Vida e Saúde

Cabelo, identidade e contorno facial: por que mulheres impulsionam boom de transplante capilar e sobrancelhas

Avanços tecnológicos e busca por resultados naturais explicam nova onda feminina, afirma especialista

Agência O Globo - 02/03/2026
Cabelo, identidade e contorno facial: por que mulheres impulsionam boom de transplante capilar e sobrancelhas
Cabelo, identidade e contorno facial: por que mulheres impulsionam boom de transplante capilar e sobrancelhas - Foto: Reprodução / freepik

Redesenhar o rosto, suavizar traços e resgatar a autoestima. O transplante capilar no Brasil — terceiro no ranking mundial no mercado de beleza e bem-estar — tem se tornado um fenômeno entre mulheres, atraídas pelos avanços tecnológicos. Tradicionalmente associado ao público masculino, o tratamento passa a atrair pacientes interessadas em técnicas modernas, como a Follicular Unit Extraction (FUE), que permite o reposicionamento de folículos, em muitos casos, sem a necessidade de raspagem extensa do couro cabeludo. A promessa é de recuperação rápida e pós-operatório discreto, além de valorizar o contorno facial e oferecer naturalidade.

Maiara, da dupla sertaneja com Maraisa, usou as redes sociais para falar abertamente sobre a queda de cabelo e comemorou a evolução do tratamento que tem feito para a condição. A cantora falou sobre a perda dos fios causadas por procedimentos estéticos, mas também pela queda causada pela alopecia androgenética, condição crônica que provoca afinamento progressivo dos fios e pode levar à calvície. Segundo a artista, o problema se agravou ao longo dos anos e chegou a um ponto extremo.

O atrativo para o público feminino reside na combinação tratamento clínico para maximização dos fios, transplante capilar sem raspagem com terapias regenerativas de alta performance. Segundo o cirurgião capilar Audir Carvalho Júnior, sócio e diretor da novofio, o cuidado com o cabelo, de modo geral, em particular no segmento feminino, entra em uma nova era, mais tecnológica e com maior discrição, o que garante resultados mais expressivos, seguros e duradouros. “A preocupação com o cabelo sempre existiu, mas de forma amadora. Mas agora ela se torna mais acessível através da medicina capilar”, afirma.

O médico, que integra a International Society of Hair Restoration Surgery (ISHRS) e o World FUE Institute (WFI), observa em sua prática clínica o que pesquisas recentes já indicam: o interesse feminino cresce de forma consistente. Relatório da ISHRS divulgado em 2025 aponta que o número de pacientes mulheres submetidas a transplantes capilares cirúrgicos aumentou 16,5% entre 2021 e 2024.

Embora os homens ainda representem cerca de 80% a 90% dos pacientes de transplante capilar, o avanço tecnológico tem sido um fator fundamental para a maior adesão de mulheres, explica o cirurgião. Técnicas menos invasivas, resultados mais naturais e a possibilidade de integrar o transplante a estratégias de harmonização facial ampliam o interesse pelo tratamento. A crescente procura feminina também tem sido impulsionada pela maior visibilidade do procedimento, inclusive após relatos públicos de famosos como Xuxa, que no ano passado revelou ter alopecia androgenética.

“Hoje realizamos o transplante sem a necessidade de raspar a cabeça. A paciente mantém sua rotina e sua privacidade no pós-operatório”, destaca Audir Carvalho Junior, acrescentando que há atualmente uma série de tratamentos avançados que podem ser combinados ou não com o transplante, como o Mesofio protocolo de reposição de nutrientes que auxilia na vascularização local e na nutrição do folículo; os Exossomos, PDRN e células autólogas, utilizados para regeneração capilar; e a suplementação estratégica, com controle rigoroso de ferritina, vitamina D e B12 para sustentar o crescimento saudável.

A experiência da coordenadora comercial Ester Maciel ilustra essa jornada. Após notar falhas no alto da cabeça, que aumentaram drasticamente na pandemia da Covid-19, ela encontrou respostas em um diagnóstico especializado, o que não tinha conseguido em exames de rotina. “Eu tinha um buraco enorme na cabeça", relata.

Ester descobriu que o problema era multifatorial: alopecia androgenética associada a Líquen Plano Pilar (doença autoimune). Desde então, passou a combinar medicação e protocolos clínicos intensivos de tratamento na novofio. “Hoje, cuido mais da minha alimentação, do estresse e mantenho exercícios físicos regulares”, diz ela, que se trata há quatro meses em uma das unidades da empresa na cidade de São Paulo.

Afirmação de identidade

A ampliação do transplante capilar também tangencia questões profundas de identidade e gênero. Para muitas mulheres — especialmente pessoas trans — o procedimento ultrapassa a dimensão estética e se torna etapa importante da afirmação pessoal.

Melyssa Pinheiro, doutora em comunicação e professora universitária, viu na mudança do contorno do rosto um símbolo de sua transição. “O transplante capilar não é apenas sobre ter cabelo; é sobre liberdade e sobre ver no espelho o rosto feminino que sempre esteve aqui”, pontua. Durante anos, Melyssa manteve relação distante com a própria aparência e só passou a se preocupar com a questão capilar ao iniciar a transição de gênero. Antes, utilizava soluções temporárias, como perucas, mas a herança genética e o desejo de alinhar aparência e identidade tornaram o procedimento uma escolha definitiva. Atualmente, ela se prepara para a cirurgia, prevista para abril.

Impacto psicológico

A perda capilar pode gerar efeitos profundos na autoestima e na saúde emocional. A psicóloga Ana Helena Fulber Goudinho compara o processo a um luto pela autoimagem. “A perda capilar vai muito além da estética; ela fere a identidade. O processo se assemelha ao luto tradicional. A paciente sente que perde uma versão de si mesma: sua feminilidade, juventude e segurança social.”

Segundo a especialista, o sofrimento pode se manifestar em situações cotidianas, ao pentear os cabelos ou olhar-se no espelho, desencadeando ansiedade social, isolamento e prejuízos nos relacionamentos pessoais e profissionais. Para ela, equilíbrio emocional e rede de apoio são fatores essenciais para atravessar o processo e perceber o resultado do tratamento ou do transplante como uma experiência positiva.

Antes de optar por uma cirurgia, Audir Carvalho Júnior, orienta que pessoas com queda capilar busquem avaliação médica, já que existem diferentes abordagens capazes de tratar o problema. Entre os protocolos oferecidos pela novofio está o Mesofio, técnica de reposição de nutrientes que estimula a formação de microvasos e aumenta a densidade capilar. Os tratamentos são personalizados conforme a necessidade de cada paciente.

O especialista doutor ressalta que o foco deve ser o diagnóstico preciso e o uso de inovações já disponíveis, com acompanhamento médico, com as medicações já comprovadas cientificamente e terapias regenerativas com células autólogas, capazes de modular fatores inflamatórios e metabólicos associados à perda capilar.

Além disso, destaca a importância de ajustes no estilo de vida. Equilíbrio nutricional, prática de atividade física, hábitos saudáveis e tratamentos preventivos contribuem para a saúde dos fios e ajudam a evitar a perda capilar.