenção deve ser sempre aprimorada.