Vida e Saúde

Bets: quando a aposta deixa de ser diversão e vira um problema de saúde

Brasil tem cerca de 12,7 milhões de pessoas em situação de uso arriscado de jogos de apostas; especialistas explicam os sinais de alerta e como buscar ajuda

Agência O Globo - 24/09/2026
Bets: quando a aposta deixa de ser diversão e vira um problema de saúde
Bets: quando a aposta deixa de ser diversão e vira um problema de saúde

As apostas esportivas definitivamente deixaram de ser um hábito pontual no país e agora passam a comprometer o orçamento doméstico de boa parte dos brasileiros. É o que revelou a pesquisa Pulso | Apostas 2026, realizada pelo instituto Hibou entre os dias 28 e 31 de agosto, com mais de 2.400 brasileiros de todo o país, maiores de 18 anos, das classes ABCD. Segundo o levantamento, 38% dos brasileiros afirmam apostar em bets. E entre quem aposta, o impacto financeiro já é sentido no dia a dia: mais da metade (53%) admite ter deixado de pagar uma conta em dia para poder apostar, sendo que 28%% dizem que isso já aconteceu "algumas vezes" e 25%% "uma vez".

Apesar do comprometimento financeiro relatado, a percepção de risco entre os apostadores é bastante alta: 80% concordam ou concordam totalmente que as apostas esportivas podem se tornar um vício (49%% concordam e 31%% concordam totalmente). Outros 10%% nem concordam nem discordam, e apenas 9%% discordam e nenhum entrevistado discordou totalmente.

"Existe uma contradição interessante no comportamento do apostador brasileiro: ele reconhece o risco de vício, mas isso não necessariamente altera sua rotina de apostas. Esse é um sinal de que a percepção de risco, sozinha, não é suficiente para mudar o comportamento de consumo. É preciso pensar em mecanismos de proteção financeira e emocional junto com esse público", avalia Ligia Mello, CSO da Hibou.

Sinais de perda de controle já aparecem para 1 em cada 4 apostadores

Questionados diretamente se já sentiram que as apostas estavam saindo do controle ou impactando negativamente sua vida financeira ou emocional, 15% dos apostadores dizem que sim, 6%% "frequentemente" e 9%% "algumas vezes". Outros 23%% relatam que isso aconteceu "raramente", enquanto 6%% preferiram não responder. A maioria (56%%) afirma nunca ter sentido esse impacto.

A tentativa de recuperar o dinheiro perdido é uma das principais armadilhas das apostas on-line. Depois de uma derrota, o jogador aumenta o valor e acredita que o próximo resultado poderá resolver o prejuízo. O ciclo pode avançar até comprometer contas básicas, provocar dívidas e afetar a saúde mental de toda a família.

“Quando a pessoa aposta para recuperar o que perdeu, esconde os gastos, compromete despesas essenciais ou tenta parar e não consegue, já não estamos falando apenas de diversão. O jogo começa a ocupar o lugar da saúde, da renda e das relações familiares”, afirma Roberto Rangel, médico de Família e Comunidade, professor universitário e gestor público.

O terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas aponta que 25,9% dos brasileiros já jogaram ou fizeram algum tipo de aposta ao longo da vida. Entre os apostadores, 4,4%% apresentaram alto risco de envolvimento problemático. Um dossiê do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, o IEPS, estima que cerca de 12,7 milhões de pessoas estejam em situação de uso arriscado no país.

Segundo o estudo, os danos à saúde relacionados ao jogo problemático podem gerar um custo de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano para a sociedade. A estimativa considera gastos com tratamento e impactos indiretos, como perda de qualidade de vida e mortes prematuras associadas à depressão e ao suicídio. O valor não representa uma despesa exclusiva do SUS.

Os sinais de alerta

As bets funcionam durante 24 horas, cabem no celular e oferecem resultados rápidos. Essa disponibilidade facilita ciclos prolongados de apostas e novas tentativas de recuperar o prejuízo.

Ansiedade, irritabilidade quando não está jogando, insônia, vergonha e sensação de perda de controle estão entre os sinais emocionais de alerta apontados pelo Ministério da Saúde.

Na vida financeira, é preciso observar o comprometimento do dinheiro destinado a alimentação, aluguel, medicamentos e outras despesas essenciais. Empréstimos frequentes, venda de bens, pedidos de dinheiro sem explicação e discussões sobre gastos também merecem atenção.

Mentir sobre os valores apostados, passar cada vez mais tempo nas plataformas, abandonar atividades e voltar a jogar imediatamente depois de uma perda são outros sinais de risco.

“Não é necessário esperar uma dívida impagável ou uma crise grave. Quanto mais cedo o problema for reconhecido, maiores são as possibilidades de reorganizar a vida e evitar novos danos”, orienta Rangel.

Problema pode aparecer no consultório

Nem sempre o paciente procura uma unidade de saúde dizendo que perdeu o controle sobre as apostas. O problema pode surgir durante uma consulta por insônia, ansiedade, irritabilidade, depressão, conflitos familiares ou uso abusivo de álcool e outras drogas.

Na cidade do Rio, unidades de Atenção Primária passaram a incluir perguntas sobre apostas nas consultas de rotina. Na primeira semana da estratégia, 22 dos 3.070 pacientes que responderam ao questionário admitiram sentir necessidade de apostar. Entre eles, 15 disseram que já haviam mentido para a família para esconder quanto gastaram.

“O cuidado começa com uma pergunta feita sem julgamento. A pessoa precisa encontrar um ambiente seguro para falar sobre o dinheiro perdido, as dívidas e o impacto emocional. A família também precisa ser acolhida, porque muitas vezes está adoecendo junto”, explica.

Como ajudar e onde buscar atendimento

Ao perceber os sinais, a família deve conversar sem humilhar, ameaçar ou tratar a situação como falta de caráter. Também é importante evitar novos empréstimos para cobrir perdas sem que exista um plano de cuidado.

O SUS oferece atendimento nas Unidades Básicas de Saúde e, quando necessário, nos Centros de Atenção Psicossocial. Pelo aplicativo Meu SUS Digital, apostadores e familiares também podem acessar teleatendimento em saúde mental. O serviço tem capacidade para realizar até 100 mil atendimentos mensais.

Outra ferramenta disponível é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Ministério da Fazenda. Por meio dela, é possível bloquear as contas abertas nas empresas autorizadas, impedir novos cadastros com o CPF e deixar de receber publicidade direcionada.

Nos casos de ameaça de suicídio, autolesão, violência ou risco de vida, a orientação é procurar uma Unidade de Pronto Atendimento, um hospital ou acionar o Samu pelo telefone 192.

“A autoexclusão pode interromper o acesso imediato, mas a recuperação não termina no bloqueio. É preciso cuidar da saúde mental, reconstruir os vínculos e reorganizar a vida financeira. O tratamento deve ser baseado em acolhimento e responsabilidade”, conclui Roberto Rangel.