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Centros cirúrgicos de clínica investigada por três mortes após plásticas são interditados em Laranjeiras

Polícia Civil cumpre mandados de busca e apreensão em unidade do Grupo de Saúde Celita Toledo, alvo de mais de 25 denúncias de pacientes por complicações após procedimentos estéticos

Agência O Globo - 21/10/2026
Centros cirúrgicos de clínica investigada por três mortes após plásticas são interditados em Laranjeiras
Centros cirúrgicos de clínica investigada por três mortes após plásticas são interditados em Laranjeiras - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Polícia Civil interditou, nesta quarta-feira, todos os centros cirúrgicos de uma unidade do Grupo de Saúde Celita Toledo, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, durante uma operação com mandados de busca e apreensão. A rede é investigada e é alvo de mais de 25 denúncias de complicações em cirurgias plásticas, incluindo mutilações, deformidades e sequelas permanentes.

A investigação da Operação Por Elas, da Delegacia do Consumidor (Decon), apura denúncias de pacientes que relatam complicações após intervenções realizadas na rede de saúde, incluindo deformidades, mutilações e sequelas permanentes.

Em agosto, durante outra ação policial no local, agentes apreenderam medicamentos e produtos fora do prazo de validade. Na ocasião, quatro pessoas foram levadas à delegacia para prestar esclarecimentos. O proprietário do Laranjeiras Plastic Day Hospital, Adriano da Silva Nascimento, chegou a ser preso, mas pagou fiança de R$ 10 mil e passou a responder em liberdade.

Três mortes sob investigação

Uma das mortes investigadas é a de Jéssica Conceição da Cruz, de 34 anos, que se submeteu a um conjunto de procedimentos estéticos em 14 de julho. Ela pagou R$ 12,8 mil por remodelamento costal, lipoaspiração e abdominoplastia. Depois de receber alta, apresentou dores intensas e febre, foi reinternada e passou por sucessivas intervenções. Após cerca de dois meses internada, morreu em 19 de setembro.

Segundo o depoimento do companheiro à polícia, o documento de óbito aponta peritonite fecal decorrente de complicação cirúrgica provocada por uma perfuração intestinal.

Outra paciente que morreu após um procedimento foi Isabely Viana, de 42 anos. Ela fez uma abdominoplastia em 12 de junho, apresentou uma queda brusca dos sinais vitais durante a cirurgia e sofreu uma parada cardiorrespiratória. Depois de passar cinco dias no Centro de Terapia Intensiva (CTI), morreu em 17 de junho.

Mutilações e sequelas

Além das mortes, pacientes procuraram a polícia para denunciar complicações após procedimentos realizados nas unidades do grupo. Os relatos incluem deformações nas mamas após a colocação de próteses, problemas no abdômen e no umbigo, necrose e ferimentos que permaneceram abertos durante meses. Algumas mulheres afirmam ter precisado de novas cirurgias para tentar reparar os danos.

Uma delas é Daiana Maurina Dias, psicanalista e estudante de Psicologia, que contou ao GLOBO ter economizado durante 17 anos para realizar uma cirurgia no abdômen. Ela pagou R$ 16 mil por procedimentos na região, uma lipoescultura e uma intervenção nos glúteos. Segundo seu relato, após a operação, sofreu sangramento, fraqueza intensa e complicações que evoluíram para necrose na área operada. Ela afirma que passou por tentativas de reparação, mas continuou com alterações no abdômen, dores e uma hérnia umbilical diagnosticada posteriormente.

A investigação também apura uma possível atuação irregular de médicos estrangeiros em cirurgias plásticas. Segundo a Decon, há suspeita de que profissionais de outros países tenham vindo ao Brasil para cursos de pós-graduação e, posteriormente, realizado procedimentos sem a qualificação necessária. A hipótese ainda está sob investigação.

As unidades do grupo ficam na Rua Soares Cabral, em Laranjeiras. A rede inclui a Clínica Celita Toledo, voltada a consultas e atendimentos ambulatoriais; o Laranjeiras Plastic Day Hospital, destinado a cirurgias; e o Hospital Ênio Serra, utilizado para internações em CTI.

Dona da rede foi candidata a deputada federal

A rede pertence a Celita Toledo, candidata a deputada federal pelo Republicanos. Em reportagem publicada em outubro, o GLOBO mostrou que o cirurgião José Adrian Bermudez Bohorquez, que atuava na rede, foi afastado cautelarmente das atividades em 21 de julho. O registro menciona perfurações de alças intestinais após a lipoaspiração realizada em Jéssica e informa que foram instauradas sindicâncias internas para apurar as circunstâncias do caso. O afastamento foi descrito como administrativo, cautelar e preventivo.

O mesmo cirurgião doou R$ 20 mil à campanha da médica. O valor correspondia a 19,46% dos recursos recebidos até então pela candidatura, segundo a prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A maior parte dos recursos havia sido repassada pela direção nacional do Republicanos, com cerca de R$ 62 mil, e pela direção estadual do partido no Rio, com outros R$ 19 mil. Celita declarou à Justiça Eleitoral possuir R$ 21,2 milhões em bens, concentrados principalmente em participações societárias.