Vida e Saúde

Até 2040, metade das crianças e adolescentes no Brasil pode estar com sobrepeso

No mundo, 20,7% dos jovens entre 5 e 19 anos já estão acima do peso, superando pela primeira vez o percentual de baixo peso

Agência O Globo - 04/03/2026
Até 2040, metade das crianças e adolescentes no Brasil pode estar com sobrepeso
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O novo Atlas Mundial da Obesidade 2026, divulgado nesta terça-feira (5) pela Federação Mundial de Obesidade, revela que 20,7% das crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos — ou seja, 1 em cada 5 — apresentam sobrepeso ou obesidade. Esse índice mostra crescimento em relação a 2010, quando era de 14,6%. Pela primeira vez, a estimativa é que, em 2026, o percentual de jovens acima do peso supere o de jovens abaixo do peso no mundo.

O total corresponde a 419 milhões de crianças e adolescentes globalmente. A federação projeta que, em 2040, esse número deve subir para 507 milhões, representando 26,4% da população nessa faixa etária — mais de 1 a cada 4 jovens. Especificamente em relação à obesidade, o atlas aponta que 8,7% têm o diagnóstico atualmente, o que equivale a 177 milhões de jovens, número que pode chegar a 11,9% (228 milhões) em 2040.

No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante. Segundo o atlas, 6,6 milhões de crianças e adolescentes já estão com sobrepeso ou obesidade, quase 40% da faixa etária. A projeção é que, em 2040, metade dos brasileiros de 5 a 19 anos estejam acima do peso. Os dados preocupam especialistas, como Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e presidente eleito da Federação Mundial de Obesidade:

— É importante notar que o Brasil apresenta crescimento mais acentuado da obesidade entre crianças e adolescentes das classes sociais mais baixas. Isso mostra a relação direta com o nível socioeconômico, já que a dificuldade de acesso a alimentos saudáveis ​​e o hábito de cozinhar em casa levam muitas famílias de baixa e média renda a consumirem ultraprocessados ​​e itens de baixo valor nutricional. A obesidade não é apenas uma questão de escolha individual, mas está fortemente associada à condição socioeconômica.

A Federação Mundial de Obesidade alerta que o mundo não deve cumprir a meta global de interrupção a alta da obesidade infantil até 2030. O avanço do quadro traz riscos de saúde semelhantes aos observados entre adultos, como maior incidência de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares — estas, principais causas de morte no Brasil e no mundo.

O documento destaca ainda que, embora a obesidade fosse antes mais comum em países de alta renda, hoje o aumento ocorre de forma mais rápida em nações de média e baixa renda, como o Brasil.

Para Halpern e os responsáveis ​​pelo atlas, são medidas urgentes para conter o avanço da obesidade infantil, como a implementação de impostos seletivos sobre bebidas adoçadas e ultraprocessadas, a restrição à publicidade direcionada às crianças e o fortalecimento de estratégias de promoção da atividade física, alimentação saudável nas escolas, alerta materno e atenção primária à saúde.

— O Brasil tem avanços, como a oferta de alimentação saudável nas escolas, mas ainda é insuficiente. O consumo de ultraprocessados, embora menor que a média mundial, está em crescimento. Precisamos de ações conjuntas e estratégias bem estruturadas — defenda Halpern.

Para Johanna Ralston, diretora-executiva da Federação Mundial de Obesidade, os governos não devem hesitar em adotar políticas de enfrentamento: “Não é correto condenar uma geração à obesidade e às doenças crônicas não transmissíveis — ambientais fatais — que muitas vezes a acompanham”, afirma em nota.