Vida e Saúde
Endometriose: cirurgia rara realizada no Brasil trata condição em três regiões do corpo
Paciente de 42 anos foi submetida a procedimento robótico em São Paulo para tratar endometriose avançada no tórax, diafragma e pelve
Raquel Togeiro, de 42 anos, passou por uma abordagem considerada rara no Brasil para tratar endometriose avançada. A paciente foi submetida a uma cirurgia realizada por meio de robótica para tratar a condição no tórax, diafragma e pelve.
Entenda o que muda:
A endometriose é mais frequentemente associada à pelve, mas, em casos menos comuns, pode comprometer regiões como o diafragma e o tórax. Nessas situações, a repetição de dor torácica ou dor ao respirar durante o período menstrual é um sinal que merece atenção.
Quando a doença compromete simultaneamente tórax, diafragma e pelve, o tratamento pode exigir a participação de diferentes especialidades. No procedimento realizado no hospital Vila Nova Star, em São Paulo, equipes de cirurgiões especialistas em endometriose e torácicos trabalharam de forma coordenada justamente para abordar, na mesma cirurgia, as diferentes regiões afetadas.
O procedimento teve duração de seis horas e começou pelo tórax, onde as lesões torácicas e diafragmáticas identificadas foram removidas pela equipe chefiada pelo cirurgião torácico Tiago Machuca. Na sequência, a equipe liderada pelo ginecologista e pesquisador da endometriose Igor Chiminacio realizou a etapa pélvica, com a retirada das lesões e liberação de estruturas nervosas comprometidas. Atualmente, Raquel está internada em recuperação pós-cirúrgica, com boa evolução.
A complexidade do procedimento chama atenção, mas a história de Raquel ajuda a revelar outro aspecto importante da endometriose: sintomas que surgem em regiões distintas do corpo podem permanecer durante anos sem que sejam relacionados à mesma doença. As primeiras manifestações da endometriose apareceram na adolescência, com cólicas incapacitantes desde a primeira menstruação.
Na vida adulta, o quadro persistiu e se agravou. Durante anos, uma dor recorrente no lado direito, abaixo das costelas, foi interpretada por ela como um possível problema no fígado e chegou a motivar diferentes idas ao pronto-socorro. Na realidade, a dor estava relacionada à endometriose no diafragma.
A partir dos 38 anos, outro sinal passou a chamar atenção: dor intensa ao respirar durante a menstruação. Nos últimos anos, a doença pélvica também se manifestou com dor irradiada da virilha para a perna direita, acompanhando o trajeto do nervo ciático.
O caso evidencia uma das dificuldades no diagnóstico da endometriose. Ao longo da vida, a paciente apresentou manifestações pélvicas, abdominais, respiratórias, neurológicas e ortopédicas, sintomas que, quando avaliados isoladamente, podem levar a diferentes especialidades antes que a relação entre eles seja identificada.
"Um dos aspectos mais importantes desse caso é perceber que sintomas que parecem pertencer a problemas completamente diferentes podem ter uma origem comum. Quando a dor se repete em associação com o ciclo menstrual, inclusive no tórax ou ao respirar, a endometriose precisa entrar entre as hipóteses investigadas. Reconhecer essa relação mais cedo pode poupar anos de sofrimento e de procura por respostas", afirma Chiminacio, em comunicado.
O especialista defende a hipótese de que a presença da endometriose em regiões distantes da pelve possa estar relacionada ao desenvolvimento embrionário. Trata-se de uma das linhas de investigação sobre a origem da doença.
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