Vida e Saúde

Doenças inflamatórias intestinais disparam no Brasil em 13 anos

Pesquisador suspeita de poluição e conservantes

Agência O Globo - 25/09/2026
Doenças inflamatórias intestinais disparam no Brasil em 13 anos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O número de brasileiros com doenças inflamatórias intestinais (DII) cresceu mais de cinco vezes em 13 anos, passando de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025. O aumento inclui enfermidades como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. O dado faz parte de um estudo apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, que acontece em Balneário Camboriú (SC) até este sábado (26).

O levantamento foi realizado pelos pesquisadores Abel Quaresma, da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), e Paulo Kotze, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ambos integrantes da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP). O trabalho teve ainda a participação de pesquisadores de instituições como USP, Unicamp e Universidade de Calgary, no Canadá.

A partir de registros do Sistema Único de Saúde (SUS), os pesquisadores identificaram um aumento no número de novos diagnósticos anuais. A incidência passou de 9,35 para 12,34 casos por 100 mil habitantes no período analisado.

Doenças têm múltiplos fatores

As doenças inflamatórias intestinais são enfermidades autoimunes nas quais o sistema imunológico passa a atacar células e tecidos do próprio organismo, provocando um processo crônico de inflamação.

Segundo Abel Quaresma, tanto a doença de Crohn quanto a retocolite ulcerativa têm origem multifatorial. Há fatores genéticos associados, mas eles não estão presentes em todos os pacientes. Por isso, os pesquisadores também investigam a influência de fatores ambientais.

— A gente não sabe o fator causal ainda. A gente sabe que são doenças multifatoriais. Tem a genética, a poluição, os hábitos alimentares. Nossa dieta mudou muito nos últimos anos — afirmou o pesquisador.

Entre as possibilidades levantadas por Quaresma estão as mudanças na alimentação e o consumo de produtos ultraprocessados, que contêm diferentes tipos de aditivos.

Conservantes podem ter relação, diz especialista

O pesquisador chama atenção especialmente para conservantes, corantes e espessantes utilizados na indústria alimentícia. Segundo ele, essas substâncias podem contribuir para o desenvolvimento das doenças inflamatórias intestinais.

— Vinte anos atrás, você comprava um pão na padaria e, quatro ou cinco dias depois, ele mofava. Hoje em dia, compra-se um pão de forma, ele fica três meses pronto para ser usado — exemplificou.

Quaresma afirma que os aditivos usados para aumentar a durabilidade, o volume e as características dos alimentos podem estar entre os fatores ambientais relacionados ao aumento das DII. A hipótese, porém, se insere em um cenário em que as doenças têm múltiplas causas e o fator causal ainda não foi determinado.

Número de casos pode continuar crescendo

O estudo projeta que a incidência de novos casos pode chegar a 22,7 por 100 mil habitantes em 2035. Se a previsão se confirmar, a quantidade de pessoas vivendo com doenças inflamatórias intestinais pode alcançar 264 casos por 100 mil habitantes naquele ano, 67% acima do índice registrado em 2025.

— São doenças que até por volta de 2015 eram consideradas doenças raras. E que estão tendo um boom em todo o mundo, inclusive no Brasil. A gente projeta que, a partir de 2040, vão se tornar problema de saúde pública, como a pressão alta e o diabetes — afirmou Quaresma.

As doenças inflamatórias intestinais não têm cura. O tratamento busca controlar a inflamação e os sintomas, e pode exigir acompanhamento médico por muitos anos.

Segundo o especialista, os medicamentos utilizados podem chegar a um custo de R$ 500 mil por ano para cada paciente. Como muitos diagnósticos ocorrem ainda na juventude, parte dos pacientes precisa de acompanhamento durante décadas.