Vida e Saúde

Artigo: Religião e Ciência no cuidado da saúde mental

O desafio não está em escolher uma ou outra, mas em construir práticas que conheçam a responsabilidade e os limites de cada lado.

Agência O Globo - 22/09/2026
Artigo: Religião e Ciência no cuidado da saúde mental
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Ciência ou Religião? Aqui está um debate atual quando se fala no cuidado da saúde mental das pessoas. O desafio não está em escolher uma ou outra, mas em construir práticas que conheçam a responsabilidade e os limites de cada lado. Não há como negar que a fé ocupa um lugar central na vida de boa parte da população. E, dependendo da forma como é vivenciada, ela pode contribuir para que dores se tornem insuportáveis ou ser um fator protetivo contra ideiações suicidas, ajudando pessoas a lutarem pela vida.

Estudos associam práticas religiosas a menores índices de depressão, comportamento suicida e uso abusivo de substâncias. O que não é uma garantia. Ter fé não imuniza alguém contra transtornos mentais, e pertencer a uma comunidade não significa estar amparado. O potencial protetivo da religião precisa ser cultivado em ambientes nos quais seja possível falar de sofrimento sem constrangimento.

No consultório, jovens confessam já terem pedido a Deus que lhes tire a vida. Os conflitos entre orientação sexual e a compreensão que receberam da vontade divina transformaram a fé em fonte de culpa e rejeição. Mas há, também, pacientes que alegam que o temor a Deus impede que o desespero determine suas escolhas. Não atentam contra a vida por causa de sua crença. São relatos que impedem respostas simples sobre a relação entre espiritualidade, religião e saúde mental.

A fé não é, sozinha, prejudicial ou protetiva, e seus efeitos dependem de elementos como a forma como a imagem de Deus é recebida, como o sofrimento é interpretado, o tipo de comunidade à qual a pessoa pertence e a resposta que encontra ao pedir ajuda. Em um ambiente onde o sofrimento psíquico é convertido em culpa moral, a fé se torna um fator de risco.

Pacientes se afligem, porque ouvem de seus líderes religiosos que depressão é falta de Deus na vida; ansiedade é incapacidade de confiar em Deus; e ideação suicida se resolve com exorcismo. Nessas situações, a pessoa passa a acreditar que o sofrimento dela revela uma falha espiritual. E o resultado acaba sendo o silêncio. Ela evita procurar ajuda porque teme ser julgada, submetida a explicações precipitadas ou aconselhada a abandonar o tratamento.

Líderes religiosos não devem diagnosticar transtornos, mas precisam aprender a identificar sinais de risco, levar falas sobre morte a sério e encaminhar pessoas para uma avaliação profissional. A religião não pode ser usada para produzir vergonha ou rejeição, agravando sintomas. O problema não é a doutrina, mas a maneira como ela é empregada sobre uma pessoa vulnerável, sem considerar sua história, seus vínculos e seu estado emocional. Por isso, evitar danos desse tipo exige reconhecer limites.

Por outro lado, a religião pode oferecer recursos importantes para a preservação da vida. Ela produz sentido, dá esperança, fortalece vínculos e insere as pessoas em uma rede de apoio. Comunidades frequentemente percebem mudanças de comportamento, oferecem companhia em momentos de crise e ajudam quem enfrenta perdas, doenças ou dificuldades financeiras.

A oração, por exemplo, pode desempenhar um papel importante nesse cuidado. Ao favorecer a expressão das angústias, a organização dos pensamentos e a confiança de que não se está sozinho diante do sofrimento, ela contribui para a redução do estresse e da ansiedade.

Comunidades religiosas devem respeitar o conhecimento científico. Por sua vez, profissionais de saúde precisam acolher a fé quando ela ocupa um lugar relevante na vida do paciente, sem reduzi-la a sintoma ou ignorá-la por desconforto. Religião e clínica não precisam disputar o sofrimento humano. Devem, apenas, responder por aquilo que fazem com ele.

Daniel Guanaes é PhD em Teologia pela Universidade de Aberdeen, pastor presbiteriano, psicólogo clínico e autor do livro “Cuidar de Si” (Ed. Mundo Cristão).