Vida e Saúde

Veja o que 25 anos de estudos revelaram sobre idosos com 'cérebro jovem'

Uma das descobertas foi que preservação da cognição na velhice tem a ver com vida social

Agência O Globo - 24/04/2026
Veja o que 25 anos de estudos revelaram sobre idosos com 'cérebro jovem'
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Pesquisadores da Northwestern Medicine, nos Estados Unidos, vêm investigando há mais de 25 anos um grupo de idosos com 80 anos ou mais conhecidos como “superagers” (algo como "superenvelhecedores"), com o objetivo de entender por que algumas pessoas conseguem manter uma acuidade mental excepcional na velocidade. E chegue a algumas conclusões importantes.

Esses indivíduos apresentam desempenho em testes de memória revelados ao de pessoas com menos de 30 anos mais jovens, desafiando a ideia tradicional de que o declínio cognitivo é liberado com o avanço da idade.

Ao longo de décadas de pesquisa, os cientistas identificaram características comportamentais e de personalidade que distinguem esse grupo, como um perfil altamente sociável e extrovertido.

As descobertas mais relevantes vieram da análise de seus cérebros. Desde 2000, cerca de 290 participantes integraram o programa, e 77 cérebros doados foram analisados ​​após a morte. Algumas dessas amostras continham acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, como placas de amiloide e emaranhados de tau, enquanto outras não mostraram qualquer sinal dessas alterações.

Segundo a pesquisadora Sandra Weintraub, professora de Psiquiatria, Ciências Comportamentais e Neurologia da Northwestern University Feinberg School of Medicine, foram justamente as descobertas neurobiológicas que mais surpreenderam a equipe.

A partir da identificação de padrões biológicos e comportamentais associados ao chamado “superenvelhecimento”, os pesquisadores esperam desenvolver novas estratégias para fortalecer a resiliência cognitiva e reduzir o risco de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.

Características únicas

A análise levou os pesquisadores a identificar dois mecanismos principais que podem explicar o específico: resistência (quando o indivíduo não desenvolve essas proteínas nocivas), e resiliência (quando elas estão presentes, mas não causam danos significativos ao cérebro).

De acordo com Weintraub, os resultados indicam que uma memória excepcional na velhice está ligada a um perfil neurobiológico específico, o que abre caminhos para intervenções voltadas à preservação da saúde cerebral ao longo da vida.

As investigações foram publicadas na revista científica Alzheimer's & Dementia: The Journal of the Alzheimer's Association, em uma edição especial que marca os 40 anos do programa de centros de pesquisa em Alzheimer do National Institute on Aging e os 25 anos do National Alzheimer Coordinating Center.

Grupo privilegiado

O termo “superager” foi introduzido pelo neurologista M. Marsel Mesulam, fundador do Mesulam Center for Cognitive Neurology and Alzheimer's Disease, no final dos anos 1990.

Entre as principais características desse grupo, destaca-se o desempenho elevado em testes de memória — com resultados comparáveis ​​aos de pessoas na faixa dos 50 e 60 anos —, além de uma estrutura cerebral preservada.

Diferentemente do envelhecimento típico, esses indivíduos apresentam pouca ou nenhuma redução da espessura do córtex cerebral. Em alguns casos, regiões como o córtex cingulado anterior são até mais espessas do que em adultos mais jovens, contribuindo para funções como tomada de decisão, emoção e motivação.

Os estudos também identificaram particularidades celulares, como maior quantidade de neurônios do Economo, associados ao comportamento social, e neurônios maiores na região entorrinal, fundamentais para a memória. Apesar dos hábitos de vida variados, a maioria dos super-idosos mantém relações sociais próximas e frequentes.

Futuro do envelhecimento

No Mesulam Center, os participantes são avaliados anualmente e podem optar por doar seus cérebros para pesquisa após a morte, prática considerada essencial para avanços científicos. A neuropsicóloga Tamar Gefen, coautora do estudo, destaca que essas doações permitem descobertas mesmo após a morte, contribuindo de forma rigorosa para a ciência.

Detalhado no artigo “The first 25 years of the Northwestern SuperAging Program” (“Os primeiros 25 anos do Programa de Superenvelhecimento da Northwestern”), o estudo é considerado um marco na área e contorno também com a participação de pesquisadores como Changiz Geula.

A expectativa da comunidade científica é que essas descobertas orientem novas estratégias de prevenção e tratamento, permitindo que mais pessoas preservem a capacidade cognitiva ao longo do envelhecimento.