Variedades
Romance reconstrói o caos do primeiro teatro do Brasil colonial
Finalista do Prêmio Jabuti, livro do roteirista Celso Tádhei resgata memórias apagadas de artistas negros e mestiços do século XVIII.
A vibrante, plural e caótica cena cultural do Rio de Janeiro do século XVIII ganha uma nova roupagem pelas mãos do escritor e roteirista carioca Celso Tádhei. Em seu romance de estreia, A Casa da Ópera de Manoel Luiz (publicado pela editora Mondru), o autor constrói uma narrativa que cruza dados históricos, ficção e humor para resgatar a trajetória do segundo teatro em atividade no Brasil colonial e de seu idealizador, o empresário português Manoel Luiz Ferreira. A relevância da obra já foi reconhecida pelo mercado editorial, consagrando o livro como finalista do Prêmio Jabuti na categoria Romance de Entretenimento.
A estrutura do livro se apoia em um jogo metalinguístico e labiríntico. Na trama, o próprio autor assume o papel de personagem, sendo "assombrado" pelo fantasma de Manoel Luiz para colocar no papel as desventuras de sua trupe de comediantes, músicos e atores — em sua grande maioria, homens e mulheres negros e mestiços que desafiavam as rígidas barreiras da sociedade escravocrata para viver dos palcos.
Resistência artística e intrigas de bastidores
Longe de ser um relato histórico formal e linear, o livro aposta no ritmo ágil das comédias de bastidores. Entre improvisos cômicos nos palcos improvisados e complexas intrigas palacianas com a corte do Vice-Rei Lavradio, o romance aborda dilemas que cruzam os séculos e continuam atuais: o papel da arte como território de resistência social e a eterna batalha entre a liberdade da criação estética e a necessidade de sobrevivência financeira.
Ao longo das páginas de A Casa da Ópera de Manoel Luiz, personalidades reais do cenário colonial ganham vida e protagonismo. É o caso da cantora lírica Joana da Gama, conhecida como Lapinha, do ator João dos Reis e do célebre compositor sacro Padre José Maurício. Ao trazer essas figuras para o centro do palco, Tádhei combate ativamente o apagamento histórico promovido pelas crônicas oficiais. "Manoel e, principalmente, tantos artistas brasileiros foram apagados da história da arte nacional. Está mais do que na hora de mudar isso", reflete o escritor.
Influências literárias e o ritmo da comédia
A fluidez do romance reflete a ampla bagagem de Celso Tádhei na dramaturgia nacional. Formado em Artes Cênicas pela UNIRIO, o autor trabalhou por 23 anos na Rede Globo, atuando como roteirista-chefe do programa Zorra (indicado ao Emmy Internacional) e assinando textos para o Sítio do Pica-Pau Amarelo e esquetes com o ator Paulo Vieira.
Essa experiência com o tempo da comédia e a recepção do público se traduz em capítulos curtos, irônicos e digressivos. O estilo despojado dialoga tanto com a prosa irônica de Machado de Assis e o modernismo de Mário de Andrade quanto com o humor ácido do norte-americano Kurt Vonnegut. O resultado é uma leitura envolvente que diverte o leitor ao mesmo tempo em que propõe um debate indispensável sobre as verdadeiras origens e a mestiçagem da identidade cultural brasileira.
Sobre o autor:
Celso Tádhei é carioca, roteirista, professor e escritor. Além de sua longa trajetória na televisão, assina peças teatrais premiadas, como a adaptação de O Alienista, e roteiros para o cinema. É também um dos fundadores da escola de roteiro Levante 42, onde ministra oficinas de escrita criativa.

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