RJ em Foco
Apreensão de fuzis dispara enquanto a de munição cai
Para pesquisadores, contraste se explica pela dificuldade das autoridades em investigar redes que abastecem facções
O domínio territorial das facções do Rio depende de um fluxo constante de munições, usadas em confrontos com grupos rivais, na defesa de territórios e em ataques às forças de segurança. Com a preferência dos criminosos por fuzis, a munição desse tipo de armamento se tornou um recurso estratégico para sustentar o controle das comunidades. No entanto, enquanto a apreensão de fuzis bateu recorde — foram 922 em 2025, quase o dobro do registrado em 2018 —, a de munições para essas armas caiu 33%.
Em 2018, o cenário no Rio já era marcado pela apreensão de centenas de fuzis e dezenas de milhares de munições. Naquele ano, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), foram retirados de circulação 493 fuzis em todo o estado, além de 59.331 munições para esse tipo de armamento. Desde então, a série histórica levantada pelo Instituto Sou da Paz, com base em dados do ISP, não voltou a registrar um número tão alto de munições de fuzil apreendidas. Em 2025, quando as apreensões de armas desse tipo chegaram ao recorde de 922 unidades, a quantidade de munições recolhidas foi de 39.838.
Para Fábio Corrêa, promotor do Ministério Público do Rio (MPRJ), o recorde anual de apreensão de fuzis indica que as forças de segurança têm conseguido identificar e localizar essas armas. O desafio, porém, é avançar na identificação dos estoques de munições e dos fornecedores:
— A apreensão retira armas e munições de circulação, mas é a investigação da cadeia de abastecimento que retira das organizações criminosas a capacidade de repor esse material. É nisso que precisamos atuar: rastrear as rotas, monitorar as movimentações financeiras e identificar a cadeia de fornecimento que garante o poder de fogo das facções.
Tarefa exige integração
Segundo Corrêa, o trabalho para identificar a cadeia de fornecimento do crime organizado é complexo e exige integração entre os órgãos de segurança e o MPRJ:
— Existem fábricas de produção e carregamento de munições em áreas conflagradas e de difícil acesso, que precisam ser identificadas. Mas muito material também vem de fora, de diferentes estados e até de outros países. Por isso, o trabalho integrado é tão importante.
Para Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, a discrepância entre o número de fuzis e o de munições apreendidos aponta para uma possível falha na estratégia de segurança, que ainda privilegia o confronto direto em detrimento de investigações sobre as cadeias de abastecimento das facções.
— Quando a munição é apreendida já em poder dos criminosos, frequentemente dentro de carregadores, as quantidades tendem a ser menores, e os riscos para policiais e moradores são maiores. Nossa pesquisa mostra que interceptar carregamentos antes que cheguem às facções permite retirar volumes muito superiores de circulação. O desafio é deixar de atuar apenas sobre o poder de fogo já instalado e passar a interromper seu abastecimento — afirmou.
No estudo, pesquisadores do Instituto Sou da Paz analisaram 19 ocorrências registradas entre 2018 e 2025, envolvendo a apreensão de cerca de 24 mil munições de fuzil, para identificar as circunstâncias em que o material foi encontrado. Em nove casos, as apreensões ocorreram durante o transporte ou a guarda das munições. Juntas, essas ocorrências concentraram 92,83% do total analisado, com mais de 22 mil unidades apreendidas. Já as munições recolhidas em situações de uso somaram cerca de 1,1 mil.
Em maio, agentes da Polícia Rodoviária Federal interceptaram um carregamento com 10 mil munições de fuzil na Via Dutra (BR-116), em Resende, no Sul Fluminense. Uma mulher, que levava o material em um carro de passeio, afirmou que havia saído de Aparecida, em São Paulo, para entregar a carga no Rio.
Transporte pulverizado
O transporte de munição feito de forma pulverizada é apenas uma das formas de abastecimento do crime organizado. Entre as táticas investigadas pelas autoridades, estão a importação ilegal, a compra por meio de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) e o desvio de arsenal das próprias forças de segurança. Em conversas interceptadas durante investigações, chefes do tráfico negociam abertamente a compra de carregadores e caixas fechadas de munição para abastecer as armas mantidas nos complexos de comunidades do Rio.
Em conversa obtida pela Polícia Federal, Manoel Cinquine Pereira, conhecido como Paulista e apontado como um dos chefes do CV, fala com Edgar Alves de Andrade, o Doca, sobre a aquisição de carregadores e munições para os fuzis do Complexo da Penha, um dos principais redutos da facção. Na troca de mensagens, Paulista diz que receberá regularmente carregadores novos, ainda nas embalagens originais, e menciona a compra de centenas de caixas de munição.
Em nota, a Polícia Militar informou que, de acordo com os dados de suas operações, a relação entre o volume de apreensões de fuzis e de munições permanece estável. Disse ainda que as apreensões de armas e munições efetuadas pela corporação são resultado de ações ostensivas, “muitas delas resultando em confrontos com grupos criminosos”.
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