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Do desperdício ao combate à fome: leis incentivam doação de alimentos no Rio; veja iniciativas e como ajudar
Estima-se que cada brasileiro desperdice 77 quilos de comida por ano; programas de redistribuição de alimentos e medidas aprovadas pela Alerj buscam ampliar o acesso à alimentação
Enquanto parte da população enfrenta dificuldades para garantir uma refeição diária, toneladas de alimentos próprios para consumo acabam descartadas ao longo da cadeia de produção e distribuição. O desperdício começa ainda no campo, durante a colheita, e se estende ao armazenamento, ao transporte, aos supermercados, restaurantes e residências. No Dia Mundial da Alimentação, celebrado nesta sexta-feira (16), iniciativas de redistribuição de alimentos e leis aprovadas pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) buscam reduzir essas perdas e ampliar o acesso à comida.
Idosa baleada:
Rivaldo Barbosa, Álvaro Lins e Marcus Amim:
Uma publicação divulgada em setembro deste ano pelo Pacto Contra a Fome aponta que cada brasileiro desperdiça, em média, 77 quilos de alimentos anualmente. Já um diagnóstico elaborado pela organização em parceria com a Integration Consulting, em 2022, estimou as perdas e o desperdício em 55,4 milhões de toneladas por ano no Brasil, considerando todas as etapas da cadeia alimentar.
No estado do Rio, programas de reaproveitamento têm destinado a instituições sociais produtos que perderam valor comercial, mas continuam adequados ao consumo. Entre janeiro e agosto deste ano, o programa Destino Certo, do Assaí Atacadista, encaminhou 267 toneladas de frutas, legumes e verduras a organizações sociais e bancos de alimentos. Segundo a empresa, os produtos contribuíram para o preparo de aproximadamente 490 mil refeições.
Tecnologia conecta doadores e instituições
Uma das iniciativas que buscam aproximar empresas com excedentes de alimentos de organizações sociais é o Instituto Fome de Tudo, fundado por Úrsula Corona. A instituição utiliza uma plataforma tecnológica para facilitar a redistribuição de produtos que, de outra forma, poderiam ser descartados.
Segundo o instituto, a iniciativa já beneficiou 400 mil pessoas e contribuiu para a distribuição de 9 milhões de refeições. Atualmente, a operação movimenta cerca de 500 toneladas de alimentos por mês e reúne uma rede de 4,5 mil parceiros.
Thiago Gomide:
Além de combater o desperdício, o projeto busca fortalecer pequenos produtores, ampliando as possibilidades de comercialização e distribuição dos alimentos.
— O que mais quero é contribuir com o nosso país e escalar nossa tecnologia para empoderar economicamente cada vez mais os pequenos produtores — afirma Úrsula.
Em parceria com o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP), o instituto também desenvolve a campanha Fome Não Tira Férias, voltada à alimentação de crianças durante férias escolares, recessos e outros períodos em que não há aulas. A proposta é ampliar o acesso à comida fora do calendário letivo.
Bancos de alimentos ampliam distribuição
Outra frente de combate ao desperdício está nos bancos de alimentos, que recebem produtos de empresas e produtores rurais e os encaminham a instituições sociais. Em agosto deste ano, o Banco de Alimentos da Ceasa, no Rio, captou 100 toneladas de produtos, destinados a 300 instituições que atendem cerca de 60 mil pessoas. Os números constam de um balanço divulgado em setembro. O abastecimento combina doações de empresas que atuam na central de abastecimento com produtos adquiridos da agricultura familiar por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
O Sesc Mesa Brasil RJ também atua na redistribuição de alimentos próprios para consumo que deixariam de ser comercializados. Os produtos são recolhidos e encaminhados a organizações socioassistenciais cadastradas.
O programa mantém ainda uma parceria com agricultores de Nova Friburgo, na Região Serrana, para recolher excedentes da produção e alimentos que não atendem aos padrões comerciais. Além das doações, promove atividades educativas sobre o aproveitamento integral dos ingredientes.
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Já a Ação da Cidadania, responsável pela campanha Natal sem Fome, mantém na sede nacional, no Rio, um banco de alimentos e uma Cozinha Solidária. A estrutura reúne a preparação de refeições, atividades de formação em gastronomia social e hortas.
Leis estaduais preveem medidas contra a fome
Além das iniciativas de organizações sociais e empresas, a Alerj aprovou leis voltadas à segurança alimentar e ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Uma delas é a Lei 10.543/2024, de autoria da deputada estadual Renata Souza (PSOL), que instituiu o Programa Estadual para a Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, Pequenos Produtores e Pescadores Artesanais. Ela prevê a compra de produtos desses trabalhadores para atender pessoas em situação de vulnerabilidade e abastecer restaurantes, cozinhas comunitárias, coletivas e solidárias.
Outra medida é a Lei 10.702/2025, proposta pelo deputado Danniel Librelon (Republicanos), que instituiu o Programa de Segurança Alimentar para Atendimento de Pessoas em Situação de Rua.
Já a Lei 10.793/2025, de autoria da deputada Marina do MST, determina que profissionais e gestores de saúde façam a notificação compulsória de casos com indícios de insegurança alimentar e nutricional.
Planejamento das compras pode evitar desperdício em casa
A redução das perdas também passa por mudanças de hábitos dentro das residências. Conferir os alimentos disponíveis antes de ir ao supermercado, planejar as refeições e comprar quantidades compatíveis com o consumo da família são algumas das medidas que ajudam a evitar descartes e reduzir os gastos.
A dona de casa Simone Benase, de 48 anos, conta que passou a prestar mais atenção ao que já tinha na geladeira e na despensa antes de fazer novas compras.
— Quando jogo comida fora, sinto que estou jogando dinheiro fora também. Por isso, passei a conferir o que tenho em casa antes de comprar e a levar só o que consigo consumir. Também procuro aproveitar melhor os alimentos: as cascas de algumas frutas, por exemplo, uso para fazer suco — relata.
A nutricionista Lilian Gullo explica que partes dos vegetais frequentemente descartadas podem ser aproveitadas em diferentes receitas, desde que estejam em condições adequadas para consumo.
Talos de brócolis, couve e beterraba, por exemplo, podem ser utilizados em sopas, refogados e recheios. Folhas de cenoura e beterraba podem entrar no preparo de omeletes, bolinhos e farofas. Já cascas de abóbora, batata e berinjela podem ser aproveitadas em preparações assadas ou refogadas.
— Muitas partes que costumamos descartar podem ser utilizadas em preparações saborosas e nutritivas. Combater o desperdício significa reconhecer o valor de cada alimento e de cada pessoa que trabalha para que ele chegue até nós — afirma a nutricionista.
Saiba como contribuir com as iniciativas
Instituto Fome de Tudo: empresas e instituições interessadas em estabelecer parcerias podem acessar o site fomedetudo.com ou escrever para [email protected]. A campanha Fome Não Tira Férias também recebe contribuições pelo site fomenaotiraferias.com.
Sesc Mesa Brasil RJ: interessados em doar alimentos podem entrar em contato pelo e-mail [email protected]. A equipe orienta sobre as condições para recebimento e distribuição dos produtos.
Ação da Cidadania: pessoas e empresas podem consultar as campanhas de arrecadação e as formas de contribuição pelo site acaodacidadania.org.br.
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