RJ em Foco
Muito além das fotos: Cristo Redentor recebe casamentos, batizados e até chás de revelação; conheça histórias
Aos 95 anos, cartão-postal é cenário de celebrações que se multiplicam e criam laços afetivos entre famílias; Regina Casé e Ana Paula Araújo relembram momentos especiais
De repente, faz-se silêncio. Sucedem-se, então, aplausos, berros, choros e gargalhadas. Quase todo dia há um pedido de casamento aos pés do Cristo Redentor. E aí, não tem jeito: momentaneamente, o monumento perde o protagonismo. Foi assim numa tarde de junho deste ano. Em viagem de férias, o paulista Thales Mendes armou uma surpresa para a namorada Katherine Cardoso. Enquanto ela era fotografada por um guia turístico — numa pose em que aparecia de costas, olhando o cartão-postal —, o rapaz ajoelhou, num canto, e ergueu a caixinha com as alianças. Ao que o fotógrafo gritou para a moça: “Agora vira para a câmera”. E, frente a frente com o homem abaixado, ela demorou, e muito, a perceber a situação. Lá no alto, todo mundo assistia à cena, que viralizou na web.
— Agora, todo ano a gente quer retornar ao Cristo para relembrar este momento único — comove-se Katherine.
Cenário de promessas e demonstrações de fé — e flashes, muitos flashes —, o Cristo Redentor também se consolida como palco de celebrações. Fora do horário de visitação, é possível reservar o espaço para cerimônias particulares. As solicitações, aliás, são cada vez mais frequentes.
Há cerca de duas décadas, os batizados se restringiam aos fins de semana. Hoje, acontecem diariamente, numa média de 80 por mês. A frequência dos matrimônios, que exigem estrutura mais robusta, é um pouco menor: todo mês, cerca de 15 casais dizem “sim” no alto do morro. E mais. O moderninho “chá de revelação” — para pais que desejam saber o sexo do bebê — também ganha preparo por ali. Mas nada de fumaça azul ou rosa ou estouro de balões coloridos. Na ocasião, um padre anuncia, em missa especial, o nome da criança (algo previamente informado por familiares) e, tcharan, eis a revelação se virá ao mundo um menino ou uma menina. A demanda por eventos assim ganhou fôlego após a pandemia. Só neste ano, até o mês de setembro, foram 71 casamentos.
— As pessoas criam todo um laço afetivo com este lugar. Há famílias que se casaram aqui, tiveram o primeiro filho e voltaram para batizá-lo. Depois, tiveram o segundo, o terceiro, e também os batizaram — conta Carlos Alberto Ferreira da Silva, da secretaria pastoral do santuário, responsável pela organização das cerimônias, que devem ser requeridas em santuariocristoredentor.com.br.
Batizado a céu aberto
Uma das comemorações pioneiras no local foi vivenciada pela jornalista e colunista do GLOBO. Em janeiro de 2007, sua filha Melissa, então com 1 ano, se tornou a primeira criança batizada no Cristo Redentor, elevado à condição de santuário poucos meses antes. A ideia surgiu quase por acaso. O padrinho da menina, que morava em Londres, estava de passagem pelo Rio justamente na época do aniversário dela. Ana Paula procurou o padre Omar Raposo para organizar a cerimônia, inicialmente prevista para uma igreja da Zona Sul. Foi ele, então, quem sugeriu o novo endereço. Só havia um porém: a capela — que fica abaixo dos pés do monumento — estava em obras, e o batizado precisaria acontecer ao ar livre. A jornalista gostou.
Duas vans levaram familiares e amigos ao Corcovado, onde uma mesa improvisada recebeu os objetos da cerimônia, que atraiu a curiosidade de turistas. A certa altura, o padre perguntou se alguém gostaria de pedir a bênção de algum santo. E eis que surgiram manifestações em diferentes línguas e sotaques, com direito a invocações a São Patrício e outros santos estrangeiros.
— É uma das lembranças mais felizes que tenho. Inesquecível mesmo. Melissa sempre recorda disso e tem o maior orgulho — diz Ana Paula, que fez uma promessa a Santa Clara para afastar a chuva.
A atriz também coleciona lembranças no local. Ela até perde as contas ao enumerar os momentos marcantes diante do Cristo. Ali, participou de uma cerimônia pela recuperação do marido, o diretor e roteirista Estêvão Ciavatta (vítima de um acidente que o deixou temporariamente tetraplégico); da primeira eucaristia do filho Roque; do batismo da afilhada Estrela, filha de Xande de Pilares; e da missa de sétimo dia em homenagem a Paulo Gustavo.
— São muitas e muitas lembranças, todas lindas e abençoadas. Aquele lugar é mágico — resume a artista.
Para Jacqueline Logrado, o Cristo é quase uma extensão do álbum de família. Maranhense apaixonada pelo Rio, onde já morava havia uma década, ela escolheu o alto do Corcovado para se casar com o carioca Bruno Garcia, em 2021. A cerimônia aconteceu durante o nascer do sol, diante de um grupo restrito de convidados. Enquanto os noivos trocavam alianças, a cidade despertava lá embaixo.
— Casar às cinco da manhã, naquele silêncio ensurdecedor, com as pessoas que a gente mais ama no mundo, foi muito emocionante. Lembro-me do Rio acordando aos nossos pés — rememora ela.
O casamento inaugurou uma tradição particular. Nos anos seguintes, o casal voltou ao Cristo para batizar cada um dos quatro filhos. Hoje, da janela de casa, eles avistam o monumento, que certamente os observa lá do alto. Afinal, há quem veja tudo, sempre.
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