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Após ‘meio século’ de legado na Jamaica, reggae caribenho ganha novos timbres no Brasil; entenda o fenômeno
O país segue à frente do novo movimento do reggae, após um legado deixado por artistas como Bob Marley, Toots & the Maytals e The Congos na Jamaica dos anos 60’.
A ‘primeira capital do Brasil’ ou a ‘cidade mais negra fora da África’, Salvador, na Bahia, têm resgatado o legado da Jamaica dos anos 60, ao abrigar um dos maiores polos do reggae music do país. A influência que veio do Mar do Caribe e que trouxe nomes como Bob Marley, Toots & the Maytals e The Congos, encontrou um novo lar entre os soteropolitanos; inspirando artistas como o cantor e compositor Duda Diamba à trilhar uma trajetória de 30 anos na música caribenha.
A mistura da musicalidade baiana com o ska, rocksteady, o dub e o ragga jamaicano é o que pulsa na veia musical do artista. À frente do último single “Salvamor” (2025), produzido em conjunto com Vinícius Casqueiro, Van Cerqueira e Tony Errejota, Duda traz a batida do reggae, pela primeira vez na sua discografia, em sintonia com tecnologias criativas e ferramentas digitais.
“Trabalhei nesta faixa (Salvamor) para que ela alcançasse um nível de timbragem e musicalidade alinhado ao que há de mais contemporâneo no reggae mundial. Estou sempre atento ao que está sendo produzido agora, ouvindo artistas que apontam novos caminhos e acompanhando de perto as trocas com músicos jamaicanos e ingleses que circulam pelo Brasil. Foram cerca de dois meses de trabalho intenso, em que utilizamos a inteligência artificial para transferir a melodia, harmonia e voz, buscando acomodar o canto aos tons necessários; sem perder a conexão com a origem do som da Bahia e com o reggae que a gente faz aqui”, explica.
A inspiração para a nova fase artística vem através das composições do jamaicano autor do LP indicado ao Grammy ‘Chronology’ (2017), Chronixx. Trazendo um repertório cultural que justifica as escolhas do novo single, Duda resgata a essência do reggae nos anos 1960, mas desta vez, trazendo o processo inverso às críticas sociais – exaltando a cidade em versos como “o melhor remédio para curar e superar a dor: Salvador, Salvamor”.
O resultado é uma faixa que preserva a essência espiritual e política do reggae, ao mesmo tempo em que se atualiza estéticamente, conectando Salvador ao circuito global do gênero. O amor pela ‘primeira capital do Brasil’ levou Duda à emplacar o hit durante o réveillon em Taipu de Fora; considerada como “música da edição” logo na estreia da faixa musical.
“Além da capital, tem um momento na canção que falamos da Bahia. ‘Tá triste? Bahia. Sem rumo? Bahia’. Aos poucos, estamos vendo mais e mais pessoas colocando o reggae nas trends que falam sobre a estética da Bahia, dessa coisa do baiano. Quem vem do Brasil ou de fora do país, e vem ao estado da Bahia para curtir as belezas, a comida, a música, o povo, no final, sempre tem destino à Salvador, que finaliza as ‘Águas de Março’ com o Carnaval e toda essa nossa magia que carregamos no peito”, conta Duda.
Influências de Bob Marley e o ‘novo reggae’ produzido na Bahia
Desde que o Legião Urbana lançou a faixa ‘O Reggae’ (1985), em que o baixo de Renato Rocha (Negrete) ficou conhecido por toda uma geração, a harmonia por trás do reggae se tornou um dos grandes fascínios do gênero no Brasil. Ao replicar essa estética, desta vez através da mixagem, masterização e arranjos produzidos com o auxílio da tecnologia, Duda Diamba traz uma proposta desafiadora ao seio da música brasileira, mas que encontra uma base de fãs fiéis do gênero musical.
A proposta inovadora surge logo após o lançamento do disco Pulverizando Beleza (2025), vinda de uma trajetória ao longo de quase trinta anos na Diamba, e que agora permanece em carreira solo. Autor de hits polêmicos como ‘Pardopatia’ e outros sucessos do gênero, como ‘Chama Chama’ e ‘Mais Uma Vez (So Long)’, o cantor também é responsável por assinar a versão do ‘Hino do Esporte Clube Bahia’ em reggae – e não esconde suas referências à ídolos como Bob Marley.
“Mesmo Bob Marley sendo um dos improváveis (muito pela questão da cor), ele se tornou, sem dúvida, um dos artistas mais relevantes do planeta e, certamente, o mais relevante do Terceiro Mundo. Hoje, após tantas adversidades, penso em outros ícones como Edson Gomes, que mesmo após 50 anos de uma carreira icônica, ainda luta para ter seus feitos reconhecidos. Mesmo assim, eu por outro lado, sigo trazendo esse som, porque acredito na força da música, em sua capacidade de conectar gerações e na potência de contar histórias de resistência e identidade”, comenta.
Em ode ao legado jamaicano, que rompeu as ilhas caribenhas há cerca de meio século em direção ao Brasil, Duda explica que o fascínio pelo reggae construiu toda a sua trajetória como artista. Através de um desejo antigo de homenagear o que está sem seu coração, dentro da sua linguagem poética, o cantor traz uma faixa movida ao amor pela cidade natal, revolucionando o processo do ‘fazer reggae no Brasil’.
“Eu amo a minha cidade. Meu RG começa com 071, então isso já diz muito sobre quem eu sou. Esse amor é intenso e carregado de paradoxo, porque hoje vivo em São Paulo, longe da beira da praia de Salvador, mas essa distância me faz valorizar ainda mais minha origem. Essa música traz, em primeiro lugar, esse frescor, essa novidade, mas também a carga poética legítima, verdadeira, de dizer exatamente o que sinto. Não é sobre escrever uma letra para conquistar alguém ou atender a uma tendência; é sobre fazer música que seja sincera e que carregue minha identidade. É assim que tento transmitir a Bahia e a minha história através do reggae”, conclui.
Sobre Duda Diamba
Duda Diamba é cantor, compositor e referência do reggae brasileiro. Com quase 30 anos de trajetória, une música, identidade e pertencimento em shows que transitam entre a consciência social e a celebração popular, mantendo o reggae vivo, atual e conectado ao seu tempo. Reconhecido como Duda Diamba, fundador e vocalista da banda Diamba por quase 30 anos, ajudou a construir e consagrar o reggae da Bahia. Hoje, consolida sua trajetória solo com repertório autoral, identidade definida e circulação nacional. Artista com cinco álbuns lançados, tem reconhecimento em festivais e grandes palcos pelo país.
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