Vida e Saúde

Remédios para emagrecimento semelhantes ao Ozempic podem ajudar na recuperação do coração após infarto, aponta estudo

Pesquisa indica que medicamentos baseados em GLP-1 podem melhorar fluxo sanguíneo no músculo cardíaco e reduzir complicações graves comuns após ataques cardíacos

Agência O Globo - 05/03/2026
Remédios para emagrecimento semelhantes ao Ozempic podem ajudar na recuperação do coração após infarto, aponta estudo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Medicamentos usados ​​para emagrecimento e que imitam a ação dos hormônios GLP-1 também podem auxiliar na recuperação do coração após um infarto. Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Bristol e da University College London (UCL), no Reino Unido, sugere que esses medicamentos são capazes de limitar danos adicionais ao órgão e reduzir o risco de complicações graves que afetam até metade dos pacientes que sofrem ataques cardíacos.

Resultados promissórios em previsões iniciais

Os resultados, publicados na revista científica Nature Communications , apontam que os medicamentos para emagrecimento baseados em GLP-1 podem representar uma estratégia inovadora para melhorar a recuperação após um infarto. Pesquisas anteriores já demonstraram que essas soluções são direcionadas à probabilidade de problemas cardíacos graves, independentemente das condições de saúde pré-existentes do paciente ou da quantidade de peso perdida durante o tratamento.

Para compreender melhor como esses medicamentos beneficiam o coração, os cientistas investigaram os processos biológicos envolvidos. Estudos prévios da equipe já haviam mostrado que pequenas células contraiam, chamadas pericitos, contraem os capilares coronarianos nas previsões iniciais da isquemia — condição em músculo o cardíaco deixa de receber sangue rico em oxigênio.

No novo estudo, os pesquisadores analisaram se os medicamentos baseados em GLP-1 poderiam reverter esse processo e reabrir os pequenos vasos sanguíneos bloqueados após o infarto.

Desafio do 'no-reflow' permanece

A professora Svetlana Mastitskaya, especialista em Medicina Regenerativa Cardiovascular da Bristol Medical School e autora principal do estudo, explicou que, mesmo após o tratamento emergencial que desobstrui a artéria principal, muitos pacientes continuam apresentando problemas de circulação no próprio músculo cardíaco.

"Em quase metade de todos os pacientes com infarto, pequenos vasos sanguíneos dentro do músculo cardíaco permanecem interligados, mesmo depois que a artéria principal é desobstruída durante o tratamento médico de emergência. Isso resulta em uma complicação conhecida como 'no-reflow', em que o sangue não consegue alcançar certas partes do tecido cardíaco", afirmou.

Ela acrescentou que esse problema eleva o risco de complicações graves: "Nossa pesquisa anterior mostrou que esse estreitamento dos vasos sanguíneos contribui significativamente para o 'no-reflow', uma complicação que aumenta o risco de morte ou de internação por insuficiência cardíaca dentro de um ano após um infarto. Mas nossas descobertas mais recentes são surpreendentes, pois constatamos que os medicamentos de GLP-1 podem prevenir esse problema."

Mecanismo de ação e potencial clínico

Experimentos realizados em modelos animais demonstraram que esses medicamentos melhoraram o fluxo sanguíneo no coração após o infarto. Segundo os pesquisadores, os medicamentos ativam canais de potássio que relaxam os pericitos, permitindo que os vasos sanguíneos antes dos contraídos se dilatem. Com isso, o sangue consegue alcançar o tecido cardíaco de forma mais eficaz, reduzindo o risco de danos adicionais.

David Attwell, professor de Fisiologia da UCL e coautor do estudo, destacou que o uso crescente desses medicamentos abre caminho para novas aplicações clínicas.

“Com um número cada vez maior de medicamentos semelhantes ao GLP-1 sendo usados ​​na prática clínica para condições que vão do diabetes tipo 2 e obesidade até doenças renais, nossas descobertas destacam o potencial de reutilizar esses medicamentos existentes para tratar o risco de 'no-reflow' em pacientes com infarto, oferecendo uma solução potencialmente capaz de salvar vidas”, afirmou.