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PF diz que Canella movimentou R$ 1,4 milhão sem origem esclarecida; veja transações

Valor foi transferido em 21 operações por empresa da qual ex-prefeito de Belford Roxo é sócio; investigação identificou repasses a familiares, aliados políticos e outras empresas

Agência O Globo - 16/10/2026
PF diz que Canella movimentou R$ 1,4 milhão sem origem esclarecida; veja transações
PF diz que Canella movimentou R$ 1,4 milhão sem origem esclarecida; veja transações - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Polícia Federal (PF) identificou uma movimentação de R$ 1,4 milhão cuja origem primária não foi esclarecida nas contas do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil), preso nesta quinta-feira durante a oitava fase da Operação Unha e Carne. Segundo os investigadores, o dinheiro foi transferido pela Brumar Empreendimentos e Participações, empresa da qual o político é sócio, em 21 operações bancárias realizadas entre maio de 2025 e abril de 2026. A instituição financeira que comunicou as movimentações suspeitas não conseguiu identificar de onde vieram originalmente os recursos.

Unha e Carne:

Investigação:

Os dados constam da representação encaminhada pela PF ao Supremo Tribunal Federal (STF), que embasou a decisão do ministro Alexandre de Moraes de decretar a prisão preventiva de Canella, deputado estadual eleito e segundo mais votado do Rio nas eleições deste ano. No documento, os investigadores apontam o político como articulador de uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita.

De acordo com a representação, Canella recebeu aproximadamente R$ 2.594.294,49 em créditos bancários no período analisado. Desse total, R$ 1.402.294,90 tiveram origem na Brumar, sociedade dividida em partes iguais entre o ex-prefeito e o empresário Bruno Viana de Souza. A PF afirma que os valores chegaram à conta do político após passarem por movimentações da empresa em outra instituição financeira, o que dificultou a identificação de sua procedência original.

Prisão de Canella e Amim:

Para os investigadores, esse padrão constitui indício de possível lavagem de dinheiro, já que a circulação de recursos entre contas e instituições pode dificultar o rastreamento dos valores. A ausência de identificação da origem primária, no entanto, não comprova, por si só, que o dinheiro seja proveniente de atividade criminosa.

A investigação também identificou transferências posteriores a familiares, integrantes do círculo político de Canella e empresas ligadas ao próprio grupo. Entre os destinatários mencionados estão Mariana Malta Monteiro da Silva, sucessora de Canella na prefeitura de Belford Roxo, que recebeu R$ 50 mil; Patrícia Stampini de Oliveira, mulher do ex-prefeito, com R$ 15 mil; e Maria José Correia da Silva, mãe do político, com R$ 5 mil.

A PF também registra pagamentos de R$ 100 mil à MCO Participações e de outros R$ 100 mil à G.A.D.U. Automóveis. Os investigadores consideram que a circulação de dinheiro entre pessoas físicas e jurídicas relacionadas pode representar um mecanismo de dispersão patrimonial. Os registros, isoladamente, não demonstram irregularidades por parte dos destinatários das transferências.

Lavagem de dinheiro:

Sociedade com empresário ligado a postos de combustíveis:

Outro elemento examinado pela PF é a participação de Bruno Viana de Souza no setor de combustíveis. Segundo a representação, o sócio de Canella na Brumar também possui vínculo societário com o Posto de Gasolina São Sebastião de Belford Roxo, estabelecimento que registrou mais de R$ 10 milhões em depósitos em espécie comunicados ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Veja também:

Quem é Marcus Amim:

A própria Brumar já havia chamado a atenção das instituições financeiras. Entre agosto e outubro de 2021, a empresa movimentou aproximadamente R$ 264,8 mil em créditos e R$ 264,2 mil em débitos. Nesse período, Canella transferiu R$ 100 mil à sociedade, enquanto Bruno Viana realizou um saque de R$ 48 mil em dinheiro.

Segundo a PF, a instituição financeira apontou que o valor sacado estava próximo do limite regulamentar de comunicação automática ao Coaf, circunstância considerada indicativa de possível fracionamento de operações.

Além das transações bancárias, os investigadores encontraram anotações manuscritas na residência de outros suspeitos com referências a pagamentos destinados a Canella. Os registros mencionam repasses de R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil, este último associado ao codinome "Amigo". As quantias aparecem relacionadas aos postos Jardim Ubá e LP Francis, integrantes da rede investigada.

Prisão de Canella e Amim:

A representação sustenta que esses pagamentos, sem lastro contratual aparente, reforçam a suspeita de que o político seria beneficiário recorrente de valores provenientes do núcleo econômico da organização. Para a PF, embora Canella não tenha sido identificado como operador direto das movimentações financeiras do grupo, os registros indicariam sua participação na distribuição dos recursos.

Investigação levou à prisão de seis suspeitos:

As movimentações financeiras integram uma investigação mais ampla sobre suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção, comercialização irregular de combustíveis e formação de cartel. Um relatório do Coaf identificou aproximadamente R$ 7,6 bilhões em movimentações envolvendo 835 pessoas físicas e jurídicas interligadas entre maio de 2020 e março de 2026. O montante representa o conjunto das transações analisadas, e não dinheiro comprovadamente desviado.

Esposas 'laranjas':

Eleições 2026:

A apuração avançou após as buscas realizadas em julho, quando a PF apreendeu documentos, celulares e registros financeiros em endereços ligados aos investigados. A análise desse material embasou novos pedidos de prisão preventiva apresentados ao STF em setembro.

Além de Canella, foram alvos das ordens de prisão o ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim e quatro policiais civis: Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo; José Carlos Alves de Souza Júnior; e os irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes. Segundo os investigadores, o grupo teria mantido uma estrutura empresarial e política destinada à exploração de postos de combustíveis e à ocultação de recursos.

Unha e carne:

Por meio de sua advogada, Sheila Lustoza, Márcio Canella afirmou que "confia em Deus, na Justiça e tem certeza de que tudo será esclarecido".