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Pacientes relatam sequelas após cirurgias em clínica investigada por mortes no Rio
Em reportagem do Fantástico, mulheres dizem ter sofrido complicações graves; proprietária nega que alunos de pós-graduação realizassem operações.
Uma clínica de cirurgias plásticas em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, é alvo de uma investigação policial após denúncias de mortes e complicações graves em procedimentos estéticos. Em reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, pacientes relataram sequelas permanentes, e parentes de mulheres que morreram após as operações questionaram a assistência médica recebida. Segundo a apuração do programa, o inquérito inclui relatos de pelo menos 30 vítimas. Esta é a mesma clínica mostrada em duas reportagens do GLOBO, publicadas no início deste mês e em setembro.
Denúncia:
Investigação:
A investigação policial apura, entre outros pontos, se médicos em cursos de pós-graduação realizavam cirurgias sem a supervisão adequada e sem que as pacientes soubessem quem efetivamente conduzia os procedimentos. A reportagem também mostrou irregularidades identificadas em fiscalizações sanitárias e do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj).
Duas mortes e relatos de complicações graves
Uma das mulheres que morreu após passar por uma cirurgia na clínica foi Isabely, técnica de enfermagem de 42 anos, mãe de três filhos. Segundo a reportagem do Fantástico, ela se internou para fazer uma cirurgia plástica no abdômen e sofreu sucessivas paradas cardíacas durante o procedimento.
O marido, Cosme, contou ao programa que recebeu informações desencontradas sobre o que havia acontecido na sala de cirurgia. De acordo com o relato, a família foi informada de que houve uma complicação e de que a paciente precisou ser reanimada após paradas cardíacas.
— Minha filha saiu toda animada pra fazer essa cirurgia, toda animada. E antes dela entrar pra sala, mãe, já tô indo. Benção, Deus abençoe, filha. Nunca mais ela voltou pra mim, nunca mais — disse a mãe de Isabely, em entrevista ao Fantástico.
Outra paciente que morreu foi Jéssica, de 32 anos. Segundo o marido, Geneir, ela havia feito procedimentos no abdômen e nos seios e voltou à clínica porque não estava satisfeita com o resultado. Na ocasião, o médico teria sugerido uma remodelação costal, técnica que, segundo a reportagem, é proibida no Brasil para fins estéticos.
O procedimento consiste em modificar a posição das costelas inferiores para tornar a cintura mais estreita. Entre os riscos está a perfuração do intestino, complicação que, de acordo com o relato do marido à reportagem, teria ocorrido no caso de Jéssica.
Geneir afirmou que a mulher passou por sucessivas intervenções durante a internação, que durou cerca de dois meses. Ela morreu após desenvolver uma infecção generalizada.
Polícia investiga atuação de alunos durante cirurgias
De acordo com a apuração do Fantástico, a polícia investiga há cerca de seis meses as denúncias relacionadas à clínica. Em duas operações recentes, um dos sócios e um médico peruano sem registro profissional foram presos e liberados após prestarem depoimento, conforme relatado pelo programa.
Um dos pontos centrais do inquérito é a existência de convênios entre a clínica e instituições de ensino que oferecem cursos de pós-graduação em cirurgia plástica a médicos formados em países da América Latina. A investigação busca esclarecer se esses alunos, que deveriam acompanhar os procedimentos para fins de aprendizado, chegaram a operar pacientes sem supervisão e no lugar do cirurgião responsável.
Em entrevista ao Fantástico, um delegado afirmou que convênios entre hospitais e instituições de ensino são permitidos, mas ressaltou que os alunos deveriam atuar como observadores. Segundo ele, há suspeita de que alguns tenham exercido funções de cirurgiões sem que as pacientes fossem informadas. O delegado também apontou que documentos apresentados pelo hospital identificariam outro médico como responsável por procedimentos que estariam sendo realizados por alunos.
Cremerj aponta irregularidades
Uma vistoria do Cremerj identificou problemas na estrutura e na assistência pós-operatória da unidade, segundo a reportagem. A diretora ouvida pelo programa afirmou que não havia uma sala de recuperação pós-anestésica adequada e que foram constatadas situações em que não havia anestesista para acompanhar a recuperação das pacientes.
O conselho também apontou problemas na composição das equipes cirúrgicas. Segundo a representante do órgão, é obrigatório que haja um cirurgião auxiliar capacitado para assumir o procedimento caso o responsável principal não possa continuar. Na clínica, de acordo com o relato apresentado ao Fantástico, a função de auxiliar estaria sendo exercida irregularmente por médicos em formação.
O Cremerj iniciou um processo de interdição da unidade, mas, conforme a reportagem, a clínica continuava funcionando. A Vigilância Sanitária municipal também encontrou medicamentos fora do prazo de validade e notificou o estabelecimento.
Pacientes relatam sequelas e desconfiança
Além dos casos de morte, pacientes ouvidas pelo Fantástico relataram complicações e sequelas após procedimentos na clínica.
Adriane, professora que passou por uma cirurgia no abdômen, contou que desenvolveu necrose na região operada e uma infecção que quase a matou. Segundo ela, nos dias seguintes à cirurgia, a pele começou a se desprender e a área operada escureceu. A paciente afirmou que levou quase dois meses para controlar a infecção e que ainda enfrenta consequências físicas e emocionais.
Outra mulher, Gisele, relatou cicatrizes nas axilas após uma cirurgia para retirada de glândulas de gordura. Ela disse suspeitar que o procedimento tenha sido realizado por alunas de pós-graduação, e não pelo médico que acreditava ser o responsável.
Thayze, que passou por uma cirurgia para reduzir os seios e colocar próteses de silicone, também questionou o resultado e afirmou ter percebido diferenças entre as duas mamas, além de cicatrizes extensas. Segundo a reportagem, a clínica chegou a oferecer uma cirurgia reparadora, mas ela disse ter medo de voltar ao local diante das denúncias de complicações e mortes.
Dona da clínica nega irregularidades
Procurada pelo Fantástico, a proprietária da clínica, Celita Toledo, falou ao programa acompanhada de seu advogado. Ela confirmou duas mortes relacionadas a cirurgias plásticas realizadas no estabelecimento, mas negou que os procedimentos fossem feitos por alunos de pós-graduação.
— Isso não acontece, não, não concordo. As cirurgias são feitas pelos médicos, que são cirurgiões plásticas, com CRM, com tudo, e acompanhada pelos pós-gradandos — afirmou.
Celita disse ainda que está colaborando com as investigações e negou que o hospital tenha deixado de cumprir suas obrigações. Questionada sobre possíveis melhorias, afirmou que talvez fosse necessário selecionar melhor o público atendido.
A reportagem também mostrou publicações nas redes sociais em que a proprietária afirma não estar preocupada com as denúncias ou com a fiscalização sanitária.
As investigações sobre as mortes, as complicações relatadas pelas pacientes e a possível atuação irregular de médicos em formação seguem em andamento.
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