Vida e Saúde

2 tribos indígenas têm taxas muito baixas de demência, mostra estudo inédito: entenda por que

Identificar os fatores que protegem essas populações pode ajudar a encontrar novas formas de prevenir a demência em outros lugares do mundo

Agência O Globo - 22/09/2026
2 tribos indígenas têm taxas muito baixas de demência, mostra estudo inédito: entenda por que

Cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais no Brasil convive com algum tipo de demência, o que representa aproximadamente 2,5 milhões de pessoas afetadas. Por outro lado, em duas comunidades indígenas da Amazônia boliviana, essa taxa varia de apenas 1% a 2% em algumas delas. É uma comparação impressionante, mas os números brutos não contam toda a história.

Para entender o que está por trás de taxas tão baixas, pesquisadores dos EUA acompanharam 730 adultos das comunidades de Tsimané e Mosetén, com idade média de 67,3 anos. Ao longo de cinco anos, foram identificados 22 novos casos de demência, resultando em uma incidência geral de 7,4 casos por 1.000 pessoas-ano, valor inferior às taxas observadas em populações da América do Norte e do norte da Europa.

Os resultados, publicados na revista Alzheimer's & Dementia: The Journal of the Alzheimer's Association, mostraram que nesses grupos, as pessoas com demência apresentavam um risco de morte seis vezes maior do que aquelas com cognição normal. Essa é uma diferença bastante acentuada em comparação com a população dos EUA, onde o tempo de sobrevida após o diagnóstico de demência é, em média, de duas a três vezes menor.

Em outras palavras, os Tsimané e Mosetén apresentam taxas mais baixas de novos casos de demência, mas a prevalência muito baixa é parcialmente explicada pelo fato de que as pessoas com demência nessas comunidades parecem morrer muito rapidamente. A razão por trás da expectativa de vida reduzida ainda não está clara, mas os pesquisadores suspeitam que seja um reflexo de seu estilo de vida constantemente em movimento na selva.

"Quando você precisa cultivar, coletar ou caçar quase todas as calorias que consome, a demência pode rapidamente se tornar fatal, pois elimina a independência necessária para a sobrevivência diária", diz Ben Trumble, professor da Escola de Evolução Humana e Mudança Social da Universidade Estadual do Arizona e coautor do estudo.

Outras pistas podem ser encontradas no sangue. Análises preliminares de sangue de pessoas com demência dessas etnias mostraram certos biomarcadores ligados à neurodegeneração, como níveis elevados de proteínas da cadeia leve de neurofilamentos.

No entanto, as amostras não apresentaram nenhum sinal das proteínas anormais tipicamente encontradas na doença de Alzheimer, como amiloide ou tau fosforilada. Isso sugere que a demência nessas comunidades indígenas pode estar relacionada a outras causas, como ruptura dos vasos sanguíneos no sistema nervoso, em vez do Alzheimer, que é a forma mais comum de demência nos EUA, na Europa e no Brasil.

"Na maioria dos Tsimané com comprometimento cognitivo ou demência, o padrão de atrofia cerebral não é típico da doença de Alzheimer. Em vez disso, observam-se alterações que indicam contribuições vasculares para o comprometimento cognitivo e a demência", explica Margaret Gatz, professora de psicologia e gerontologia da Universidade do Sul da Califórnia e principal autora do estudo.

A equipe também identificou que a variante do gene APOE4, um fator de risco genético bem conhecido para Alzheimer encontrado em muitas outras populações, estava associada à demência no estudo. No entanto, de acordo com os pesquisadores, isso por si só não explica como a demência se manifesta nessas comunidades.

Por isso, o próximo passo é desvendar as contribuições de vários fatores, como genética, estilo de vida, dieta, interação social, atividade física e exposição imunológica no risco de demência dos Tsimané e Mosetén.

"Se conseguirmos identificar os fatores que protegem as pessoas na Amazônia boliviana e compreender os mecanismos biológicos por trás deles, poderemos transformar esses conhecimentos em novas formas de prevenir a demência aqui em nosso país", conclui Trumble.